PRP pode ser usado em atleta profissional? O que dizem as evidências e a WADA

PRP pode ser usado em atleta profissional? O que dizem as evidências e a WADA

O plasma rico em plaquetas (PRP) tornou-se uma das terapias biológicas mais conhecidas da medicina esportiva. Basta uma lesão importante em um atleta de elite para que o assunto volte às manchetes, frequentemente acompanhado da ideia de que o PRP acelera a recuperação e antecipa o retorno às competições. Mas o PRP pode ser usado em atleta profissional?

Na prática clínica, porém, a realidade é mais complexa. Embora o método seja amplamente utilizado, sua eficácia varia conforme o tipo de lesão, a técnica empregada e as características do paciente. Além disso, muitos médicos ainda têm uma dúvida importante: o PRP é permitido para atletas profissionais ou pode ser considerado doping?

A resposta exige compreender tanto as evidências científicas quanto as normas da Agência Mundial Antidoping (WADA).

Esses aspectos fazem parte da abordagem baseada em evidências apresentada no curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.


O PRP é permitido no esporte profissional?

Sim.

Atualmente, o PRP não integra a Lista de Substâncias e Métodos Proibidos da WADA, podendo ser utilizado em atletas profissionais quando houver indicação médica.

Isso significa que o tratamento não caracteriza doping, desde que seja realizado dentro das normas médicas e regulamentares.

Entretanto, a autorização regulatória não deve ser confundida com indicação clínica. O fato de o procedimento ser permitido não significa que ele seja benéfico para todas as lesões.

Na decisão terapêutica devem ser considerados:

  • diagnóstico correto;
  • mecanismo da lesão;
  • estágio do processo de cicatrização;
  • expectativas do atleta;
  • qualidade das evidências disponíveis;
  • decisão compartilhada.

Pérola Clínica

Em atletas de elite, a principal pergunta não deve ser “o PRP é permitido?”, mas sim: há evidência suficiente para indicar o procedimento nesta lesão específica?


O que é o PRP?

O plasma rico em plaquetas é obtido a partir do sangue do próprio paciente por meio de centrifugação. O objetivo é concentrar plaquetas e proteínas biologicamente ativas capazes de participar do processo de reparo tecidual.

Entre os principais fatores liberados pelas plaquetas destacam-se:

  • PDGF;
  • TGF-β;
  • VEGF;
  • IGF-1;
  • EGF.

Essas moléculas participam da comunicação entre células envolvidas na inflamação, angiogênese e remodelamento dos tecidos.

É justamente esse racional biológico que motivou o uso do PRP em diversas condições ortopédicas e esportivas.


PRP pode ser usado em atleta profissional

Como o PRP age no organismo?

Após a aplicação, as plaquetas liberam uma série de proteínas sinalizadoras que podem modular diferentes etapas da cicatrização.

Entre os principais efeitos biológicos descritos estão:

  • estímulo à angiogênese;
  • recrutamento celular;
  • proliferação de fibroblastos;
  • síntese de colágeno;
  • remodelamento da matriz extracelular.

Apesar desse mecanismo fazer sentido do ponto de vista fisiológico, é importante lembrar que plausibilidade biológica não garante benefício clínico.

Diversas intervenções apresentam excelente fundamentação experimental, mas não demonstram resultados consistentes quando avaliadas em estudos clínicos controlados.


O que mostram os estudos?

A literatura científica sobre PRP é extensa, porém bastante heterogênea.

Os resultados variam porque praticamente cada estudo utiliza um protocolo diferente.

As diferenças incluem:

  • método de centrifugação;
  • quantidade de plaquetas;
  • presença ou ausência de leucócitos;
  • forma de ativação;
  • número de aplicações;
  • tecido tratado.

Essa falta de padronização dificulta comparar os resultados entre pesquisas.

Atualmente, algumas situações apresentam evidências mais favoráveis do que outras.

CondiçãoEvidência atual
Tendinopatia patelarModerada em casos selecionados
Epicondilalgia lateralAlguns estudos demonstram benefício
Fascite plantarResultados variáveis
Lesões musculares agudasEvidência inconsistente
Osteoartrite do joelhoPossível melhora sintomática em pacientes selecionados

Nenhuma dessas condições permite afirmar que o PRP seja superior em todos os pacientes.


Pérola Clínica

Quando um estudo conclui que o PRP “funciona”, é fundamental observar qual tipo de PRP foi utilizado, pois protocolos diferentes podem produzir resultados completamente distintos.


PRP pode ser usado em atleta profissional ou pode causar doping?

Essa é provavelmente a dúvida mais comum entre atletas.

Segundo a Lista de Proibições da WADA atualmente vigente, o PRP não é considerado método proibido.

Entretanto, alguns cuidados permanecem importantes:

  • registrar detalhadamente o procedimento;
  • documentar a indicação clínica;
  • acompanhar as atualizações anuais da Lista de Proibições;
  • evitar associações com substâncias proibidas.

Embora o PRP seja permitido, a regulamentação antidoping sofre revisões frequentes. Por isso, é prudente consultar sempre a versão mais recente da lista publicada pela WADA.


Quando considerar o PRP na prática?

Na medicina esportiva, o PRP costuma ser considerado como tratamento adjuvante quando:

  • o tratamento convencional não produziu resposta satisfatória;
  • existe plausibilidade biológica para o tecido acometido;
  • o atleta compreende as limitações da evidência;
  • o objetivo é integrar o procedimento a um programa completo de reabilitação.

É importante destacar que o PRP não substitui:

  • fisioterapia;
  • fortalecimento muscular;
  • controle de carga;
  • correção biomecânica;
  • retorno progressivo ao esporte.

Erros frequentes

Na prática, alguns equívocos ainda são bastante comuns.

Os principais são:

  • indicar PRP como primeira opção para qualquer lesão;
  • prometer retorno mais rápido ao esporte;
  • basear a decisão apenas em relatos de atletas famosos;
  • negligenciar programas estruturados de reabilitação;
  • extrapolar resultados laboratoriais para a prática clínica.

Pérola Clínica

O sucesso da reabilitação depende muito mais da qualidade do programa terapêutico do que da aplicação isolada do PRP.


Limitações das evidências

Apesar do grande número de publicações, ainda existem limitações importantes.

Entre elas destacam-se:

  • ausência de padronização do preparo;
  • protocolos extremamente heterogêneos;
  • diferentes concentrações celulares;
  • amostras pequenas;
  • qualidade metodológica variável.

Esses fatores explicam por que diversas diretrizes ainda recomendam cautela na indicação rotineira do PRP.


Resumo prático

✔ O PRP pode ser utilizado em atletas profissionais.

✔ Atualmente não é proibido pela WADA.

✔ A indicação deve ser individualizada.

✔ Não substitui programas estruturados de reabilitação.

✔ A decisão deve ser baseada em evidências e compartilhada com o atleta.


Conclusão

O PRP consolidou-se como uma alternativa terapêutica interessante em algumas situações da medicina esportiva, mas está longe de representar uma solução universal para lesões musculoesqueléticas.

Seu uso em atletas profissionais é permitido pelas normas atuais da WADA, porém a indicação deve considerar o diagnóstico, a qualidade das evidências disponíveis e o contexto clínico de cada paciente.

Mais do que dominar a técnica de aplicação, o médico precisa saber quando indicar, quando evitar e como interpretar criticamente a literatura científica.

Esse raciocínio faz parte da formação A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.


Perguntas Frequentes – FAQ

O PRP é considerado doping?

Não. Atualmente, o PRP não faz parte da Lista de Substâncias e Métodos Proibidos da Agência Mundial Antidoping (WADA).

Todo atleta pode fazer PRP?

Sim, desde que exista indicação clínica e o procedimento seja realizado por médico habilitado.

O PRP acelera a recuperação?

Alguns estudos sugerem benefício em determinadas condições, mas os resultados ainda são inconsistentes e dependem do tipo de lesão e do protocolo utilizado.

O PRP substitui a fisioterapia?

Não. O procedimento deve ser considerado uma terapia complementar e nunca substitui um programa estruturado de reabilitação.

Existe risco de efeitos adversos?

Por ser um produto autólogo, o risco de reações imunológicas é baixo. Ainda assim, podem ocorrer dor local, edema e complicações relacionadas ao procedimento invasivo.

Referências

FITZPATRICK, J.; BORYS, D.; MCDONALD, M. et al. The effectiveness of platelet-rich plasma in the treatment of tendinopathy: a systematic review and meta-analysis. The American Journal of Sports Medicine, 2017.

WORLD ANTI-DOPING AGENCY (WADA). World Anti-Doping Code: Prohibited List.

ANDIA, I.; MAFFULLI, N. Platelet-rich plasma for managing pain and inflammation in osteoarthritis. Nature Reviews Rheumatology, 2013.

Autor

  • Melo Carla

    Médica do Esporte formada pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 2007, com especialização em Nutrologia pela ABRAN e título de especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela SBMEE.
    Atua na avaliação, acompanhamento e cuidado de atletas e praticantes de atividade física, com experiência em maratonas e eventos esportivos. É sócia da clínica IEMEX Performance, em Curitiba, e também realiza atendimentos em consultório particular na Clinica CMI em Mafra/SC.
    Sua prática integra medicina do esporte, nutrologia e promoção da saúde, com foco em performance, prevenção de lesões, qualidade de vida e longevidade ativa.
    Instagram: @dracarla.melo

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