
Paciente, atleta amador, competindo em categoria de peso. Iniciou tirzepatida por indicação clínica legítima, obesidade grau 1 com síndrome metabólica. Alguns meses depois, antes de uma competição, perguntou se precisava declarar o uso do medicamento ou se seria desclassificado caso fosse testado.
É o tipo de dúvida que parece simples na superfície e que exige uma resposta bem mais cuidadosa do que um “não se preocupa”.
A tirzepatida pode ser considerada doping?
A resposta curta é não. Atualmente ela não consta na lista de substâncias proibidas da WADA. Mas limitar a discussão a essa resposta simplifica um tema que envolve regulamentação esportiva, fisiologia do exercício, composição corporal e ética no esporte.
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O que define doping?
Vamos começar pelo critério, porque ele é frequentemente mal compreendido.
Segundo a WADA, uma substância pode ser considerada para inclusão na lista de proibição quando atende a pelo menos dois dos seguintes critérios: potencial de melhora do desempenho esportivo, risco à saúde do atleta, ou violação do espírito esportivo.
Portanto, nem todo medicamento utilizado por atletas é doping. E nem toda substância capaz de alterar parâmetros fisiológicos será automaticamente proibida. Isso elimina a lógica de “melhorou algum parâmetro, então é doping”, que é exatamente o tipo de raciocínio que gera confusão desnecessária.
O contexto regulatório da tirzepatida
Antes de discutir doping, vale estabelecer o que a tirzepatida é do ponto de vista regulatório.
É um medicamento aprovado pelas principais agências reguladoras mundiais para indicações clínicas bem definidas: diabetes tipo 2 desde maio de 2022 pelo FDA, obesidade e controle de peso crônico desde 2023, e apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade desde dezembro de 2024.
Trata-se, portanto, de um fármaco com aprovação regulatória robusta para condições médicas prevalentes, não de uma substância experimental ou de uso off-label sem base regulatória.
A tirzepatida está na lista proibida?
Hoje não.
A tirzepatida não integra a lista de substâncias e métodos proibidos da WADA, e a literatura médica disponível não contém informações sobre sua classificação como substância proibida no esporte. Isso significa que, no momento da publicação deste artigo, seu uso não configura infração antidoping por si só.
Dois pontos importantes precisam acompanhar essa afirmação:
Primeiro: a ausência de menção na literatura médica sobre tirzepatida como substância proibida não constitui confirmação definitiva de seu status regulatório no esporte. Para orientação oficial, atletas e profissionais de saúde esportiva devem consultar diretamente a Lista de Substâncias Proibidas da WADA, que é atualizada anualmente, os regulamentos específicos de cada federação esportiva e, quando aplicável, os programas de Isenção para Uso Terapêutico (TUE).
Segundo: as listas antidoping são revisadas periodicamente. Novas substâncias podem ser monitoradas, avaliadas e eventualmente incluídas conforme surgem novas evidências. Médicos que atendem atletas competitivos deveriam ter o hábito de verificar atualizações regulatórias, não apenas para a tirzepatida, mas para qualquer medicamento prescrito nessa população.
A tirzepatida melhora a performance esportiva?
Essa é a pergunta que realmente importa, e a resposta atual é direta:
Não existem evidências robustas demonstrando efeito ergogênico direto da tirzepatida.
Mas isso não encerra a discussão, porque existem dois lados dessa equação que merecem análise separada.
Do lado dos possíveis benefícios indiretos: a tirzepatida promove redução de peso corporal de 15 a 26% nos estudos clínicos, com redução expressiva de massa gorda visceral e subcutânea e melhora do controle glicêmico. Em indivíduos com obesidade, essas mudanças podem melhorar mobilidade, reduzir sobrecarga articular e aumentar a capacidade funcional geral. Os agonistas de GLP-1, incluindo a tirzepatida, são medicamentos terapêuticos aprovados para condições metabólicas específicas, e esse contexto é fundamentalmente diferente do de substâncias anabolizantes ou estimulantes tradicionalmente associadas ao doping.
Do lado das possíveis limitações: náusea, desconforto gastrointestinal, redução importante da ingestão energética e eventual perda de massa livre de gordura durante o emagrecimento são efeitos que podem comprometer o treinamento e o desempenho, especialmente nas fases iniciais do tratamento. Para um atleta em preparação para competição, esses efeitos não podem ser ignorados.
E vale lembrar que melhorar peso corporal não significa necessariamente melhorar performance esportiva.
O caso específico das modalidades com categoria de peso
Essa é, provavelmente, a área de maior interesse prático, e onde a pergunta sobre doping surge com mais frequência.
Em modalidades como judô, jiu-jitsu, boxe, wrestling e levantamento de peso olímpico, a hipótese é que uma terapia capaz de promover emagrecimento expressivo poderia facilitar o processo de chegada à categoria-alvo de forma menos agressiva do que as estratégias tradicionais de cutting, que frequentemente envolvem desidratação aguda, restrição calórica extrema e comprometimento real do desempenho.
É uma hipótese plausível do ponto de vista fisiológico. Mas permanece especulativa: não existem evidências consistentes demonstrando benefício competitivo real decorrente do uso da tirzepatida nesses cenários. E a possível perda de massa magra que acompanha o emagrecimento é um contrapeso relevante em modalidades onde força relativa é determinante.
Uso terapêutico legítimo e o programa de TUE
Atletas com condições médicas documentadas (diabetes tipo 2, obesidade) podem ter indicação médica legítima para uso de tirzepatida, de forma análoga a outros medicamentos prescritos regularmente em contexto esportivo.
Quando existir dúvida sobre o status regulatório de qualquer medicamento em competições específicas, o caminho correto é consultar o programa de Isenção para Uso Terapêutico (TUE) da federação ou agência antidoping correspondente. Esse mecanismo existe justamente para proteger atletas que precisam de tratamento médico legítimo, e utilizá-lo é a conduta correta, não uma admissão de irregularidade.
O erro de confundir uso terapêutico com doping
Esse é um dos equívocos mais comuns, e tem consequências práticas para pacientes que são atletas.
Atletas com condições médicas legítimas utilizam medicamentos regularmente em endocrinologia, pneumologia, cardiologia e psiquiatria. O conceito de doping depende de critérios regulatórios específicos, não da simples utilização de uma substância farmacológica por um atleta.
Nem todo medicamento utilizado por um atleta constitui doping.
Tratar o uso terapêutico legítimo de tirzepatida como moralmente equivalente ao doping é um erro que prejudica tanto o atleta quanto a discussão clínica, podendo levar à interrupção desnecessária de um tratamento com indicação clara.
Existe risco de mudança regulatória no futuro?
É impossível prever com segurança.
O cenário antidoping é dinâmico, diversas substâncias passaram por reavaliações ao longo das décadas à medida que novas evidências surgiram. O fato de a tirzepatida não estar proibida hoje não garante que sua situação regulatória permanecerá inalterada indefinidamente.
Dito isso: qualquer especulação sobre proibições futuras deve ser tratada como especulação, não como orientação clínica ou regulatória. O que orienta a prática hoje é a lista vigente da WADA e os regulamentos específicos de cada federação, não hipóteses sobre o que pode acontecer nos próximos anos.
A discussão sobre tirzepatida e doping é, no fundo, uma discussão sobre os limites entre tratamento médico e vantagem competitiva, e sobre a necessidade de raciocinar com precisão em vez de responder por reflexo. O atleta que pergunta se vai ser desclassificado merece uma resposta informada, não uma tranquilização vaga.
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Referências
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