
Treino de endurance atrapalha o ganho de massa muscular? Quem começa a correr, pedalar ou aumentar o volume de treinos aeróbicos enquanto faz musculação costuma ter uma dúvida: será que o endurance vai atrapalhar o ganho de massa muscular?
Na maioria dos casos, não. É possível melhorar o condicionamento aeróbico e ganhar massa muscular dentro do mesmo programa de treinamento. O problema costuma aparecer quando a combinação entre as modalidades gera fadiga excessiva, aumenta demais o gasto energético ou reduz a qualidade das sessões de força.
É nesse contexto que surge o chamado efeito de interferência. Ele existe, mas não deve ser interpretado como uma consequência inevitável do exercício aeróbico. O impacto depende do objetivo do paciente, do volume de treinamento, da modalidade escolhida, da proximidade entre as sessões e, principalmente, da capacidade de recuperação.
Para o médico que orienta praticantes recreacionais ou atletas, compreender essas variáveis ajuda a evitar recomendações genéricas, como simplesmente suspender a corrida de quem deseja hipertrofia.
Esses conceitos são abordados no curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
O que é treinamento concorrente?
Chamamos de treinamento concorrente a combinação de exercícios de força e endurance dentro de um mesmo período de treinamento.
Isso pode acontecer de diferentes maneiras:
- musculação e corrida na mesma sessão;
- musculação pela manhã e ciclismo à tarde;
- treino de força em alguns dias e treino aeróbico em outros;
- programas híbridos voltados simultaneamente à força, hipertrofia e resistência.
O termo “efeito de interferência” descreve uma possível redução em determinadas adaptações do treinamento de força quando o volume de endurance também é elevado.
A discussão começou a ganhar força após o estudo clássico de Robert Hickson, publicado em 1980. Naquele trabalho, o grupo que realizou treinamento de força e endurance apresentou pior evolução da força nas semanas finais quando comparado ao grupo que treinou somente força.
O estudo foi importante para levantar a hipótese, mas não significa que todo programa combinado produzirá o mesmo resultado.
O endurance realmente reduz a hipertrofia?
As sínteses mais recentes da literatura trazem uma resposta mais tranquilizadora.
Uma metanálise atualizada, que comparou treinamento de força isolado com programas concorrentes, não encontrou prejuízo relevante para a hipertrofia do músculo como um todo nem para o desenvolvimento de força máxima. A adaptação que demonstrou maior possibilidade de prejuízo foi a força explosiva, sobretudo quando o treino aeróbico e o resistido eram realizados na mesma sessão.
Por outro lado, quando os pesquisadores analisam diretamente a área das fibras musculares, os resultados ficam um pouco menos homogêneos. Uma metanálise com 15 estudos identificou um pequeno efeito negativo sobre a hipertrofia das fibras, embora a magnitude tenha sido discreta e os próprios autores tenham destacado as limitações dos dados disponíveis.
Portanto, a resposta depende também do desfecho estudado. Medidas de massa magra, espessura muscular, área transversal do músculo e tamanho individual das fibras não representam exatamente a mesma coisa.
Na prática clínica, a mensagem mais adequada é: o treino de endurance não impede a hipertrofia, mas pode reduzir a resposta quando a carga total supera a capacidade de recuperação do indivíduo.
A interferência não se resume à AMPK e à mTOR

Durante muito tempo, a explicação mais difundida para o fenômeno envolveu duas vias de sinalização celular.
O treinamento resistido estimula mecanismos associados à mTOR, que participa da regulação da síntese proteica muscular e da hipertrofia. O exercício de endurance, especialmente quando prolongado ou metabolicamente exigente, pode aumentar a atividade da AMPK, uma proteína sensível ao estado energético da célula.
A partir disso, surgiu a interpretação de que a AMPK bloquearia a mTOR e, consequentemente, impediria o crescimento muscular.
Esse modelo é útil para compreender parte da fisiologia, mas é simplificado demais para explicar o que acontece em pessoas treinando durante semanas ou meses. A resposta molecular ao exercício varia conforme alimentação, estado de treinamento, intensidade, duração da sessão e intervalo de recuperação. Além disso, adaptações aeróbicas e hipertróficas podem ocorrer simultaneamente.
No cotidiano, fatores mais concretos costumam ter maior impacto:
- redução do desempenho durante a musculação por fadiga acumulada;
- menor volume ou intensidade no treino de força;
- dano muscular provocado por sessões repetidas de corrida;
- consumo energético abaixo da demanda;
- ingestão insuficiente de carboidratos e proteínas;
- sono inadequado;
- falta de dias destinados à recuperação.
Em muitos pacientes, o problema não é uma disputa entre vias moleculares. É simplesmente um programa de treinamento maior do que aquilo que conseguem recuperar.
Corrida interfere mais do que ciclismo?

Essa afirmação precisa ser feita com cautela.
Uma metanálise publicada em 2012 sugeriu maior interferência quando o componente aeróbico era realizado por meio da corrida, enquanto o ciclismo parecia produzir menor prejuízo sobre força e hipertrofia. Uma possível explicação seria o maior impacto mecânico e a presença de contrações excêntricas durante a corrida.
Estudos posteriores, porém, não confirmaram de maneira consistente que a corrida seja sempre pior. A metanálise de 2022 sobre hipertrofia das fibras encontrou apenas evidência preliminar de maior interferência da corrida, principalmente nas fibras do tipo I. Já a análise de hipertrofia do músculo como um todo não identificou diferença clara entre corrida e ciclismo.
Isso significa que a modalidade não deve ser analisada isoladamente.
Uma corrida leve de 30 minutos pode produzir menos impacto sobre a recuperação do que uma sessão intensa de ciclismo intervalado. Da mesma forma, o paciente adaptado à corrida pode tolerá-la melhor do que alguém que começou recentemente e apresenta dor muscular importante após cada sessão.
O volume, a intensidade, a experiência do praticante e a proximidade com o treino de membros inferiores provavelmente importam mais do que a escolha entre esteira e bicicleta, quando avaliadas fora de contexto.
Volume e intensidade fazem diferença
Quanto maior o volume de endurance, maior tende a ser a necessidade de recuperação.
Para quem corre duas ou três vezes por semana em intensidade leve ou moderada, o risco de comprometer a hipertrofia costuma ser pequeno, desde que o treinamento de força continue bem estruturado e a alimentação acompanhe o aumento do gasto energético.
O cenário muda quando o paciente acumula:
- sessões longas de endurance;
- treinos intervalados de alta intensidade;
- grande volume de corrida;
- musculação frequente para os mesmos grupos musculares;
- poucas horas de sono;
- restrição calórica.
Nessas condições, pode haver queda progressiva da qualidade do treinamento resistido. O paciente começa a usar cargas menores, reduz o número de séries ou chega constantemente fatigado às sessões de força.
A sentença de que o treino de endurance atrapalha o ganho de massa muscular, quando acontece, pode ser consequência dessa menor qualidade do estímulo, e não de uma incapacidade biológica absoluta de combinar as modalidades.
É necessário separar os treinos?
Separar as sessões é uma estratégia útil, principalmente quando os dois treinos são intensos ou utilizam predominantemente os membros inferiores.
Um estudo com jogadores amadores de rúgbi comparou intervalos de zero, seis e 24 horas entre as sessões e observou melhores respostas quando havia maior tempo de recuperação. Ainda assim, os resultados desse protocolo não devem transformar seis horas em uma regra universal.
Na prática, algumas opções são:
- realizar força e endurance em dias diferentes;
- deixar várias horas entre as sessões;
- evitar corrida intensa imediatamente antes da musculação de membros inferiores;
- organizar o treino mais importante no momento em que o paciente estiver menos fatigado.
Quando a hipertrofia é a prioridade, geralmente faz sentido preservar a qualidade do treinamento resistido. Se as sessões precisarem ocorrer no mesmo período, o treino de força pode ser realizado primeiro, especialmente quando ambos envolvem os mesmos grupos musculares.
Entretanto, a ordem também deve acompanhar o objetivo principal. Para um corredor em fase específica de preparação, pode ser necessário priorizar o treino de corrida em determinados dias.
O papel da alimentação
O aumento do volume aeróbico eleva o gasto energético. Se a ingestão alimentar não for ajustada, o paciente pode entrar em déficit calórico sem perceber.
Esse é um dos motivos pelos quais algumas pessoas atribuem ao exercício aeróbico uma dificuldade de ganhar massa muscular. Na verdade, estão tentando sustentar alto volume de treinamento sem energia suficiente para recuperar e construir tecido muscular.
A ingestão de proteínas é importante, mas não resolve sozinha um quadro de baixa disponibilidade energética. Os carboidratos também têm papel relevante na reposição do glicogênio e na manutenção da qualidade das sessões. Estratégias nutricionais para treinamento concorrente devem considerar a carga total de exercício, a distribuição das sessões e os objetivos de composição corporal.
Para aprofundar esse tema, consulte o artigo Ingestão de proteína e hipertrofia muscular.
Como orientar no consultório?
A primeira pergunta não deve ser apenas “quanto exercício aeróbico esse paciente faz?”, mas sim: qual é o objetivo principal neste momento?
Quando a prioridade é hipertrofia
O treinamento resistido deve ocupar posição central na programação. O endurance pode ser mantido, desde que não reduza de forma repetida o desempenho na musculação.
É recomendável observar:
- progressão das cargas;
- número de séries efetivamente realizadas;
- recuperação entre as sessões;
- ingestão energética;
- evolução da massa corporal e das medidas musculares;
- presença persistente de dor ou fadiga.
Corridas longas ou intervaladas próximas aos treinos mais importantes de membros inferiores podem precisar de ajuste.
Quando a prioridade é endurance
O treinamento de força continua tendo espaço, inclusive para melhorar capacidade neuromuscular, economia de movimento e tolerância às cargas esportivas.
Nesse caso, o volume de musculação precisa ser compatível com a fase da temporada e não deve comprometer os treinos específicos mais relevantes.
Quando o objetivo é saúde ou recomposição corporal
Para a maioria dos pacientes, combinar exercícios aeróbicos e resistidos é uma estratégia adequada. Não há razão para retirar o aeróbico apenas por medo de prejudicar a hipertrofia.
Nessa população, os benefícios de desenvolver simultaneamente força, massa muscular e aptidão cardiorrespiratória geralmente superam a preocupação com uma pequena diferença na resposta hipertrófica.
Erros frequentes na organização do treinamento
Algumas situações são comuns no consultório:
- culpar o exercício aeróbico por qualquer dificuldade de ganho muscular;
- aumentar corrida e musculação ao mesmo tempo, sem período de adaptação;
- manter déficit calórico importante durante uma fase de hipertrofia;
- realizar sessões intensas de corrida antes de todos os treinos de pernas;
- não monitorar sono, fadiga e desempenho;
- aplicar a mesma programação a iniciantes e atletas experientes;
- interpretar estudos moleculares como se previssem diretamente o resultado clínico.
Outro erro é tentar desenvolver, ao mesmo tempo, o máximo possível de resistência, força, potência e hipertrofia. O treinamento pode contemplar todas essas capacidades, mas nem sempre será possível maximizar todas na mesma fase.
É justamente por isso que a periodização é importante.
O que ainda não sabemos?
Os estudos sobre treinamento concorrente utilizam protocolos muito diferentes. Há variação de idade, sexo, experiência esportiva, frequência semanal, intensidade, modalidade aeróbica e método utilizado para medir a hipertrofia.
Muitos trabalhos também têm duração relativamente curta e incluem pessoas pouco treinadas. Isso limita a aplicação direta dos resultados a atletas experientes ou a indivíduos que mantêm programas de treinamento por vários anos.
Além disso, os estudos nem sempre controlam com precisão alimentação, sono, atividades realizadas fora do protocolo e nível real de esforço durante as sessões.
Por isso, as metanálises ajudam a compreender a tendência geral, mas não substituem o acompanhamento individual.
Resumo prático
O treinamento de endurance não impede o ganho de massa muscular.
Na maior parte dos estudos, a hipertrofia do músculo como um todo e o desenvolvimento de força máxima não foram prejudicados de forma relevante pelo treinamento concorrente. Pequenos efeitos podem aparecer quando se avalia o tamanho individual das fibras, enquanto força explosiva e potência parecem ser mais sensíveis à combinação das modalidades.
O risco de interferência aumenta principalmente quando existe:
- volume elevado de treinamento;
- pouca recuperação entre as sessões;
- fadiga acumulada;
- baixa disponibilidade energética;
- redução da qualidade do treino de força;
- programação incompatível com o objetivo prioritário.
Em vez de proibir o exercício aeróbico, a conduta mais adequada é organizar volume, intensidade, ordem das sessões, alimentação e recuperação.
Para médicos que desejam aprofundar a prescrição de exercícios com base na fisiologia e transformar evidências científicas em decisões clínicas, conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
Referências
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Autor
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Médica do Esporte formada pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 2007, com especialização em Nutrologia pela ABRAN e título de especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela SBMEE.
Atua na avaliação, acompanhamento e cuidado de atletas e praticantes de atividade física, com experiência em maratonas e eventos esportivos. É sócia da clínica IEMEX Performance, em Curitiba, e também realiza atendimentos em consultório particular na Clinica CMI em Mafra/SC.
Sua prática integra medicina do esporte, nutrologia e promoção da saúde, com foco em performance, prevenção de lesões, qualidade de vida e longevidade ativa.
