
Poucos temas geram tanta polarização na medicina quanto os peptídeos. De um lado, profissionais que descartam completamente qualquer uso pela ausência de grandes ensaios clínicos. Do outro, profissionais que consideram a experiência clínica suficiente para justificar praticamente qualquer aplicação. Nenhuma das duas posições é defensável, e as duas revelam o mesmo problema: uma compreensão equivocada do que Medicina Baseada em Evidências realmente significa.
A pergunta mais útil não é “peptídeos funcionam ou não?”. Essa formulação é ampla demais para ter resposta. A pergunta correta seria: o que a literatura realmente permite afirmar hoje, sobre qual peptídeo, em qual contexto, para qual desfecho?
Responder isso exige sair das narrativas e entrar no raciocínio clínico.
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O contexto que a discussão ignora
Peptídeos têm evidência robusta, só não os que costumam aparecer no consultório.
Antes de discutir o que a literatura permite ou não afirmar sobre peptídeos específicos da medicina, vale colocar a classe em perspectiva.
Existem mais de 80 peptídeos aprovados pela FDA, com centenas em desenvolvimento clínico ativo. Em 2023, peptídeos e oligonucleotídeos representaram 24% de todas as aprovações do FDA. O mercado global de peptídeos terapêuticos foi estimado em US$ 28,5 bilhões em 2020, com projeção de US$ 51,4 bilhões em 2026. Agonistas de GLP-1 como liraglutida e semaglutida têm eficácia e segurança documentadas em milhares de pacientes em ensaios randomizados. Análogos de somatostatina são padrão de tratamento em acromegalia e tumores neuroendócrinos. A trofinetida foi aprovada em 2023 como primeiro tratamento para síndrome de Rett, uma condição para a qual não havia nenhuma opção terapêutica antes.
Portanto, afirmar que “peptídeos não têm evidência” é factualmente incorreto. O que é correto dizer é que a maioria dos peptídeos utilizados em protocolos de medicina de performance não tem o mesmo nível de evidência que os peptídeos aprovados para indicações clínicas estabelecidas, e essa distinção precisa ser feita com clareza, porque muda completamente o raciocínio.
O que MBE realmente é e o que ela não é
A definição clássica de Sackett é precisa: Medicina Baseada em Evidências é a integração da melhor evidência científica disponível com a experiência clínica e os valores do paciente. Não é um dos três pilares — são os três juntos.
Isso tem implicação direta para a discussão sobre peptídeos: não existe contradição entre reconhecer limitações da literatura e ainda assim tomar decisões clínicas. MBE não exige certeza absoluta, exige honestidade intelectual sobre o grau de incerteza envolvido em cada decisão e transparência com o paciente sobre isso.
O que ela definitivamente não é: seguir apenas artigos randomizados, nem substituir evidências por experiência pessoal, nem usar plausibilidade fisiológica como substituto de desfecho clínico.
“Não existe evidência”: o erro mais comum na discussão
Essa frase circula com frequência e quase sempre está tecnicamente errada. Para a maioria dos peptídeos discutidos nessa série,(Semax, Cerebrolysin, secretagogos de GH, peptídeos bioativos alimentares) existe evidência. O que frequentemente não existe é evidência robusta o suficiente para responder todas as perguntas clínicas relevantes com o grau de certeza que gostaríamos.
A diferença importa. Dizer “não existe evidência” cria uma falsa impressão de ignorância completa. A realidade é mais complexa: evidência limitada, heterogênea, com limitações metodológicas conhecidas, mas evidência. E isso muda como o clínico deve se posicionar: não como alguém agindo no escuro, mas como alguém que precisa ser transparente sobre o grau de incerteza em que está trabalhando.
Se quer aprofundar seus conhecimentos sobre os mecanismos, aplicações clínicas e limitações da evidência dos peptídeos utilizados na medicina do esporte, conheça o curso Peptídeos Terapêuticos e na Performance da MedEsporte Papers.
O erro oposto: mecanismo não é desfecho
Se um extremo é ignorar toda a evidência disponível, o outro, igualmente problemático, é transformar plausibilidade biológica em benefício clínico comprovado.
Os exemplos concretos já apareceram nessa série. Dihexa tem mecanismo hipotético via HGF/c-Met com potencial de facilitar sinaptogênese, e quase nenhum dado em humanos. Secretagogos de GH têm mecanismo bem descrito sobre retenção renal de sódio, e dados clínicos razoáveis sobre essa consequência específica. Peptídeos IPP e VPP têm ensaios randomizados demonstrando efeito insulino-sensibilizante, em populações específicas, com períodos de acompanhamento limitados.
Vale lembrar que as modificações químicas que tornam peptídeos clinicamente viáveis (substituição de L por D-aminoácidos para aumentar resistência à degradação, PEGilação para prolongar meia-vida, ciclização para melhorar estabilidade) são aplicadas nos peptídeos aprovados pela FDA precisamente porque a molécula natural sem essas modificações frequentemente não funciona in vivo da forma que os modelos experimentais sugerem. Muitos dos peptídeos usados em protocolos de performance chegam ao paciente sem nenhuma dessas modificações, o que levanta questões legítimas sobre biodisponibilidade e estabilidade in vivo que raramente aparecem nas discussões.
A história da medicina está repleta de intervenções que pareciam promissoras do ponto de vista fisiológico e falharam quando avaliadas em estudos adequados. Plausibilidade é ponto de partida, não prova de eficácia.
A experiência clínica é evidência — com ressalvas importantes
Experiência clínica é uma fonte legítima de conhecimento, especialmente em áreas onde a literatura ainda não chegou. O problema é que ela é particularmente vulnerável a vieses que não aparecem em estudos controlados: viés de confirmação, regressão à média, efeito placebo, seleção de casos e memória seletiva.
Um médico que usa um peptídeo em 50 pacientes e observa melhora na maioria deles não está observando o efeito isolado do peptídeo, está observando o efeito do peptídeo mais o efeito do contexto da consulta, da expectativa, da mudança de hábitos associada ao protocolo e de uma série de outras variáveis não controladas. Isso não invalida a observação, mas exige interpretação crítica ativa, o mesmo pensamento crítico que aplicamos à literatura.
Como o clínico deve se posicionar diante dos peptídeos hoje
A postura mais coerente com o estado atual da literatura não é entusiasmo nem ceticismo, é calibração. Isso significa reconhecer que alguns peptídeos têm dados clínicos razoáveis para contextos específicos, outros têm apenas mecanismo e dados pré-clínicos, e outros, como os agonistas de GLP-1 e análogos de somatostatina, têm evidência suficientemente forte para embasar decisões com muito mais segurança.
Significa também ser transparente com o paciente sobre esse gradiente de certeza. Um paciente que recebe um secretagogo de GH precisa saber que existe plausibilidade fisiológica bem descrita, alguns dados clínicos em populações específicas, e incerteza real sobre segurança de longo prazo em indivíduos saudáveis. Isso não é pessimismo, é respeito pela autonomia do paciente para tomar decisões informadas.
O problema real: excesso de convicção em território de incerteza
Um dos maiores obstáculos para o avanço racional dessa discussão não é a falta de evidência, é o excesso de convicção nos dois lados. A ciência avança pela redução gradual da incerteza, não por declarações categóricas. No campo dos peptídeos de performance, ainda existe muita incerteza a ser reduzida. Reconhecer isso é o único ponto de partida honesto para qualquer discussão séria sobre o tema.
Se você deseja desenvolver uma visão crítica sobre os peptídeos, compreender os limites da literatura científica e aprender a integrar evidência, fisiologia e prática clínica, conheça o curso Peptídeos Terapêuticos e na Performance da MedEsporte Papers.
Referências
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