Como preservar massa muscular usando tirzepatida?

Mulher sentada em um banco de academia realizando o exercício de desenvolvimento de ombros com halteres. Ela veste um conjunto de top e calça legging cinza-escuro e mantém o foco no movimento. Ao fundo, o ambiente amplo da academia mostra outras pessoas treinando e diversos equipamentos de musculação. Mulher em uso de tirzepatida, mantendo massa muscular.

A preocupação com perda de massa muscular durante o emagrecimento voltou ao centro das discussões com a popularização da tirzepatida. Muitos pacientes observam reduções expressivas no peso corporal e imediatamente surge a dúvida: será que parte desse peso perdido é músculo?

A resposta curta é sim. Entretanto, a pergunta mais importante é outra: a perda de massa magra observada com a tirzepatida é maior do que aquela normalmente observada em qualquer processo de emagrecimento?

A evidência atual sugere que não.

Para médicos que acompanham pacientes em emagrecimento, praticantes de musculação e profissionais da saúde envolvidos com composição corporal, compreender essa diferença é fundamental para orientar estratégias adequadas de treinamento, nutrição e monitoramento.

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A tirzepatida realmente causa perda muscular?

A tirzepatida promove perda de peso substancial através da ativação dos receptores de GIP e GLP-1, reduzindo ingestão energética, aumentando saciedade e favorecendo alterações metabólicas associadas à perda de gordura.

O ponto que gera confusão é que praticamente toda intervenção eficaz para emagrecimento produz algum grau de perda de massa magra.

No estudo SURMOUNT-1, uma das análises mais completas de composição corporal realizadas até o momento, aproximadamente:

  • 74% da perda de peso correspondeu à massa gorda;
  • 26% correspondeu à massa magra.

Curiosamente, essa proporção foi praticamente idêntica à observada no grupo placebo que também perdeu peso.

Em outras palavras, a tirzepatida não parece induzir uma perda desproporcional de músculo. O que ocorre é o padrão fisiológico esperado durante o emagrecimento.

Massa magra não é sinônimo de músculo

Outro erro frequente é assumir que toda massa magra perdida corresponde a tecido muscular funcional.

Na prática, a massa magra inclui:

  • água corporal;
  • glicogênio;
  • órgãos;
  • tecido conjuntivo;
  • conteúdo intracelular;
  • músculo esquelético.

Durante o emagrecimento ocorre redução importante dos estoques de glicogênio e água associada, contribuindo significativamente para a diminuição da massa livre de gordura medida por DXA ou bioimpedância.

Portanto, interpretar qualquer redução de massa magra como perda muscular relevante é uma simplificação excessiva.

O que acontece com a qualidade muscular?

Talvez o dado mais interessante dos estudos recentes seja que o músculo pode ficar mais saudável apesar da redução de volume, do ponto de vista metabólico.

A análise por ressonância magnética do estudo SURPASS-3 demonstrou:

  • redução da gordura infiltrada no músculo;
  • melhora da composição muscular;
  • redução da gordura ectópica.

Esse achado é particularmente relevante em indivíduos com obesidade, nos quais a infiltração gordurosa muscular está associada à resistência à insulina, pior desempenho físico e maior risco cardiometabólico.

Assim, reduzir gordura intramuscular pode representar um ganho funcional importante, mesmo quando ocorre diminuição do volume muscular total.

A função física piora durante o tratamento?

Os dados atuais apontam exatamente para o contrário.

Nos estudos SURMOUNT, os participantes tratados com tirzepatida apresentaram melhora consistente em medidas de qualidade de vida e função física.

Foram observados:

  • melhores escores no SF-36;
  • redução das limitações para atividades físicas;
  • melhora da capacidade funcional autorrelatada;
  • aumento da proporção de indivíduos que se consideravam sem limitações para exercício.

Esses resultados sugerem que a perda de peso obtida supera eventuais efeitos negativos da redução de massa magra.

Na prática clínica, muitos pacientes relatam maior disposição para caminhar, correr, treinar e realizar atividades do cotidiano após reduções significativas do peso corporal.

Como preservar massa muscular usando tirzepatida?

Embora a tirzepatida não pareça causar perda muscular acima do esperado para o emagrecimento, algumas estratégias são fundamentais para minimizar esse efeito.

1. Priorizar treinamento de força

O treinamento resistido continua sendo a intervenção mais importante para preservação muscular durante déficit energético.

Alguns princípios fundamentais incluem:

  • manutenção da progressão de cargas;
  • treinamento próximo da falha muscular;
  • volume semanal adequado;
  • frequência compatível com recuperação.

Um erro comum é reduzir drasticamente a intensidade dos treinos durante o emagrecimento.

O músculo preserva-se principalmente quando recebe estímulo mecânico suficiente para justificar sua manutenção.

2. Garantir ingestão proteica adequada

A redução espontânea da ingestão alimentar promovida pela tirzepatida pode levar a uma queda importante no consumo proteico.

Por isso, a proteína deve se tornar prioridade alimentar.

Embora os estudos específicos com tirzepatida ainda sejam limitados, a literatura de emagrecimento sugere que ingestões mais elevadas de proteína favorecem a preservação da massa magra durante déficit calórico.

3. Evitar déficits energéticos desnecessariamente agressivos

Muitos pacientes utilizam tirzepatida e simultaneamente impõem restrições alimentares extremas.

Essa combinação pode acelerar a perda de peso, mas também aumentar o risco de perda de massa magra.

A velocidade do emagrecimento deve ser compatível com os objetivos clínicos e com a capacidade de preservar desempenho físico.

4. Monitorar composição corporal

O peso isoladamente fornece pouca informação.

Sempre que possível, vale acompanhar:

  • circunferência abdominal;
  • composição corporal por DXA;
  • bioimpedância seriada;
  • desempenho nos exercícios;
  • força muscular.

A manutenção da performance frequentemente é um indicador mais útil do que pequenas oscilações em medidas de composição corporal.

Novas estratégias farmacológicas para preservação muscular

Uma das áreas mais promissoras da pesquisa atual envolve associações entre incretinas e agentes com potencial anabólico muscular.

O estudo EMBRAZE avaliou a combinação de tirzepatida com apitegromab, um inibidor de miostatina – os resultados preliminares sugerem maior preservação de massa magra em comparação à tirzepatida isoladamente.

Apesar do entusiasmo, ainda é cedo para incorporar essas estratégias à prática clínica rotineira.

São necessários estudos maiores e com desfechos funcionais robustos antes de qualquer recomendação definitiva.

Erros comuns ao interpretar a perda muscular com tirzepatida

Erro 1: acreditar que toda massa magra perdida é músculo

Massa magra inclui diversos componentes além do tecido muscular.

Erro 2: avaliar apenas o peso corporal

Reduções importantes de gordura podem ocorrer mesmo quando a massa magra sofre pequenas reduções.

Erro 3: abandonar musculação durante o tratamento

A retirada do principal estímulo anabólico favorece perda muscular desnecessária.

Erro 4: negligenciar proteína

A redução do apetite pode diminuir significativamente a ingestão proteica.

Erro 5: interpretar redução de volume muscular como piora funcional

Os estudos atuais mostram melhora consistente da função física e da qualidade muscular.

Limitações da evidência atual

Apesar dos resultados animadores, algumas limitações precisam ser reconhecidas:

  • poucos estudos avaliaram diretamente força muscular;
  • a maioria dos dados envolve adultos com obesidade;
  • faltam estudos em fisiculturistas e atletas;
  • ainda não existem evidências robustas sobre estratégias ideais de treinamento associadas à tirzepatida;
  • o acompanhamento de longo prazo permanece limitado.

Portanto, ainda não é possível extrapolar todos os resultados para populações esportivas altamente treinadas.

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Resumo prático

A tirzepatida promove perda de peso predominantemente às custas de gordura corporal, com aproximadamente 75% da redução de peso proveniente de massa gorda e cerca de 25% de massa magra. Esse padrão é semelhante ao observado em outras estratégias de emagrecimento.

Além disso, estudos demonstram melhora da qualidade muscular, redução da infiltração gordurosa no músculo e melhora consistente da função física.

Para preservar massa muscular durante o tratamento, os pilares continuam sendo:

  1. treinamento de força adequado;
  2. ingestão proteica suficiente;
  3. monitoramento da composição corporal;
  4. evitar restrições energéticas excessivas.

A preocupação não deve ser apenas preservar quantidade de músculo, mas também manter função, desempenho e qualidade muscular.

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Referências (ABNT)

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GIBBLE, T. H. et al. Tirzepatide and health-related quality of life in adults with obesity or overweight: Results from the SURMOUNT-3 phase 3 randomized trial. Diabetes, Obesity and Metabolism, v. 27, n. 8, p. 4268–4279, 2025.

GONZALEZ-RELLAN, M. J.; DRUCKER, D. J. New Molecules and Indications for GLP-1 Medicines. JAMA, v. 334, n. 14, p. 1231–1234, 2025.

JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine, v. 387, n. 3, p. 205–216, 2022.

LOOK, M. et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism, v. 27, n. 5, p. 2720–2729, 2025.

SATTAR, N. et al. Tirzepatide and Muscle Composition Changes in People With Type 2 Diabetes (SURPASS-3 MRI): A Post-Hoc Analysis of a Randomised Phase 3 Trial. Lancet Diabetes & Endocrinology, v. 13, n. 6, p. 482–493, 2025.

SCHMIDT, P. H. S. et al. Tirzepatide on physical function in adults with overweight or obesity: A systematic review and meta-analysis. Diabetes, Obesity and Metabolism, v. 28, n. 4, p. 3335–3343, 2026.

Autor

  • Karin Coca Aguilar

    Médica ortopedista pela Santa Casa de São Paulo, especialista em doenças neuromusculares e pós-graduada em Medicina Esportiva - CRM SP 214165 | RQE 125200 | TEOT 19613 | SBOP 1056

    Atuo na ortopedia pediátrica, medicina esportiva e prevenção de lesões, com foco na saúde e no movimento em todas as fases da vida. Acredito na medicina baseada em evidências associada a um olhar individualizado, especialmente no cuidado de crianças e adolescentes em fase de crescimento, prática esportiva e reabilitação.

     

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