Nos últimos anos, a semaglutida deixou de ser apenas uma medicação para diabetes tipo 2 e passou a ocupar espaço crescente na prática da medicina esportiva, principalmente em pacientes que buscam redução de gordura corporal e melhora da composição corporal.
O interesse de atletas recreacionais, praticantes de musculação e até competidores por agonistas do receptor de GLP-1 aumentou significativamente após os resultados impressionantes observados nos estudos de perda de peso.
Entretanto, uma questão importante costuma receber menos atenção do que deveria:
O que acontece com o desempenho, a massa muscular e a recuperação do atleta durante o uso da semaglutida?
Essa é uma discussão que todo médico que atende atletas e praticantes de atividade física precisa dominar.
Para compreender melhor os mecanismos fisiológicos, indicações e limitações clínicas dos peptídeos utilizados atualmente na medicina esportiva, vale conhecer o curso Peptídeos Terapêuticos e na Performance.
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O que é a semaglutida?
A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1) de segunda geração, disponível em formulações subcutânea (aplicação semanal) e oral (comprimido diário). A figura abaixo ilustra a derivação do GLP-1 e as modificações moleculares da semaglutida:

Figure 1. Derivation of Glucagon-like Peptide-1 (GLP-1) and the Biologic Actions of GLP-1 Medicines.
Discovery of GLP-1–Based Drugs for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 5 de fevereiro de 2025.
Existem indicações clínicas aprovadas para o uso deste medicamento, que são:
- Para diabetes tipo 2: Aprovada para melhorar o controle glicêmico em adultos com diabetes tipo 2 como adjuvante à dieta e exercício. A formulação subcutânea está disponível em doses de 0,5 mg, 1 mg e 2 mg semanais, enquanto a formulação oral está aprovada em doses de 7mg e 14mg diários.
- Para controle de peso: A semaglutida 2,4mg subcutânea semanal (Wegovy) foi aprovada em 2021 para manejo crônico de peso em adultos com obesidade (IMC ≥30 kg/m²) ou sobrepeso (IMC ≥27 kg/m²) com pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso. Em 2022, a indicação foi estendida para adolescentes ≥12 anos.
- Para redução de risco cardiovascular: Em 2024, a semaglutida 2,4 mg foi aprovada para reduzir o risco de eventos cardiovasculares adversos maiores (morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal ou AVC não fatal) em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso.
- Para esteatohepatite metabólica (MASH): Em agosto de 2025, a semaglutida (Wegovy) recebeu aprovação acelerada do FDA para tratar MASH em adultos com fibrose moderada a avançada (estágios F2-F3), baseada nos resultados do estudo ESSENCE.
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Por que a semaglutida desperta interesse na medicina esportiva?
Em modalidades nas quais a composição corporal influencia o desempenho, reduzir gordura corporal pode trazer benefícios importantes.
Entre os potenciais benefícios observados:
- redução do peso corporal;
- melhora da resistência relativa;
- diminuição da sobrecarga articular;
- melhora de parâmetros cardiometabólicos;
- maior aderência ao déficit calórico.
Por esse motivo, atletas recreacionais e pacientes fisicamente ativos frequentemente procuram a medicação.
Todavia, reduzir peso não significa necessariamente melhorar performance, e é nesse contexto que o médico deverá tomar um cuidado redobrado ao prescrever a semaglutida para atletas.
O problema: perda de peso não é sinônimo de perda exclusiva de gordura
Uma das principais limitações observadas nos estudos com semaglutida é que parte da perda ponderal ocorre às custas de massa magra.
Embora a redução de gordura seja predominante, avaliações de composição corporal mostram que uma parcela relevante do peso perdido pode corresponder a:
- massa muscular;
- água corporal;
- tecido livre de gordura.
Para indivíduos sedentários isso pode representar um problema moderado.
Para atletas, porém, a preservação da massa muscular frequentemente é determinante para desempenho, potência, força e prevenção de lesões.
Como a semaglutida pode impactar a massa muscular?
A semaglutida impacta a massa muscular principalmente através da perda de peso induzida por restrição calórica, o que resulta em uma redução de aproximadamente 25-30% da perda de peso total na forma de massa magra.
No entanto, evidências emergentes sugerem que a semaglutida pode ter efeitos diretos tanto protetores quanto deletérios no músculo esquelético, dependendo do contexto clínico.
Isso pode acontecer através de alguns mecanismos:
1. Redução importante da ingestão proteica
Ao reduzir significativamente o apetite, muitos pacientes passam a consumir menos proteínas.
Na prática clínica, não é raro observar indivíduos que pulam refeições, diminuem porções proteicas e apresentam ingestão energética muito abaixo da necessária.
Quando isso ocorre, aumenta o risco de perda de massa muscular durante o emagrecimento.
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2. Baixa disponibilidade energética
Atletas possuem demandas energéticas superiores às da população geral.
A combinação entre treinamento intenso, baixa ingestão calórica e uso de semaglutida pode favorecer estados de baixa disponibilidade energética. Esse fenômeno está associado a pior recuperação, redução do desempenho, alterações hormonais e maior risco de lesões.
3. Possível redução indireta do estímulo anabólico
Embora a semaglutida não seja um agente catabólico clássico, a redução do consumo alimentar pode comprometer a oferta de substratos necessários para adaptação muscular.
O resultado final dependerá de fatores como: ingestão proteica, qualidade do treinamento, estado nutricional e percentual de gordura inicial.
Impactos funcionais:
Força muscular: Os dados são contraditórios. No estudo SEMALEAN, a força de preensão manual melhorou significativamente (+4,5 kg aos 12 meses) apesar da perda inicial de massa magra, e a prevalência de obesidade sarcopênica diminuiu de 49% para 33%. No entanto, estudos em idosos sugerem possível declínio da força com uso prolongado.
Qualidade versus quantidade: Embora haja redução no volume muscular, melhorias significativas na qualidade muscular incluem redução da infiltração gordurosa intramuscular e melhora da composição das fibras musculares.
Recuperação após descontinuação: Estudos em animais demonstram que tanto a massa magra quanto a gordura retornam aos níveis basais após a retirada do tratamento. Em camundongos, após 6 semanas de descontinuação da semaglutida, a massa magra, massa gorda, tamanho e força muscular foram comparáveis entre os grupos.
Existe impacto sobre o desempenho esportivo?
A semaglutida pode ter impactos tanto positivos quanto negativos no desempenho esportivo, isso vai depender do contexto clínico do atleta. Os efeitos variam conforme o estado de saúde basal, composição corporal e tipo de atividade esportiva praticada.
- Efeitos positivos potenciais
Melhora da função física em indivíduos com obesidade
Em pessoas com sobrepeso ou obesidade, a semaglutida demonstrou melhorias significativas na função física autorrelatada. Nos estudos STEP 1-4, a semaglutida 2,4 mg resultou em melhorias superiores ao placebo nos escores de função física, com proporções significativamente maiores de participantes alcançando mudanças clinicamente significativas.

Figure 2. Proportion of participants achieving meaningful within‐person change from baseline to end of treatment with semaglutide 2.4 mg versus placebo in (A) Impact of Weight on Quality of Life‐Lite Clinical Trials Version (IWQOL‐Lite‐CT) Physical Function score (≥14.6) and (B) SF‐36v2 Health Survey Acute (SF‐36v2) Physical Functioning score (≥3.7).
Effect of semaglutide 2.4 mg on physical functioning and weight‐ and health‐related quality of life in adults with overweight or obesity: Patient‐reported outcomes from the STEP 1–4 trials. Diabetes Obes Metab. 30 de junho de 2024.
Melhora da capacidade de exercício em condições específicas
Em pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada e obesidade, a semaglutida melhorou significativamente a capacidade de exercício medida pela distância percorrida no teste de caminhada de 6 minutos, com aumento médio de 15,1 metros comparado ao placebo (IC 95%: 5,8-24,4; p = 0,002). A magnitude dessa melhora é comparável à observada em estudos de treinamento físico em pacientes com insuficiência cardíaca.
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Mecanismos potenciais de melhora:
- Redução da carga mecânica sobre articulações e sistema cardiovascular devido à perda de peso
- Melhora da mobilidade e redução de limitações físicas relacionadas à obesidade
- Redução da inflamação sistêmica (diminuição da proteína C-reativa)
Efeitos negativos potenciais
1. Perda de massa muscular
Conforme discutido anteriormente, aproximadamente 40% da perda de peso com semaglutida corresponde a massa magra, o que pode comprometer:
- Força muscular
- Potência anaeróbica
- Capacidade de sprint e explosão
- Relação potência-peso em atletas de elite
2. Comprometimento da disponibilidade energética
Retardo do esvaziamento gástrico: O prolongamento médio de 74 minutos no tempo de esvaziamento gástrico pode afetar:
- Absorção de carboidratos durante exercícios prolongados
- Disponibilidade de glicose para exercícios de alta intensidade
- Reposição energética pós-treino
Supressão do apetite: A redução significativa da ingestão calórica pode resultar em:
- Déficit energético crônico inadequado para demandas de treinamento intenso
- Comprometimento da recuperação muscular
- Risco de síndrome de baixa disponibilidade energética relativa no esporte (RED-S)
3. Sintomas gastrointestinais durante exercício
Os efeitos colaterais gastrointestinais (náusea em 36-46%, diarreia em 27-31%, vômitos em 19-31%) podem ser exacerbados durante o exercício, especialmente em:
- Esportes de endurance (corrida, ciclismo, triatlo)
- Atividades com impacto mecânico repetitivo
- Competições de longa duração
4. Desidratação e desequilíbrio eletrolítico
Náusea, vômitos e diarreia persistentes aumentam o risco de:
- Depleção de volume
- Lesão renal aguda
- Desequilíbrios eletrolíticos que afetam a contração muscular e função cardíaca
5. Fadiga e redução da capacidade de treinamento
A restrição calórica significativa combinada com sintomas gastrointestinais pode resultar em:
- Fadiga crônica
- Redução da tolerância ao treinamento de alta intensidade
- Aumento do tempo de recuperação entre sessões
Considerações específicas por tipo de atleta
Atletas com obesidade ou sobrepeso: Podem experimentar benefícios líquidos positivos devido à melhora da relação potência-peso, redução da carga articular e melhora da função cardiovascular.
Atletas de elite com composição corporal já otimizada: Provavelmente experimentarão efeitos predominantemente negativos, incluindo perda de massa muscular, comprometimento da disponibilidade energética e sintomas gastrointestinais que interferem no treinamento e competição.
Atletas de endurance: Particularmente vulneráveis aos efeitos do retardo do esvaziamento gástrico e sintomas gastrointestinais durante exercícios prolongados.
Atletas de força/potência: Mais suscetíveis aos efeitos negativos da perda de massa muscular na força e potência máximas.
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O risco da baixa disponibilidade energética
Um conceito frequentemente negligenciado na prescrição de semaglutida para atletas é a disponibilidade energética.
Quando a ingestão energética se torna insuficiente para sustentar simultaneamente:
- funções fisiológicas;
- recuperação;
- treinamento;
podem surgir consequências como:
- fadiga crônica;
- piora da imunidade;
- alterações hormonais;
- redução da densidade mineral óssea;
- maior incidência de lesões.
Esse é um aspecto particularmente importante em atletas de endurance, esportes estéticos e modalidades com categorias de peso.
A popularização dos agonistas de GLP-1 criou novas possibilidades terapêuticas, mas também exige compreensão profunda de fisiologia, composição corporal e performance.
Para médicos que desejam utilizar esses recursos com segurança e embasamento científico, o curso Peptídeos Terapêuticos e na Performance aprofunda os mecanismos, indicações e limitações dessas estratégias.
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Erros comuns na utilização de semaglutida em atletas
Prescrever apenas com foco no peso corporal
Peso é uma variável limitada.
O acompanhamento deve incluir:
- composição corporal;
- desempenho;
- ingestão proteica;
- recuperação.
Ignorar a massa muscular
Nem toda perda de peso representa melhora da composição corporal.
Preservar tecido muscular deve ser prioridade.
Não monitorar ingestão energética
A redução excessiva das calorias pode comprometer adaptações ao treinamento.
Não individualizar a estratégia
O mesmo protocolo dificilmente será adequado para:
- atletas de força;
- corredores;
- lutadores;
- pacientes recreacionais.
O que a evidência permite concluir atualmente?
A literatura atual sugere que a semaglutida é uma ferramenta eficaz para perda de peso e redução de gordura corporal.
Entretanto, quando aplicada à população esportiva, algumas preocupações merecem atenção:
- potencial perda de massa magra;
- redução da ingestão proteica;
- sintomas gastrointestinais;
- risco de baixa disponibilidade energética;
- possível impacto negativo sobre recuperação e desempenho.
Até o momento, faltam estudos robustos avaliando atletas treinados utilizando semaglutida durante ciclos completos de treinamento e competição.
Portanto, decisões clínicas devem ser tomadas com cautela e individualização.
Limitações da evidência científica
Ao interpretar os estudos disponíveis, é importante lembrar que:
- a maioria dos participantes não eram atletas;
- poucos estudos avaliaram performance esportiva;
- os dados sobre força e potência são limitados;
- ainda não existem respostas definitivas sobre o impacto em atletas altamente treinados.
Por esse motivo, plausibilidade fisiológica não deve ser confundida com evidência clínica definitiva.
Resumo prático
- A semaglutida é eficaz para perda de peso e redução de gordura corporal.
- Parte da perda ponderal pode ocorrer às custas de massa magra.
- Atletas apresentam risco maior de baixa disponibilidade energética.
- Sintomas gastrointestinais podem interferir nos treinos.
- A preservação da ingestão proteica é fundamental.
- Ainda faltam estudos específicos em atletas treinados.
- O uso deve ser individualizado e monitorado com avaliação de composição corporal e desempenho.
Conclusão
A semaglutida representa uma das ferramentas mais relevantes da medicina moderna para tratamento da obesidade e melhoria de parâmetros cardiometabólicos.
Contudo, quando o paciente é um atleta, a discussão vai muito além da balança.
A pergunta central não deve ser apenas quanto peso foi perdido, mas sim qual tecido foi perdido, como isso impactou a recuperação e se houve melhora real da performance esportiva.
A medicina esportiva baseada em evidências exige exatamente essa análise crítica.
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