
Um atleta termina uma maratona com náusea, tontura, fraqueza e queda importante do rendimento. No posto médico, a primeira hipótese costuma surgir quase automaticamente: desidratação.
Nem sempre.
A hiponatremia associada ao exercício (HAE) pode se apresentar de forma bastante semelhante, especialmente nas fases iniciais. E essa diferenciação tem implicação prática imediata: oferecer mais líquido a um atleta hiponatrêmico por sobrecarga hídrica pode piorar o quadro.
Por isso, diante de um atleta sintomático após uma prova de endurance, a pergunta não deve ser apenas “quanto ele perdeu de líquido?”, mas também quanto bebeu, o que aconteceu com seu peso e qual é o seu estado neurológico e hemodinâmico.
Aprender a diferenciar: desidratação ou hiponatremia no evento esportivo é de suma importância para o desfecho do paciente.
É esse raciocínio — transformar fisiologia do exercício em decisão clínica — que faz parte do curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
Conteúdo destinado à educação médica. A avaliação e o tratamento de atletas sintomáticos devem ser individualizados e seguir os recursos e protocolos assistenciais disponíveis no evento.
Por que desidratação e hiponatremia podem ser confundidas?
Porque boa parte dos sintomas é inespecífica.
Náusea, cefaleia, tontura, fraqueza, fadiga, vômitos e queda de desempenho podem aparecer tanto na desidratação quanto na HAE — e também em outras situações comuns no posto médico.
Entre os diagnósticos diferenciais estão doença pelo calor, hipoglicemia, colapso associado ao exercício, rabdomiólise e outras emergências clínicas.
Na prática, portanto, o sintoma isolado raramente fecha o diagnóstico.
A diferenciação começa a ficar mais clara quando entendemos o que aconteceu com o balanço de água durante a prova.
A fisiologia é quase oposta
Na desidratação, há déficit de água corporal
Durante o exercício prolongado, especialmente em ambientes quentes, a produção metabólica de calor aumenta e a evaporação do suor assume papel central na termorregulação.
Com o suor, perdemos água e eletrólitos.
Quando essas perdas superam a ingestão, ocorre redução progressiva da água corporal.
A magnitude dessa perda varia muito entre atletas. Temperatura, umidade, intensidade do exercício, aclimatação, vestimenta e características individuais modificam consideravelmente a taxa de sudorese.
Por isso, conhecer previamente a taxa de sudorese pode ajudar na construção de estratégias individualizadas de hidratação.
💡 PÉROLA CLÍNICA
Dois atletas correndo a mesma prova, no mesmo ritmo e sob a mesma temperatura podem apresentar perdas hídricas muito diferentes. Uma estratégia fixa de hidratação em mL/h não deve ser aplicada indiscriminadamente a todos.
Na hiponatremia associada ao exercício, o problema frequentemente é água demais em relação ao sódio corporal
A HAE é definida por concentração de sódio sanguíneo <135 mmol/L durante ou até 24 horas após atividade física prolongada.
Na maioria dos casos, dois mecanismos merecem atenção:
- ingestão de líquido hipotônico em quantidade superior às perdas e/ou à capacidade de excreção;
- manutenção inadequada da secreção de arginina vasopressina (AVP).
Em condições normais, a redução da osmolalidade deveria suprimir a AVP e aumentar a excreção renal de água livre.
Durante exercícios prolongados, entretanto, diferentes estímulos não osmóticos podem manter sua secreção.
O atleta continua bebendo, mas não necessariamente consegue eliminar toda aquela água.
O resultado pode ser retenção de água e diluição do sódio plasmático.
Nos casos graves, a redução da osmolalidade favorece edema cerebral e pode levar à encefalopatia hiponatrêmica.
Por isso, pensar na HAE simplesmente como “falta de sal” é uma simplificação.
Em muitos atletas, o problema central é excesso relativo de água.
Como diferenciar desidratação de hiponatremia no evento?
Quando existe um analisador point-of-care confiável, a dosagem do sódio sanguíneo facilita muito a investigação.
Sem esse recurso, o diagnóstico diferencial depende da combinação de história de ingestão, evolução do peso corporal, exame clínico e contexto da prova.
Nenhum desses elementos, isoladamente, é perfeito.
1. Descubra quanto o atleta bebeu

Perguntar apenas “você se hidratou?” ajuda pouco.
É mais útil reconstruir a prova:
- Quanto líquido foi ingerido?
- Com que frequência?
- O atleta bebia guiado pela sede ou seguia uma meta rígida?
- Quanto tempo permaneceu na prova?
- Bebia em praticamente todos os postos?
- Houve ingestão forçada de água ou bebida esportiva?
- O volume ingerido parece incompatível com as perdas esperadas?
História de grande ingestão de líquidos hipotônicos aumenta a suspeita de HAE.
Esse dado se torna particularmente importante quando o sódio point-of-care não está disponível.
2. Veja o que aconteceu com o peso
Se houver um peso pré-prova confiável, compare-o com o peso no atendimento.
Um atleta que termina uma prova prolongada mais pesado do que começou dificilmente deve ser encarado automaticamente como alguém que simplesmente perdeu água corporal.
O ganho de peso durante o exercício é um importante sinal de alerta para ingestão superior às perdas e aumenta a suspeita de HAE.
Já uma redução importante do peso é mais compatível com perda líquida.
Mas atenção:
perder peso não exclui hiponatremia.
A HAE também pode ocorrer em atletas que terminam o exercício abaixo do peso inicial.
💡 PÉROLA CLÍNICA
Ganho de peso durante uma prova de endurance + sintomas compatíveis = pense em hiponatremia antes de prescrever mais líquido.
A perda de peso, por outro lado, não é suficiente para excluir HAE.
3. Procure evidências de hipovolemia
Alguns achados podem favorecer déficit de volume quando aparecem em um contexto coerente:
- sede importante;
- mucosas secas;
- tontura postural;
- taquicardia ortostática;
- hipotensão ortostática.
Nenhum deles, isoladamente, diferencia com segurança desidratação de HAE.
O valor está no conjunto.
Um atleta com sinais sugestivos de déficit de volume e história de baixa ingestão hídrica conta uma história bastante diferente daquele que bebeu grandes volumes durante horas e chega ao posto sem sinais claros de hipovolemia.
Alteração neurológica muda a prioridade
Confusão mental, redução progressiva do nível de consciência, convulsões ou coma após exercício prolongado devem elevar imediatamente o grau de preocupação.
A HAE grave pode evoluir para encefalopatia hiponatrêmica, associada ao edema cerebral.
Mas existe um diagnóstico diferencial particularmente importante:
golpe de calor por esforço.
A hipertermia grave também pode causar disfunção do sistema nervoso central e exige intervenção imediata.
Por isso, diante de alteração neurológica após exercício intenso, a avaliação da temperatura corporal central — preferencialmente retal quando houver suspeita de golpe de calor por esforço — e a dosagem point-of-care do sódio, quando disponíveis, são extremamente úteis.
A diretriz da Wilderness Medical Society enfatiza justamente a possibilidade de sobreposição clínica entre HAE sintomática e doenças relacionadas ao calor.
Um raciocínio prático no posto médico
Diante de um atleta sintomático após uma prova prolongada:
1. Comece pela gravidade
Avalie ABC, estado mental, sinais vitais, glicemia quando disponível e temperatura corporal central quando indicada.
2. Reconstrua a hidratação durante a prova
O atleta bebeu pouco? Bebeu aproximadamente de acordo com a sede? Ou seguiu uma estratégia rígida com grandes volumes?
3. Compare o peso pré e pós-prova
Se os dados forem confiáveis, ganho de peso aumenta a suspeita de sobrecarga hídrica.
4. Procure sinais de déficit de volume
A história e o exame devem ser interpretados em conjunto.
5. Meça o sódio, quando possível
A HAE é definida bioquimicamente pela concentração sanguínea de sódio abaixo de 135 mmol/L no contexto temporal apropriado.
6. Não esqueça a temperatura
Alteração do estado mental associada à hipertermia importante deve levantar imediatamente a possibilidade de golpe de calor por esforço.
💡 PÉROLA CLÍNICA
Atleta de endurance + alteração do estado mental = não pense apenas em desidratação.
HAE grave e golpe de calor por esforço precisam entrar precocemente no diagnóstico diferencial.
O objetivo não é encaixar o atleta rapidamente em uma de duas caixas diagnósticas. É evitar que o raciocínio automático de “atleta passou mal = está desidratado” determine uma conduta potencialmente perigosa.
O erro mais perigoso: dar líquido para todo atleta que chega mal
Durante muito tempo, grande parte da educação sobre hidratação no esporte concentrou-se em evitar a desidratação.
O problema surge quando essa mensagem é interpretada como:
quanto mais líquido, melhor.
Não é assim.
Em um atleta com HAE relacionada à sobrecarga hídrica, continuar oferecendo líquidos hipotônicos pode agravar a retenção de água e a hiponatremia.
A Wilderness Medical Society alerta que a resposta automática de oferecer líquidos hipotônicos ou administrar rapidamente fluidos intravenosos a atletas presumidamente desidratados pode aumentar a morbidade quando o verdadeiro problema é HAE.
Portanto:
“parece desidratado” não é indicação suficiente para reposição hídrica indiscriminada.
Essa é uma das situações em que compreender a fisiologia muda diretamente a conduta à beira da prova.
Bebida esportiva ou cápsula de sal previnem hiponatremia?
Não necessariamente.
Esse é outro conceito que merece ser revisto.
A presença de sódio em uma bebida não transforma um volume excessivo de líquido em uma estratégia segura.
A suplementação de sódio pode modificar a resposta do sódio sanguíneo em determinadas circunstâncias, mas não elimina o risco de HAE se a ingestão de líquido continuar excessiva.
Portanto, a equação não é simplesmente:
hiponatremia = falta de eletrólitos.
É preciso considerar simultaneamente:
água ingerida + perdas + capacidade de excreção renal de água + regulação hormonal.
Esse tipo de raciocínio clínico aplicado ao esporte é uma das bases do curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
Beber de acordo com a sede faz sentido?
Para grande parte dos participantes de exercícios prolongados, evitar a hiper-hidratação é uma das principais medidas de prevenção da HAE.
As recomendações da Wilderness Medical Society apontam a ingestão guiada pela sede como estratégia adequada para muitos atletas, embora reconheçam que existem situações em que as perdas podem ser muito elevadas e estratégias adicionais precisam ser consideradas.
Isso ajuda a entender por que recomendações universais de hidratação funcionam mal.
Um atleta com alta taxa de sudorese correndo forte sob calor intenso apresenta um cenário fisiológico diferente daquele de um corredor que permanece muitas horas na prova, em clima ameno, bebendo grandes volumes em praticamente todos os postos.
A estratégia precisa considerar o atleta, a modalidade e o ambiente.
A calculadora de taxa de sudorese pode ajudar a estimar as perdas individuais durante o treinamento.
Após o esforço, a calculadora de reposição hídrica pós-exercício pode auxiliar no planejamento da recuperação.
Erros comuns na diferenciação
“Se está passando mal, provavelmente está desidratado”
Não necessariamente. Os sintomas são inespecíficos.
“Se está com náusea e vomitando, precisa de soro”
Náuseas e vômitos também aparecem na HAE. A indicação de fluidoterapia depende do contexto clínico e hemodinâmico.
“Se perdeu peso, não pode ser hiponatremia”
Pode. O peso é uma pista, não um teste diagnóstico.
“Se tomou eletrólitos, não pode ter hiponatremia”
Pode. A ingestão de sódio não necessariamente compensa uma ingestão hídrica excessiva.
“Quanto mais hidratado antes e durante a prova, melhor”
Não. Tanto déficit quanto excesso de água podem produzir consequências clínicas.
E se eu não conseguir diferenciar no evento?
Esse é o momento de evitar condutas automáticas.
Se HAE permanecer razoavelmente no diagnóstico diferencial — especialmente diante de grande ingestão hídrica, ganho de peso e ausência de sinais convincentes de hipovolemia —, não é prudente administrar líquido indiscriminadamente apenas porque o atleta acabou de realizar exercício prolongado.
Alteração neurológica progressiva, convulsões, coma, instabilidade clínica ou suspeita de doença grave exigem manejo emergencial e transferência para atendimento definitivo conforme os protocolos locais.
Quando disponível, a mensuração rápida do sódio reduz substancialmente a incerteza diagnóstica.
Resumo prático: desidratação ou hiponatremia?
| Achado | Desidratação | HAE |
|---|---|---|
| Ingestão durante a prova | Geralmente insuficiente em relação às perdas | Frequentemente excessiva |
| Peso pós-prova | Tende a diminuir | Pode permanecer estável ou aumentar |
| Sede | Frequentemente presente | Variável |
| Sinais de hipovolemia | Podem estar presentes | Geralmente menos evidentes nos quadros por sobrecarga hídrica |
| Náuseas/vômitos | Podem ocorrer | Podem ocorrer |
| Alteração neurológica | Exige investigação de outras causas/gravidade | Sinal de alerta para encefalopatia hiponatrêmica |
| Sódio sanguíneo | Não define desidratação isoladamente | <135 mmol/L define HAE no contexto adequado |
| Mais líquido automaticamente? | Não; depende da avaliação | Pode piorar HAE por sobrecarga hídrica |
A mensagem prática para quem atende eventos esportivos é simples:
não presuma que todo atleta sintomático precisa de mais líquido.
Antes de hidratar, procure entender o que aconteceu durante a prova.
Quanto ele bebeu? Quanto tempo ficou em exercício? O peso aumentou ou diminuiu? Há sinais de hipovolemia? Há alteração neurológica? Qual é a temperatura central? É possível medir o sódio?
Essas perguntas mudam o raciocínio — e podem mudar a conduta.
FAQ: desidratação e hiponatremia no esporte
Como saber se um atleta está desidratado ou com hiponatremia?
Os sintomas isoladamente não são suficientes. História de ingestão hídrica, variação do peso, sinais de hipovolemia, estado neurológico e contexto da prova ajudam na diferenciação. Quando disponível, a mensuração do sódio sanguíneo é fundamental para confirmar HAE.
Hiponatremia pode acontecer mesmo se o atleta perdeu peso?
Sim. Embora o ganho de peso durante a prova seja uma pista importante para sobrecarga hídrica, perder peso não exclui hiponatremia associada ao exercício.
Beber muita água durante uma maratona pode causar hiponatremia?
Sim. A ingestão de líquidos em quantidade superior às perdas e à capacidade de excreção de água é um dos principais mecanismos envolvidos na HAE.
Bebida isotônica evita hiponatremia?
Não necessariamente. A presença de sódio não torna segura uma ingestão excessiva de líquido.
Qual valor de sódio define hiponatremia associada ao exercício?
A HAE é definida por concentração de sódio sanguíneo abaixo de 135 mmol/L durante ou até 24 horas após atividade física prolongada.
Conclusão
Desidratação e hiponatremia podem chegar ao posto médico com apresentações muito parecidas, mas representam distúrbios fisiológicos bastante diferentes.
É justamente por isso que tratar todo atleta sintomático como “desidratado” é uma estratégia inadequada.
História de ingestão, variação do peso, exame clínico, temperatura central e, sempre que possível, sódio point-of-care permitem construir uma avaliação muito mais segura.
Mais do que decorar protocolos, o médico que atende atletas precisa compreender qual mecanismo fisiológico provavelmente levou aquele paciente até o posto médico.
Esse tipo de raciocínio clínico aplicado ao esporte é uma das bases do curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
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Referências
BENNETT, B. L.; HEW-BUTLER, T.; ROSNER, M. H.; MYERS, T.; LIPMAN, G. S. Wilderness Medical Society Clinical Practice Guidelines for the Management of Exercise-Associated Hyponatremia: 2019 Update. Wilderness & Environmental Medicine. 2020;31(1):50–62. DOI: 10.1016/j.wem.2019.11.003.
HEW-BUTLER, T. et al. Statement of the Third International Exercise-Associated Hyponatremia Consensus Development Conference, Carlsbad, California, 2015. Clinical Journal of Sport Medicine. 2015;25(4):303–320. DOI: 10.1097/JSM.0000000000000221.
HEW-BUTLER, T. et al. Statement of the 3rd International Exercise-Associated Hyponatremia Consensus Development Conference, Carlsbad, California, 2015. British Journal of Sports Medicine. 2015;49(22):1432–1446. DOI: 10.1136/bjsports-2015-095004.
LIPMAN, G. S. et al. Wilderness Medical Society Clinical Practice Guidelines for the Prevention and Treatment of Heat Illness: 2019 Update. Wilderness & Environmental Medicine. 2019;30(4S):S33–S46.
Autor
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Médica do Esporte formada pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 2007, com especialização em Nutrologia pela ABRAN e título de especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela SBMEE.
Atua na avaliação, acompanhamento e cuidado de atletas e praticantes de atividade física, com experiência em maratonas e eventos esportivos. É sócia da clínica IEMEX Performance, em Curitiba, e também realiza atendimentos em consultório particular na Clinica CMI em Mafra/SC.
Sua prática integra medicina do esporte, nutrologia e promoção da saúde, com foco em performance, prevenção de lesões, qualidade de vida e longevidade ativa.
Instagram: @dracarla.melo
