Vitamina D em Atletas Pediátricos: Quando Avaliar, Suplementar e Monitorar

Uma jovem atleta negra, sorridente e com cabelos trançados, é capturada em pleno salto sobre uma barreira em uma pista de atletismo vermelha ao ar livre. Ela veste um uniforme esportivo com regata amarela e detalhes verdes, e shorts pretos. Ao fundo, o sol poente cria um brilho dourado intenso ao redor dela, iluminando o gramado verde do estádio e a arquibancada. Outras crianças aparecem correndo ao longe na pista, sob a luz quente do fim de tarde. Criança em uso de vitamina D.

A deficiência de vitamina D é uma condição frequente em atletas jovens, especialmente durante os meses de inverno no hemisfério Norte – onde os dias são mais curtos e as noites são mai longas, em esportes indoor e em indivíduos com baixa exposição solar. Embora a suplementação profilática seja recomendada para crianças e adolescentes pela Endocrine Society, o manejo do atleta pediátrico com deficiência confirmada exige uma abordagem mais estruturada.

Para médicos que atuam com crianças e adolescentes fisicamente ativos, compreender quando investigar, como suplementar e como monitorar a reposição é fundamental para reduzir riscos relacionados à saúde óssea e ao processo de treinamento esportivo.

Nesse contexto, o domínio da avaliação nutricional, endocrinológica e esportiva faz parte da formação necessária para uma prática moderna em Medicina do Esporte.

A deficiência de micronutrientes é apenas um dos diversos desafios encontrados na prática esportiva pediátrica. Para aprofundar o raciocínio clínico aplicado ao atleta jovem, confira o Curso A Medicina do Esporte Que Todo Médico Tem Que Saber. 

Por que a deficiência de vitamina D preocupa no atleta pediátrico?

A vitamina D participa de múltiplos processos fisiológicos relevantes para o esporte:

  • Homeostase do cálcio e fósforo;
  • Mineralização óssea;
  • Remodelação do tecido ósseo;
  • Função neuromuscular;
  • Regulação imunológica;
  • Recuperação após treinamento.
 

Em atletas pediátricos, a preocupação é ainda maior porque o pico de aquisição de massa óssea ocorre durante a infância e adolescência. Níveis inadequados de vitamina D durante esse período podem comprometer a saúde esquelética e aumentar o risco de lesões por sobrecarga.

Quando tratar uma deficiência confirmada?

Após confirmação laboratorial de deficiência de vitamina D por meio da dosagem sérica de 25(OH)D, deve-se investigar:

  • Grau da deficiência;
  • Se existem sintomas associados;
  • Histórico de fraturas por estresse;
  • Restrições alimentares;
  • Baixa disponibilidade energética;
  • Doenças gastrointestinais que prejudiquem absorção;
  • Uso de medicamentos que interfiram no metabolismo da vitamina D.
 

A simples reposição sem avaliação do contexto clínico pode não corrigir o problema de forma duradoura. Deve-se avaliar o paciente como um todo, entender sua rotina e hábitos.

Protocolos de suplementação em atletas pediátricos

As diretrizes pediátricas e endocrinológicas apresentam diferentes estratégias terapêuticas, geralmente baseadas na idade e na gravidade da deficiência.

Insuficiência de vitamina D (≥20 a <30 ng/mL)

Em crianças e adolescentes sem manifestações clínicas importantes, costuma-se utilizar suplementação diária por algumas semanas ou meses, associada à reavaliação laboratorial.

A reposição diária apresenta vantagens como:

  • Menor risco de flutuações séricas;
  • Melhor perfil de segurança;
  • Facilidade de ajuste terapêutico.

Deficiência importante (<20 ng/mL)

Nos casos de deficiência mais acentuada, alguns protocolos utilizam doses mais elevadas por período limitado, seguidas por esquema de manutenção.

Entretanto, o uso de altas doses deve ser individualizado e acompanhado por profissional habilitado, especialmente em atletas jovens.

Fase de manutenção

Após normalização dos níveis séricos, a maioria dos pacientes necessita manutenção contínua, particularmente quando persistem fatores de risco como:

  • Esportes indoor;
  • Alta latitude;
  • Pele mais pigmentada;
  • Baixa exposição solar;
  • Restrição alimentar.

Como monitorar a resposta ao tratamento?

O principal exame utilizado é a dosagem sérica de 25-hidroxivitamina D.

Na prática clínica, recomenda-se reavaliar:

  • 25(OH)D;
  • Cálcio sérico;
  • Fósforo;
  • Fosfatase alcalina (quando indicado);
  • Paratormônio (PTH) em situações selecionadas.

A reavaliação geralmente é realizada após período suficiente, em geral, de 8 a 12 semanas, para estabilização dos níveis séricos, permitindo verificar se houve resposta adequada à suplementação.

O monitoramento também deve incluir aspectos clínicos como:

  • Dor musculoesquelética;
  • Histórico de novas lesões;
  • Fraturas por estresse;
  • Frequência de infecções respiratórias;
  • Evolução do treinamento.

Existe um nível ideal para desempenho esportivo?

Esse é um dos temas mais debatidos na literatura.

Embora níveis adequados de vitamina D sejam importantes para saúde óssea e neuromuscular, as evidências atuais não demonstram melhora consistente do desempenho físico apenas pela suplementação.

Farrokhyar et. al (2017) mostra que a suplementação da vitamina D faz a correção nos casos em que há uma deficiência ou insuficiência, mas os efeitos sobre força, potência e desempenho esportivo permanecem inconsistentes.

Portanto, o principal objetivo do tratamento continua sendo:

  • Corrigir deficiência;
  • Proteger a saúde óssea;
  • Reduzir fatores de risco para lesão;
  • Garantir desenvolvimento adequado do atleta.

Erros comuns na prática clínica

  • Solicitar triagem universal

A Endocrine Society não recomenda rastreamento rotineiro de vitamina D em crianças e adolescentes saudáveis.

  • Tratar apenas o exame

O resultado laboratorial deve sempre ser interpretado dentro do contexto clínico e esportivo.

  • Ignorar fatores de risco persistentes

Sem correção dos fatores associados, a deficiência pode reaparecer rapidamente após a suspensão da suplementação.

  • Utilizar doses excessivas sem monitoramento

O excesso de vitamina D pode causar hipercalcemia e outras complicações potencialmente graves.

Limitações da evidência científica

Apesar do crescente interesse pela vitamina D no esporte, diversas lacunas permanecem:

  • Falta de estudos específicos em atletas pediátricos;
  • Heterogeneidade dos protocolos utilizados;
  • Diferenças entre modalidades esportivas;
  • Poucos ensaios clínicos com desfechos de lesão.

Dessa forma, muitas recomendações ainda são extrapoladas de estudos realizados em populações pediátricas gerais ou atletas adultos.

Resumo prático

  • Não há indicação de triagem universal de vitamina D em atletas pediátricos.
  • A dosagem de 25(OH)D deve ser considerada em atletas com fatores de risco ou sinais clínicos sugestivos.
  • A suplementação profilática pode ser considerada em grupos de maior risco.
  • A deficiência confirmada deve ser tratada com protocolos baseados na idade e gravidade do quadro.
  • O monitoramento deve incluir avaliação laboratorial e clínica.
  • A correção da deficiência é importante para saúde óssea e neuromuscular, mas não garante melhora de desempenho esportivo.

O manejo nutricional e endocrinológico do atleta jovem exige integração entre fisiologia do exercício, crescimento, maturação e medicina baseada em evidências. Se você deseja aprofundar sua capacidade de avaliação clínica no esporte, conheça: A Medicina do Esporte Que Todo Médico Tem Que Saber. 

Todo atleta pediátrico precisa dosar vitamina D?

Não. A dosagem sérica de 25(OH)D não é recomendada como rotina para todas as crianças e adolescentes. A avaliação deve ser considerada em atletas com fatores de risco para deficiência, como prática predominante de esportes indoor, baixa exposição solar, pele com alta pigmentação, histórico de fratura por estresse, dor ou fraqueza muscular e sinais sugestivos de inadequação nutricional.

As evidências atuais mostram que a suplementação é eficaz para corrigir a deficiência e alcançar níveis adequados de 25(OH)D. No entanto, não há demonstração consistente de melhora significativa no desempenho físico, força ou potência em atletas que já apresentam níveis adequados da vitamina. O principal benefício da reposição é preservar a saúde óssea, a função neuromuscular e reduzir o risco de complicações relacionadas à deficiência.

O monitoramento deve incluir reavaliação dos níveis séricos de 25(OH)D após um período adequado de tratamento, em geral de 8 a 12 semanas; além da avaliação clínica da resposta terapêutica.

Em alguns casos, podem ser solicitados exames complementares, como cálcio, fósforo, fosfatase alcalina e paratormônio (PTH), especialmente quando há deficiência importante, doenças associadas ou suspeita de alterações do metabolismo ósseo. A frequência do acompanhamento deve ser individualizada conforme a gravidade da deficiência e a persistência dos fatores de risco.

Referências

DEMAY, M. B. et al. Vitamin D for the Prevention of Disease: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 109, n. 8, p. 1907–1947, 2024.

THOMAS, D. T.; ERDMAN, K. A.; BURKE, L. M. Nutrition and Athletic Performance. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 48, n. 3, p. 543–568, 2016.

KRZYWANSKI, J. et al. Seasonal Vitamin D Status in Polish Elite Athletes in Relation to Sun Exposure and Oral Supplementation. PLOS ONE, v. 11, n. 10, e0164395, 2016.

PUTUKIAN, M. et al. The Adolescent Athlete and the Team Physician: A Consensus Statement. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 58, n. 2, p. 371–402, 2026. 

FARROKHYAR, F. et al. Effects of Vitamin D Supplementation on Serum 25-Hydroxyvitamin D Concentrations and Physical Performance in Athletes: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Sports Medicine, v. 47, n. 11, p. 2323–2339, 2017.

PATSEADOU, M.; HALLER, D. M. Vitamin D in Adolescents: A Systematic Review and Narrative Synthesis of Available Recommendations. Journal of Adolescent Health, v. 66, n. 4, p. 388–407, 2020.

Autor

  • Karin Coca Aguilar

    Médica ortopedista pela Santa Casa de São Paulo, especialista em doenças neuromusculares e pós-graduada em Medicina Esportiva - CRM SP 214165 | RQE 125200 | TEOT 19613 | SBOP 1056

    Atuo na ortopedia pediátrica, medicina esportiva e prevenção de lesões, com foco na saúde e no movimento em todas as fases da vida. Acredito na medicina baseada em evidências associada a um olhar individualizado, especialmente no cuidado de crianças e adolescentes em fase de crescimento, prática esportiva e reabilitação.

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