Paciente com tendinite pode treinar?

tendinite pode treinar

A intuição diz que tendão dolorido pede repouso. Na maior parte dos casos, é o contrário. O tendão não está inflamado, está mal adaptado à carga, e o próprio nome esconde essa diferença. “Tendinite” sugere inflamação, mas o consenso internacional de terminologia em tendinopatias, o ICON (International Scientific Tendinopathy Symposium Consensus) 2019, adota tendinopatia, porque a lesão dominante é uma falha de adaptação do tecido à carga, e não um processo inflamatório agudo.

A distinção não é preciosismo. Se o problema fosse inflamação pura, repouso e anti-inflamatório resolveriam. Como o problema é a adaptação de um tecido que responde a estímulo mecânico, tirar o treinamento costuma fazer parte do problema.

Por isso a pergunta que o paciente traz, se pode treinar com tendinite, se responde melhor invertendo a lógica intuitiva. O que decide o caso é o estímulo adequado ao estágio da doença e um limite de dor definido, mais do que a escolha entre treinar e parar.

Mecanismo do tendão sob carga

O tendão é tecido vivo que ajusta a matriz de colágeno ao estímulo mecânico. As células tendíneas convertem carga em sinal bioquímico, um processo de mecanotransdução, e regulam a síntese e a organização do colágeno. Carga adequada e progressiva aumenta a capacidade do tendão, enquanto a ausência de carga a reduz. É por esse motivo que imobilizar ou repousar um tendão sintomático tende a piorar sua tolerância à carga em vez de curá-lo. Diferente da entorse, que é trauma agudo de ligamento, a tendinopatia é sobrecarga crônica do tendão, o que explica por que o tratamento parte da carga e não da proteção.

O modelo do continuum, proposto por Cook e Purdam, organiza a patologia em três estágios, o tendão reativo, o tendão em desestruturação e a tendinopatia degenerativa. O reativo é uma resposta de curto prazo a sobrecarga aguda, com espessamento adaptativo e potencial de reversão. O degenerativo traz áreas de matriz desorganizada e menor capacidade mecânica, em geral sem reversão da região comprometida, embora o tecido saudável ao redor ainda responda a treino. O estágio muda a dose. Um tendão reativo por pico agudo de carga pede redução temporária do estímulo, enquanto um degenerativo pede carga progressiva para fortalecer o tecido viável.

A dor da tendinopatia também não é termômetro fiel de dano. Tem componente nociceptivo local, mas é modulada por sensibilização e por fatores centrais, e pode persistir mesmo quando a estrutura melhora, ou ceder antes de a imagem mudar. Isso sustenta a conduta de permitir dor tolerável durante o exercício sem lê-la como sinal de que a carga está lesando o tendão.

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O que mostram os estudos

A resposta consolidada da literatura é que o tratamento de primeira linha da tendinopatia é o exercício de carga, não o repouso.

Revisões e ensaios sustentam a carga como conduta central. Metanálise de ensaios randomizados mostra que protocolos de carga superam modalidades passivas na tendinopatia de Aquiles de porção média. O treino excêntrico, popularizado pelo protocolo de Alfredson, foi o primeiro com forte suporte, e o treino de resistência pesada e lenta, o HSR, alcança resultado clínico equivalente, com melhor adesão e satisfação do paciente em parte dos estudos. A revisão dos programas de carga não estabelece um protocolo unicamente superior, o que desloca a decisão para adesão, contexto e preferência.

Sobre dor durante o exercício, o modelo de monitoramento da dor dá o critério operacional. Silbernagel mostrou que manter a atividade esportiva durante a reabilitação, guiando-se pela dor, não piora o resultado frente à restrição, desde que a dor fique dentro de um limite tolerável e retorne ao basal.[8] Isso responde à pergunta do título de forma direta. Treinar durante a tendinopatia é possível quando a carga é monitorada, e arriscado quando é ignorada.

O caso da isometria merece nota, porque a prática correu à frente do dado. Um estudo de 2015 mostrou analgesia imediata após contrações isométricas na tendinopatia patelar, o que popularizou a isometria como primeiro passo para controle de dor. Revisão sistemática posterior não confirmou superioridade da isometria sobre a isotônica para dor na tendinopatia, nem no efeito imediato nem em curto prazo. A leitura atual é mais modesta. A isometria é uma opção de modulação de sintoma para parte dos pacientes, não uma etapa obrigatória.

Aplicações práticas na avaliação e na prescrição

Estadiar antes de dosar. Um tendão reativo por pico agudo de treino e uma tendinopatia degenerativa crônica não recebem a mesma prescrição. O reativo pede redução temporária do volume e das cargas de alta energia, como saltos, pliometria e corrida de velocidade, até acalmar, sem cessação total. O degenerativo pede carga progressiva de força para estimular o tecido viável. Reduzir não é o mesmo que parar.

Monitorar a dor. A dor durante o carregamento é aceitável dentro de um teto tolerável, retorna ao basal em até 24 horas e não cresce semana a semana. Fora desse envelope, a carga está alta e regride.

O trabalho de força. Excêntrico e HSR (resistência pesada e lenta) entregam resultado semelhante, então a escolha pode priorizar adesão e contexto, não uma suposta superioridade técnica. O essencial é um estímulo suficiente, progressivo e mantido por tempo adequado, já que a resposta clínica leva semanas a meses.

Atenção ao tendão de inserção. Nas tendinopatias insercionais, como Aquiles insercional e isquiotibial proximal, compressão e alongamento máximo do tendão contra o osso tendem a irritar. Amplitude excessiva e alongamento agressivo entram depois, não no início.

Alongar não é o tratamento. Existe a ideia comum de que tendão sintomático precisa de bastante alongamento, e ela não se sustenta. O alongamento é coadjuvante em situações pontuais, e no tendão insercional o alongamento máximo tende a piorar por aumentar a compressão. O que reabilita o tendão é o trabalho de força progressivo, não a busca por amplitude.

Repouso tem custo. Parar alivia no curto prazo e reduz a capacidade do tendão no médio, o que prepara a recidiva quando o estímulo volta. A conduta padrão é ajustar a dose, não suspender.

Isometria como ferramenta. Pode modular sintoma em parte dos casos e ajudar quando a dor alta limita o treino isotônico, sem ser etapa obrigatória para todos.

Bandagem e órtese aliviam. Tape, strap infrapatelar e órteses ajudam o sintoma no curto prazo, com evidência fraca e mecanismo pouco claro, e não remodelam o tendão. Cabem como coadjuvantes que permitem ao paciente manter o treino, como o strap na tendinopatia patelar ou a elevação de calcâneo para descarregar o Aquiles insercional, sem substituir o trabalho de força que de fato reabilita.

Nem toda dor de tendão é tendinopatia. Perda súbita de força ou falha palpável sugere ruptura. Dor inflamatória multiarticular, tendinopatia associada a fluoroquinolona ou quadro sistêmico mudam a conduta. Tendinopatia é diagnóstico clínico, e o treino de força entra depois de afastar essas hipóteses.

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Limitações e vieses

O grosso dos ensaios de qualidade trata de tendinopatia de Aquiles e patelar. A extrapolação para manguito rotador, glúteo médio e epicondilalgia lateral é parcial, porque a resposta à carga e as particularidades de compressão variam entre sítios.

Os protocolos são heterogêneos e nenhum se firma como unicamente superior, com tamanhos de efeito moderados e resposta lenta nos casos crônicos. A evidência da isometria é mista e vem de estudos pequenos, e a analgesia relatada é variável entre pacientes, longe de universal.

O modelo do continuum é um arcabouço útil, revisitado e discutido, não um estadiamento de fronteiras rígidas, e o estadiamento clínico à beira do leito é imperfeito. Os limiares do monitoramento da dor, o teto tolerável e o retorno ao basal em 24 horas, vêm sobretudo de estudos de tendão e são convenções pragmáticas, não cortes universais validados para todo sítio.

A conclusão sustentável é estreita. Na maioria das tendinopatias, treinar é possível e terapêutico quando a carga é estadiada, progressiva e monitorada, sem que isso autorize ignorar dor que escala nem tratar todo tendão doloroso como apto a qualquer volume.

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Conclusão

Tendinite pode treinar, na maioria dos casos, desde que o termo certo traga a conduta certa. O tendão responde à carga, o repouso reduz sua capacidade, e o tratamento de primeira linha é o exercício de força dosado ao estágio e monitorado pela dor. Excêntrico e HSR funcionam de forma comparável, a isometria é opção, e a distância entre o uso seguro e o temerário está no monitoramento da carga e da resposta ao longo do tempo.

Principais insights

  1. Tendinite virou tendinopatia por um motivo clínico. O sufixo “ite” sugere inflamação, mas a lesão dominante é falha de adaptação da matriz, o que coloca a carga, e não o anti-inflamatório, como base do tratamento.
  2. Carga é o tratamento, repouso reduz capacidade. O exercício de força é primeira linha, e imobilizar um tendão sintomático piora sua tolerância.
  3. O estágio define a dose. Tendão reativo pede redução temporária, tendinopatia degenerativa pede carga progressiva.
  4. Dor tolerável e monitorada libera o treino. Aceitável dentro de um teto, retorno ao basal em 24 horas e sem crescer semana a semana.
  5. Excêntrico e HSR empatam. Resultado comparável desloca a escolha para adesão e contexto.
  6. Isometria é opção. A analgesia é variável e sem superioridade consolidada sobre a isotônica.

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Referências

  1. Scott A, Squier K, Alfredson H, et al. ICON 2019: International Scientific Tendinopathy Symposium Consensus: Clinical Terminology. Br J Sports Med. 2020;54(5):260-262. DOI: 10.1136/bjsports-2019-100885.
  2. Cook JL, Purdam CR. Is tendon pathology a continuum? A pathology model to explain the clinical presentation of load-induced tendinopathy. Br J Sports Med. 2009;43(6):409-416. DOI: 10.1136/bjsm.2008.051193.
  3. Malliaras P, Barton CJ, Reeves ND, Langberg H. Achilles and patellar tendinopathy loading programmes: a systematic review comparing clinical outcomes and identifying potential mechanisms for effectiveness. Sports Med. 2013;43(4):267-286. DOI: 10.1007/s40279-013-0019-z.
  4. Maetz R, Dubé MO, Tougas A, Prudhomme F, Dubois B, Roy JS. Systematic Review and Meta-analyses of Randomized Controlled Trials Comparing Exercise Loading Protocols With Passive Treatment Modalities or Other Loading Protocols for the Management of Midportion Achilles Tendinopathy. Orthop J Sports Med. 2023;11(5):23259671231171178. DOI: 10.1177/23259671231171178.
  5. Beyer R, Kongsgaard M, Hougs Kjær B, Øhlenschlæger T, Kjær M, Magnusson SP. Heavy Slow Resistance Versus Eccentric Training as Treatment for Achilles Tendinopathy: A Randomized Controlled Trial. Am J Sports Med. 2015;43(7):1704-1711. DOI: 10.1177/0363546515584760.
  6. Rio E, Kidgell D, Purdam C, et al. Isometric exercise induces analgesia and reduces inhibition in patellar tendinopathy. Br J Sports Med. 2015;49(19):1277-1283. DOI: 10.1136/bjsports-2014-094386.
  7. Clifford C, Challoumas D, Paul L, Syme G, Millar NL. Effectiveness of isometric exercise in the management of tendinopathy: a systematic review and meta-analysis of randomised trials. BMJ Open Sport Exerc Med. 2020;6(1):e000760. DOI: 10.1136/bmjsem-2020-000760.
  8. Silbernagel KG, Thomeé R, Eriksson BI, Karlsson J. Continued sports activity, using a pain-monitoring model, during rehabilitation in patients with Achilles tendinopathy: a randomized controlled study. Am J Sports Med. 2007;35(6):897-906. DOI: 10.1177/0363546506298279.

Autor

  • Ana Luisa Andrade

    Formação em medicina pela UCES. Médica auxiliar em clubes de rugby e hóquei, certificada pelo World Rugby Passport e União de Rugby de Buenos Aires. Praticante de CrossFit, Hyrox, corridas. Escreve sobre medicina do esporte unindo a vivência de campo, o treino e a evidência científica.
    Tiktok: @analuisa.andrade
    Instagram: analu.andrades

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