O placar que ninguém viu: dois jogos da Copa cruzaram o limite de calor defendido pela FIFPRO

Arábia Saudita x Uruguai e Suécia x Tunísia teriam sido disputados com WBGT igual ou superior a 28 °C. Entenda por que esse número preocupa, como outras modalidades lidam com o calor e por que uma pausa de três minutos pode não resolver o problema.


A partida terminou empatada em 1 a 1. Mas, em Arábia Saudita x Uruguai, disputada em Miami no dia 15 de junho, havia outro placar correndo silenciosamente: o do estresse térmico.

Segundo análise publicada pelo The Guardian, esse foi o jogo mais quente entre as primeiras 24 partidas da Copa do Mundo de 2026. O confronto teria atingido WBGT estimado de pelo menos 28 °C, mesmo começando às 18h no horário local.

Na noite anterior, Suécia x Tunísia, disputado em Monterrey e vencido pelos suecos por 5 a 1, também teria alcançado esse patamar. E isso importa porque a FIFPRO, entidade internacional que representa os jogadores, recomenda considerar o adiamento ou a interrupção de partidas quando o WBGT ultrapassa 28 °C.

Não há confirmação de que atletas tenham desenvolvido doença provocada pelo calor nesses dois jogos. Também não se pode afirmar que a FIFA tenha descumprido um protocolo médico.

Mas os episódios expõem uma pergunta que o esporte de alto rendimento já não pode evitar:

Até que ponto é aceitável manter uma competição quando o próprio ambiente passa a ameaçar a capacidade de o corpo dissipar calor?

Antes de tudo: os 28 °C não eram a temperatura do ar

Essa é a primeira distinção importante.

O WBGT, sigla para Wet-Bulb Globe Temperature, não corresponde à temperatura exibida no aplicativo do celular. Trata-se de um índice ambiental que procura estimar o estresse térmico combinando diferentes variáveis.

Em condições externas com incidência solar, uma fórmula frequentemente utilizada considera:

  • 70% da temperatura de bulbo úmido natural;
  • 20% da temperatura de globo;
  • 10% da temperatura do ar.

A temperatura de globo ajuda a representar a radiação solar. O bulbo úmido reflete a influência conjunta da umidade, da ventilação e da evaporação. Por isso, dois locais com a mesma temperatura do ar podem produzir riscos completamente diferentes para o atleta.

MedidaO que consideraLimitação principal
Temperatura do arCalor do ambienteIgnora umidade, radiação e vento
Índice de calorTemperatura e umidadeNão representa adequadamente radiação solar e condições específicas do campo
WBGTTemperatura, umidade, radiação e parcialmente ventilaçãoNão mede diretamente o calor produzido pelo atleta, suas roupas, sua aclimatação ou seu estado clínico

Isso significa que 28 °C de WBGT pode coexistir com temperatura do ar bem superior a 30 °C. Também significa que jogar sob 30 °C em local úmido e pouco ventilado pode ser mais desgastante do que competir sob temperatura maior em clima seco.

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O que aconteceu nos dois jogos

Arábia Saudita 1 x 1 Uruguai — Miami

A partida foi realizada em 15 de junho, às 18h no horário local. Mesmo no início da noite, a análise meteorológica classificou o confronto como o mais quente entre os primeiros 24 jogos do torneio.

Suécia 5 x 1 Tunísia — Monterrey

O jogo começou às 20h do dia 14 de junho. Ainda assim, teria apresentado o segundo maior estresse térmico entre as partidas realizadas em estádios sem climatização integral.

A análise utilizou dados meteorológicos e modelos para estimar as condições nos locais das partidas. Portanto, esses números não devem ser tratados como medições oficiais feitas no gramado com equipamento da FIFA. O WBGT pode variar entre uma estação meteorológica, a arquibancada, uma área sombreada e o centro de um campo exposto à radiação.

A conclusão correta não é que os jogadores foram comprovadamente colocados em uma situação ilegal ou necessariamente insegura.

A conclusão é que havia sinal ambiental suficiente para justificar monitoramento rigoroso, medidas de resfriamento e discussão sobre os critérios de continuidade da partida.

Quais valores de WBGT são aceitáveis no futebol?

Não existe um número universal que transforme automaticamente uma condição em “segura” ou “proibida”.

Organizações diferentes utilizam limites diferentes porque consideram populações, modalidades, intensidade, duração, vestuário e capacidade de resposta médica distintos.

Para o futebol profissional, as recomendações da FIFPRO são mais conservadoras do que alguns protocolos historicamente utilizados pela FIFA.

WBGTRecomendação da FIFPRO
Até 26 °CSem acionamento específico do protocolo térmico da entidade; isso não significa ausência de risco
Acima de 26 °CImplementar pausas para resfriamento e hidratação
Acima de 28 °CConsiderar seriamente atraso, adiamento ou interrupção até que as condições melhorem

A FIFPRO também recomenda medições no local da competição, acompanhamento da previsão com vários dias de antecedência, acesso a bebidas frias, gelo, sombra, estratégias de resfriamento e períodos adequados de aclimatação.

Uma revisão publicada no British Journal of Sports Medicine em 2024 descreveu uma política técnica da FIFA na qual o WBGT deveria ser medido 90 e 60 minutos antes do jogo. A partir de 32 °C, pausas de resfriamento seriam obrigatórias e a partida poderia ser adiada ou cancelada conforme a avaliação das condições e da capacidade de mitigação.

Esses limites não são equivalentes:

  • FIFPRO: defende considerar adiamento acima de 28 °C;
  • política técnica da FIFA descrita na revisão: estabelece intervenção obrigatória em patamar mais alto;
  • Copa de 2026: adotou pausas universais de hidratação, independentemente da temperatura.

O que a FIFA fez na Copa de 2026

Nesta edição, a FIFA determinou uma interrupção de aproximadamente três minutos aos 22 minutos de cada tempo, em todos os jogos, mesmo quando as condições ambientais não são consideradas extremas.

A medida permite que os jogadores:

  • consumam água e eletrólitos;
  • usem toalhas frias;
  • apliquem gelo;
  • recebam resfriamento por ventilação ou nebulização;
  • sejam observados pelas equipes médicas.

A FIFA também afirma utilizar meteorologistas nos locais, monitoramento ambiental em tempo real, áreas de sombra, planos de contingência e protocolos para atendimento de doenças relacionadas ao calor.

É uma evolução importante. Mas existe uma diferença entre reduzir o risco e tornar qualquer condição segura.

Três minutos são suficientes?

Provavelmente ajudam. Mas não há evidência para afirmar que três minutos neutralizam o risco de uma partida disputada sob estresse térmico elevado.

Em uma simulação controlada citada pela Associated Press, um protocolo que combinava três minutos de pausa, aproximadamente 350 a 400 mL de água fria e toalhas frias esteve associado a uma temperatura central cerca de 0,4 °C menor.

O resultado mostra que uma intervenção curta pode produzir efeito fisiológico. Entretanto, a situação experimental não reproduz perfeitamente:

  • 90 minutos de competição internacional;
  • exposição solar variável;
  • gramado aquecido;
  • elevada produção metabólica;
  • pressão competitiva;
  • atletas com diferentes níveis de aclimatação;
  • umidade alta e pouca circulação de ar.

Especialistas ouvidos sobre o tema defenderam que pausas de aproximadamente seis minutos poderiam permitir resfriamento mais efetivo.

Além disso, o intervalo não recupera completamente o calor acumulado entre uma pausa e outra. Um jogador pode passar mais de 20 minutos realizando sprints, acelerações, disputas e corridas antes da próxima oportunidade formal de resfriamento.

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O que o calor faz com o corpo do atleta

Durante o exercício, apenas parte da energia produzida se transforma em movimento. Uma quantidade considerável vira calor.

Para impedir que a temperatura central continue subindo, o organismo aumenta:

  • o fluxo de sangue para a pele;
  • a produção de suor;
  • a frequência cardíaca;
  • a ventilação;
  • a redistribuição cardiovascular.

O problema aparece quando o ambiente reduz a eficiência dessas respostas.

Em clima úmido, o suor pode escorrer sem evaporar adequadamente. Sob forte radiação solar, o corpo continua recebendo calor externo. Em modalidades intensas, a produção metabólica pode superar a capacidade de dissipação.

O atleta passa então a competir por dois recursos simultaneamente:

  1. sangue para sustentar os músculos;
  2. sangue para transportar calor até a pele.

Isso aumenta o esforço cardiovascular e pode antecipar fadiga, reduzir ações de alta intensidade e elevar o risco clínico. Diretrizes do American College of Sports Medicine ressaltam que o perigo depende não só do WBGT, mas também da intensidade, duração, roupas, equipamentos, aclimatação, doenças recentes, medicamentos e características individuais.

Atleta de elite também sofre com o calor

O alto nível de condicionamento não cria imunidade.

Na realidade, atletas muito treinados conseguem sustentar cargas absolutas maiores e, portanto, podem produzir grande quantidade de calor metabólico. A motivação competitiva também pode levá-los a ultrapassar sinais que fariam uma pessoa recreativa diminuir o ritmo.

Uma análise da Copa de 2014 encontrou redução no número de sprints e na distância percorrida em alta intensidade em condições de maior estresse térmico. Em outras palavras, os jogadores aparentemente adotaram estratégias de autorregulação para preservar o desempenho até o fim da partida.

Isso não significa que o calor determine sozinho o resultado. Significa que ele pode modificar:

  • a velocidade do jogo;
  • a capacidade de repetir sprints;
  • o tempo de recuperação;
  • a tomada de decisão;
  • a execução técnica;
  • a necessidade de substituições.

Não existe uma linha universal de segurança

O ACSM deixa claro que um mesmo WBGT não deve ser interpretado de maneira idêntica em todos os lugares.

Para competições contínuas envolvendo adultos treinados e plenamente aclimatados, o patamar classificado como risco extremo ou indicativo de cancelamento pode variar aproximadamente de 29 °C em populações habituadas a climas mais frios a mais de 32 °C em populações aclimatadas a regiões quentes.

Isso não significa que 32 °C seja seguro. Significa que a tolerância operacional pode ser ajustada ao clima local e ao nível de aclimatação.

Mesmo em faixas consideradas de risco mais baixo, casos de intermação podem ocorrer quando existem fatores individuais importantes.

Como a World Athletics classifica o WBGT

As diretrizes médicas da World Athletics oferecem uma escala útil para provas de atletismo, embora ela não deva ser transferida mecanicamente para todas as modalidades.

WBGTClassificação da World AthleticsInterpretação prática
Abaixo de 21 °CQuase seguroO risco não é zero; ainda depende do atleta e da prova
21 a 25 °CCautelaMonitorar hidratação, sintomas e exposição
25 a 28 °CAlertaIntensificar medidas de prevenção e resfriamento
28 a 30 °CAlerta severoReavaliar horários, duração e segurança da competição
Acima de 30 °CPerigoForte indicação para modificar, interromper ou adiar conforme o contexto

Uma maratona e um jogo de futebol apresentam demandas diferentes. Mas a escala ajuda a compreender por que 28 °C de WBGT não é um número trivial.

Como outras modalidades lidam com o calor

Uma revisão de políticas de 15 esportes de alto risco mostrou grande variação entre os protocolos. Apenas sete utilizavam formalmente o WBGT, e mesmo entre eles os limites eram diferentes.

ModalidadeGatilho térmico descritoMedidas possíveis
TênisA partir de 30,1 °C WBGTPausa adicional entre sets e modificação da partida
TênisA partir de 32,2 °CPartida não deve começar ou reiniciar; jogo em andamento pode ser suspenso
Triatlo30,1 a 32,2 °CReduzir distância, converter prova ou remarcar
TriatloAcima de 32,2 °CRemarcar ou cancelar provas de sprint e distância standard
Ciclismo de estradaAcima de 28 °CZona vermelha: mudar largada/chegada, neutralizar trechos ou cancelar
RemoAcima de 28 °COrientar treinos nos horários mais frescos e intensificar resfriamento
RemoAcima de 32 °CFechar o percurso para treinamento
Rugby SevensUtiliza índice próprio de estresse térmicoAjustar tabela, ampliar sombra e instituir pausas para resfriamento
Vôlei de praiaMonitora WBGT, sem limite fixo uniforme no documento revisadoDecisão baseada nas condições, histórico e suporte disponível

Os números não são diretamente intercambiáveis. No triatlo, a exposição é contínua e prolongada. No ciclismo, o fluxo de ar pode ajudar na evaporação, mas desaparece em subidas lentas. No tênis, a partida pode durar várias horas. No futebol, o atleta alterna corrida moderada com acelerações máximas.

Por isso, uma política séria deve combinar ambiente, modalidade, atleta e capacidade médica do evento.

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O WBGT tem limitações

O WBGT é útil, mas não é um “semáforo perfeito”.

Ele não incorpora diretamente:

  • intensidade real do exercício;
  • duração da exposição;
  • massa corporal;
  • taxa individual de suor;
  • uniforme e equipamentos;
  • superfície do campo;
  • temperatura do gramado;
  • histórico recente de doença;
  • sono e recuperação;
  • uso de medicamentos;
  • aclimatação;
  • capacidade de resfriamento disponível.

Sua precisão também pode ser menor em ambientes com alta umidade e pouca movimentação de ar. Além disso, o valor deve ser medido no local em que o atleta está exposto — não apenas obtido de uma estação meteorológica distante.

A pergunta correta não é simplesmente:

“O WBGT passou de 28?”

A pergunta completa é:

“Qual é o WBGT no campo, qual será a carga metabólica, quem são os atletas, quanto tempo estarão expostos e o evento consegue reconhecer e tratar rapidamente uma emergência?”

Quem corre mais risco

Entre os fatores que elevam a vulnerabilidade estão:

  • ausência de aclimatação ao calor;
  • doença viral ou febre recente;
  • desidratação prévia;
  • privação de sono;
  • episódios anteriores de doença pelo calor;
  • uso de roupas ou equipamentos que dificultam evaporação;
  • alguns medicamentos e substâncias;
  • pressão para continuar apesar dos sintomas;
  • exposição intensa nos dias anteriores.

A aclimatação exige tempo. Consensos internacionais recomendam, em geral, um período progressivo de uma a duas semanas, com aumento gradual da exposição e da carga.

Chegar poucos dias antes a uma cidade quente e úmida não equivale a estar plenamente aclimatado.

Sinais que nunca devem ser tratados como “apenas cansaço”

CondiçãoPossíveis manifestaçõesEstado mentalConduta central
Exaustão pelo calorFraqueza, tontura, náusea, cefaleia, taquicardia, queda de desempenhoGeralmente preservadoInterromper exercício, remover do calor, resfriar, avaliar e hidratar conforme o quadro
Intermação por esforçoColapso, comportamento estranho, confusão, agitação, convulsão ou coma, com temperatura central muito elevadaAlteradoEmergência: resfriamento corporal rápido e imediato
Hiponatremia associada ao exercícioNáusea, cefaleia, distensão, confusão, convulsão; pode ocorrer após ingestão excessiva de líquidosPode estar alteradoNão oferecer grandes volumes de água de forma indiscriminada; requer avaliação e tratamento específicos

Na intermação por esforço, a alteração do sistema nervoso central é um dos sinais mais importantes. A temperatura retal é considerada a melhor medida disponível em campo para estimar a temperatura central.

Quando existe forte suspeita, o resfriamento não deve aguardar exames hospitalares. A imersão em água fria é a estratégia preferencial quando viável, e o resfriamento corporal deve começar imediatamente no local.

“Beba muita água” não é um protocolo suficiente

A hidratação é importante, mas a mensagem precisa ser mais precisa.

Beber líquidos ajuda a preservar o volume circulante e a capacidade de produção de suor. Porém:

  • água não anula radiação solar;
  • água não elimina a produção metabólica de calor;
  • hidratação não substitui aclimatação;
  • hidratação não substitui resfriamento;
  • hidratação não transforma um ambiente extremo em seguro.

Também existe risco no extremo oposto. A ingestão de líquido muito acima da necessidade, especialmente em eventos prolongados, pode contribuir para hiponatremia associada ao exercício. O mecanismo envolve excesso de água em relação à capacidade de excreção e manutenção inadequada do hormônio antidiurético. Estratégias individualizadas e ingestão orientada pela sede são recomendadas para muitos atletas de endurance.

O protocolo ideal precisa começar antes do apito

Uma competição preparada para o calor não pode depender apenas de uma pausa aos 22 minutos.

Antes do evento

  1. Monitorar a previsão com pelo menos cinco dias de antecedência.
  2. Medir o WBGT no local e na área real de exposição.
  3. Definir previamente quais valores acionam pausa, mudança de horário ou adiamento.
  4. Planejar aclimatação de uma a duas semanas.
  5. Identificar atletas com doença recente ou fatores de risco.
  6. Organizar sombra, bebidas frias, gelo, ventiladores e toalhas frias.

Durante

  1. Repetir as medições ambientais.
  2. Observar alterações de comportamento e queda desproporcional de desempenho.
  3. Garantir pausas suficientemente longas para resfriamento efetivo.
  4. Permitir avaliação médica sem pressão para retorno rápido.
  5. Ter termômetro retal e estrutura para imersão em água fria.
  6. Monitorar também árbitros, gandulas, trabalhadores e espectadores.

Depois

  1. Manter resfriamento e recuperação em ambiente climatizado.
  2. Registrar sintomas e atendimentos.
  3. Reavaliar atletas antes da sessão seguinte.
  4. Ajustar cargas, horários e estratégias do próximo jogo.
  5. Revisar o protocolo quando ocorrer qualquer caso de doença pelo calor.

A mudança climática torna o problema mais frequente

Uma análise da World Weather Attribution estimou que as condições de junho e julho de 2026 em diversas cidades-sede apresentam WBGT aproximadamente 0,6 a 0,7 °C mais alto do que seria esperado no clima de 1994, ano da última Copa masculina disputada nos Estados Unidos.

Uma diferença aparentemente pequena pode empurrar um jogo de uma faixa de alerta para uma faixa de intervenção. Eventos com WBGT de 28 °C ou mais tendem a se tornar mais prováveis em várias sedes.

Portanto, o debate não termina nesta Copa.

Ele alcança:

  • maratonas;
  • triatlos;
  • torneios de tênis;
  • futebol de base;
  • provas de ciclismo;
  • corridas de rua;
  • jogos escolares;
  • treinamentos militares;
  • eventos recreativos;
  • equipes que viajam entre climas muito diferentes.

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O verdadeiro ponto da discussão

Não se trata de abolir o esporte no calor.

Trata-se de abandonar a ideia de que tradição, audiência ou calendário tornam o organismo humano menos vulnerável.

Pausas universais são um avanço. Monitoramento ambiental também. Mas nenhum protocolo deve transformar um limite elevado em mera formalidade administrativa.

WBGT acima de 28 °C não significa automaticamente que todos os jogos precisam ser cancelados. Mas significa que continuar jogando exige justificativa, estrutura, monitoramento e capacidade real de interromper a competição.

Arábia Saudita x Uruguai terminou 1 a 1. Suécia x Tunísia terminou 5 a 1.

O calor não apareceu no placar.

Mas pode ter participado do jogo — e, em uma combinação desfavorável de ambiente, esforço e vulnerabilidade individual, pode transformar uma competição em emergência médica.


Principais mensagens

  • WBGT não é a mesma coisa que temperatura do ar.
  • 28 °C de WBGT representa estresse térmico relevante, não 28 °C de temperatura ambiente.
  • A FIFPRO recomenda considerar adiamento acima desse patamar.
  • A pausa de três minutos adotada pela FIFA ajuda, mas não neutraliza todos os riscos.
  • Não existe um limite universal aplicável a todas as modalidades e atletas.
  • Alteração do estado mental durante exercício no calor deve levantar suspeita de intermação por esforço.
  • Hidratação é necessária, mas não substitui resfriamento, aclimatação e decisão organizacional.
  • Eventos esportivos precisam estar preparados para resfriar o atleta imediatamente no local.

Aviso: este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui avaliação clínica individualizada, protocolos locais, julgamento profissional ou consulta às diretrizes completas.

O placar que ninguém viu: dois jogos da Copa cruzaram o limite de calor defendido pela FIFPRO

Subtítulo: Arábia Saudita x Uruguai e Suécia x Tunísia teriam sido disputados com WBGT igual ou superior a 28 °C. Entenda por que esse número preocupa, como outras modalidades lidam com o calor e por que uma pausa de três minutos pode não resolver o problema.

Meta description: Dois jogos da Copa ocorreram sob calor severo. Entenda o WBGT, os limites recomendados e os protocolos de segurança no esporte.

Slug sugerido: calor-severo-copa-wbgt-seguranca-atletas


A partida terminou empatada em 1 a 1. Mas, em Arábia Saudita x Uruguai, disputada em Miami no dia 15 de junho, havia outro placar correndo silenciosamente: o do estresse térmico.

Segundo análise publicada pelo The Guardian, esse foi o jogo mais quente entre as primeiras 24 partidas da Copa do Mundo de 2026. O confronto teria atingido WBGT estimado de pelo menos 28 °C, mesmo começando às 18h no horário local.

Na noite anterior, Suécia x Tunísia, disputado em Monterrey e vencido pelos suecos por 5 a 1, também teria alcançado esse patamar. E isso importa porque a FIFPRO, entidade internacional que representa os jogadores, recomenda considerar o adiamento ou a interrupção de partidas quando o WBGT ultrapassa 28 °C.

Não há confirmação de que atletas tenham desenvolvido doença provocada pelo calor nesses dois jogos. Também não se pode afirmar que a FIFA tenha descumprido um protocolo médico.

Mas os episódios expõem uma pergunta que o esporte de alto rendimento já não pode evitar:

Até que ponto é aceitável manter uma competição quando o próprio ambiente passa a ameaçar a capacidade de o corpo dissipar calor?

Antes de tudo: os 28 °C não eram a temperatura do ar

Essa é a primeira distinção importante.

O WBGT, sigla para Wet-Bulb Globe Temperature, não corresponde à temperatura exibida no aplicativo do celular. Trata-se de um índice ambiental que procura estimar o estresse térmico combinando diferentes variáveis.

Em condições externas com incidência solar, uma fórmula frequentemente utilizada considera:

  • 70% da temperatura de bulbo úmido natural;
  • 20% da temperatura de globo;
  • 10% da temperatura do ar.

A temperatura de globo ajuda a representar a radiação solar. O bulbo úmido reflete a influência conjunta da umidade, da ventilação e da evaporação. Por isso, dois locais com a mesma temperatura do ar podem produzir riscos completamente diferentes para o atleta.

MedidaO que consideraLimitação principal
Temperatura do arCalor do ambienteIgnora umidade, radiação e vento
Índice de calorTemperatura e umidadeNão representa adequadamente radiação solar e condições específicas do campo
WBGTTemperatura, umidade, radiação e parcialmente ventilaçãoNão mede diretamente o calor produzido pelo atleta, suas roupas, sua aclimatação ou seu estado clínico

Isso significa que 28 °C de WBGT pode coexistir com temperatura do ar bem superior a 30 °C. Também significa que jogar sob 30 °C em local úmido e pouco ventilado pode ser mais desgastante do que competir sob temperatura maior em clima seco.

Quer aprender mais sobre esse tema? Assine o curso A Medicina Esportiva que Todo Médico Deveria Saber onde nós abordarmos esse assunto com mais profundidade.

O que aconteceu nos dois jogos

Arábia Saudita 1 x 1 Uruguai — Miami

A partida foi realizada em 15 de junho, às 18h no horário local. Mesmo no início da noite, a análise meteorológica classificou o confronto como o mais quente entre os primeiros 24 jogos do torneio.

Suécia 5 x 1 Tunísia — Monterrey

O jogo começou às 20h do dia 14 de junho. Ainda assim, teria apresentado o segundo maior estresse térmico entre as partidas realizadas em estádios sem climatização integral.

A análise utilizou dados meteorológicos e modelos para estimar as condições nos locais das partidas. Portanto, esses números não devem ser tratados como medições oficiais feitas no gramado com equipamento da FIFA. O WBGT pode variar entre uma estação meteorológica, a arquibancada, uma área sombreada e o centro de um campo exposto à radiação.

A conclusão correta não é que os jogadores foram comprovadamente colocados em uma situação ilegal ou necessariamente insegura.

A conclusão é que havia sinal ambiental suficiente para justificar monitoramento rigoroso, medidas de resfriamento e discussão sobre os critérios de continuidade da partida.

Quais valores de WBGT são aceitáveis no futebol?

Não existe um número universal que transforme automaticamente uma condição em “segura” ou “proibida”.

Organizações diferentes utilizam limites diferentes porque consideram populações, modalidades, intensidade, duração, vestuário e capacidade de resposta médica distintos.

Para o futebol profissional, as recomendações da FIFPRO são mais conservadoras do que alguns protocolos historicamente utilizados pela FIFA.

WBGTRecomendação da FIFPRO
Até 26 °CSem acionamento específico do protocolo térmico da entidade; isso não significa ausência de risco
Acima de 26 °CImplementar pausas para resfriamento e hidratação
Acima de 28 °CConsiderar seriamente atraso, adiamento ou interrupção até que as condições melhorem

A FIFPRO também recomenda medições no local da competição, acompanhamento da previsão com vários dias de antecedência, acesso a bebidas frias, gelo, sombra, estratégias de resfriamento e períodos adequados de aclimatação.

Uma revisão publicada no British Journal of Sports Medicine em 2024 descreveu uma política técnica da FIFA na qual o WBGT deveria ser medido 90 e 60 minutos antes do jogo. A partir de 32 °C, pausas de resfriamento seriam obrigatórias e a partida poderia ser adiada ou cancelada conforme a avaliação das condições e da capacidade de mitigação.

Esses limites não são equivalentes:

  • FIFPRO: defende considerar adiamento acima de 28 °C;
  • política técnica da FIFA descrita na revisão: estabelece intervenção obrigatória em patamar mais alto;
  • Copa de 2026: adotou pausas universais de hidratação, independentemente da temperatura.

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O que a FIFA fez na Copa de 2026

Nesta edição, a FIFA determinou uma interrupção de aproximadamente três minutos aos 22 minutos de cada tempo, em todos os jogos, mesmo quando as condições ambientais não são consideradas extremas.

A medida permite que os jogadores:

  • consumam água e eletrólitos;
  • usem toalhas frias;
  • apliquem gelo;
  • recebam resfriamento por ventilação ou nebulização;
  • sejam observados pelas equipes médicas.

A FIFA também afirma utilizar meteorologistas nos locais, monitoramento ambiental em tempo real, áreas de sombra, planos de contingência e protocolos para atendimento de doenças relacionadas ao calor.

É uma evolução importante. Mas existe uma diferença entre reduzir o risco e tornar qualquer condição segura.

Três minutos são suficientes?

Provavelmente ajudam. Mas não há evidência para afirmar que três minutos neutralizam o risco de uma partida disputada sob estresse térmico elevado.

Em uma simulação controlada citada pela Associated Press, um protocolo que combinava três minutos de pausa, aproximadamente 350 a 400 mL de água fria e toalhas frias esteve associado a uma temperatura central cerca de 0,4 °C menor.

O resultado mostra que uma intervenção curta pode produzir efeito fisiológico. Entretanto, a situação experimental não reproduz perfeitamente:

  • 90 minutos de competição internacional;
  • exposição solar variável;
  • gramado aquecido;
  • elevada produção metabólica;
  • pressão competitiva;
  • atletas com diferentes níveis de aclimatação;
  • umidade alta e pouca circulação de ar.

Especialistas ouvidos sobre o tema defenderam que pausas de aproximadamente seis minutos poderiam permitir resfriamento mais efetivo.

Além disso, o intervalo não recupera completamente o calor acumulado entre uma pausa e outra. Um jogador pode passar mais de 20 minutos realizando sprints, acelerações, disputas e corridas antes da próxima oportunidade formal de resfriamento.

O que o calor faz com o corpo do atleta

Durante o exercício, apenas parte da energia produzida se transforma em movimento. Uma quantidade considerável vira calor.

Para impedir que a temperatura central continue subindo, o organismo aumenta:

  • o fluxo de sangue para a pele;
  • a produção de suor;
  • a frequência cardíaca;
  • a ventilação;
  • a redistribuição cardiovascular.

O problema aparece quando o ambiente reduz a eficiência dessas respostas.

Em clima úmido, o suor pode escorrer sem evaporar adequadamente. Sob forte radiação solar, o corpo continua recebendo calor externo. Em modalidades intensas, a produção metabólica pode superar a capacidade de dissipação.

O atleta passa então a competir por dois recursos simultaneamente:

  1. sangue para sustentar os músculos;
  2. sangue para transportar calor até a pele.

Isso aumenta o esforço cardiovascular e pode antecipar fadiga, reduzir ações de alta intensidade e elevar o risco clínico. Diretrizes do American College of Sports Medicine ressaltam que o perigo depende não só do WBGT, mas também da intensidade, duração, roupas, equipamentos, aclimatação, doenças recentes, medicamentos e características individuais.

Atleta de elite também sofre com o calor

O alto nível de condicionamento não cria imunidade.

Na realidade, atletas muito treinados conseguem sustentar cargas absolutas maiores e, portanto, podem produzir grande quantidade de calor metabólico. A motivação competitiva também pode levá-los a ultrapassar sinais que fariam uma pessoa recreativa diminuir o ritmo.

Uma análise da Copa de 2014 encontrou redução no número de sprints e na distância percorrida em alta intensidade em condições de maior estresse térmico. Em outras palavras, os jogadores aparentemente adotaram estratégias de autorregulação para preservar o desempenho até o fim da partida.

Isso não significa que o calor determine sozinho o resultado. Significa que ele pode modificar:

  • a velocidade do jogo;
  • a capacidade de repetir sprints;
  • o tempo de recuperação;
  • a tomada de decisão;
  • a execução técnica;
  • a necessidade de substituições.

Não existe uma linha universal de segurança

O ACSM deixa claro que um mesmo WBGT não deve ser interpretado de maneira idêntica em todos os lugares.

Para competições contínuas envolvendo adultos treinados e plenamente aclimatados, o patamar classificado como risco extremo ou indicativo de cancelamento pode variar aproximadamente de 29 °C em populações habituadas a climas mais frios a mais de 32 °C em populações aclimatadas a regiões quentes.

Isso não significa que 32 °C seja seguro. Significa que a tolerância operacional pode ser ajustada ao clima local e ao nível de aclimatação.

Mesmo em faixas consideradas de risco mais baixo, casos de intermação podem ocorrer quando existem fatores individuais importantes.

Como a World Athletics classifica o WBGT

As diretrizes médicas da World Athletics oferecem uma escala útil para provas de atletismo, embora ela não deva ser transferida mecanicamente para todas as modalidades.

WBGTClassificação da World AthleticsInterpretação prática
Abaixo de 21 °CQuase seguroO risco não é zero; ainda depende do atleta e da prova
21 a 25 °CCautelaMonitorar hidratação, sintomas e exposição
25 a 28 °CAlertaIntensificar medidas de prevenção e resfriamento
28 a 30 °CAlerta severoReavaliar horários, duração e segurança da competição
Acima de 30 °CPerigoForte indicação para modificar, interromper ou adiar conforme o contexto

Uma maratona e um jogo de futebol apresentam demandas diferentes. Mas a escala ajuda a compreender por que 28 °C de WBGT não é um número trivial.

Como outras modalidades lidam com o calor

Uma revisão de políticas de 15 esportes de alto risco mostrou grande variação entre os protocolos. Apenas sete utilizavam formalmente o WBGT, e mesmo entre eles os limites eram diferentes.

ModalidadeGatilho térmico descritoMedidas possíveis
TênisA partir de 30,1 °C WBGTPausa adicional entre sets e modificação da partida
TênisA partir de 32,2 °CPartida não deve começar ou reiniciar; jogo em andamento pode ser suspenso
Triatlo30,1 a 32,2 °CReduzir distância, converter prova ou remarcar
TriatloAcima de 32,2 °CRemarcar ou cancelar provas de sprint e distância standard
Ciclismo de estradaAcima de 28 °CZona vermelha: mudar largada/chegada, neutralizar trechos ou cancelar
RemoAcima de 28 °COrientar treinos nos horários mais frescos e intensificar resfriamento
RemoAcima de 32 °CFechar o percurso para treinamento
Rugby SevensUtiliza índice próprio de estresse térmicoAjustar tabela, ampliar sombra e instituir pausas para resfriamento
Vôlei de praiaMonitora WBGT, sem limite fixo uniforme no documento revisadoDecisão baseada nas condições, histórico e suporte disponível

Os números não são diretamente intercambiáveis. No triatlo, a exposição é contínua e prolongada. No ciclismo, o fluxo de ar pode ajudar na evaporação, mas desaparece em subidas lentas. No tênis, a partida pode durar várias horas. No futebol, o atleta alterna corrida moderada com acelerações máximas.

Por isso, uma política séria deve combinar ambiente, modalidade, atleta e capacidade médica do evento.

O WBGT tem limitações

O WBGT é útil, mas não é um “semáforo perfeito”.

Ele não incorpora diretamente:

  • intensidade real do exercício;
  • duração da exposição;
  • massa corporal;
  • taxa individual de suor;
  • uniforme e equipamentos;
  • superfície do campo;
  • temperatura do gramado;
  • histórico recente de doença;
  • sono e recuperação;
  • uso de medicamentos;
  • aclimatação;
  • capacidade de resfriamento disponível.

Sua precisão também pode ser menor em ambientes com alta umidade e pouca movimentação de ar. Além disso, o valor deve ser medido no local em que o atleta está exposto — não apenas obtido de uma estação meteorológica distante.

A pergunta correta não é simplesmente:

“O WBGT passou de 28?”

A pergunta completa é:

“Qual é o WBGT no campo, qual será a carga metabólica, quem são os atletas, quanto tempo estarão expostos e o evento consegue reconhecer e tratar rapidamente uma emergência?”

Quem corre mais risco

Entre os fatores que elevam a vulnerabilidade estão:

  • ausência de aclimatação ao calor;
  • doença viral ou febre recente;
  • desidratação prévia;
  • privação de sono;
  • episódios anteriores de doença pelo calor;
  • uso de roupas ou equipamentos que dificultam evaporação;
  • alguns medicamentos e substâncias;
  • pressão para continuar apesar dos sintomas;
  • exposição intensa nos dias anteriores.

A aclimatação exige tempo. Consensos internacionais recomendam, em geral, um período progressivo de uma a duas semanas, com aumento gradual da exposição e da carga.

Chegar poucos dias antes a uma cidade quente e úmida não equivale a estar plenamente aclimatado.

Sinais que nunca devem ser tratados como “apenas cansaço”

CondiçãoPossíveis manifestaçõesEstado mentalConduta central
Exaustão pelo calorFraqueza, tontura, náusea, cefaleia, taquicardia, queda de desempenhoGeralmente preservadoInterromper exercício, remover do calor, resfriar, avaliar e hidratar conforme o quadro
Intermação por esforçoColapso, comportamento estranho, confusão, agitação, convulsão ou coma, com temperatura central muito elevadaAlteradoEmergência: resfriamento corporal rápido e imediato
Hiponatremia associada ao exercícioNáusea, cefaleia, distensão, confusão, convulsão; pode ocorrer após ingestão excessiva de líquidosPode estar alteradoNão oferecer grandes volumes de água de forma indiscriminada; requer avaliação e tratamento específicos

Na intermação por esforço, a alteração do sistema nervoso central é um dos sinais mais importantes. A temperatura retal é considerada a melhor medida disponível em campo para estimar a temperatura central.

Quando existe forte suspeita, o resfriamento não deve aguardar exames hospitalares. A imersão em água fria é a estratégia preferencial quando viável, e o resfriamento corporal deve começar imediatamente no local.

“Beba muita água” não é um protocolo suficiente

A hidratação é importante, mas a mensagem precisa ser mais precisa.

Beber líquidos ajuda a preservar o volume circulante e a capacidade de produção de suor. Porém:

  • água não anula radiação solar;
  • água não elimina a produção metabólica de calor;
  • hidratação não substitui aclimatação;
  • hidratação não substitui resfriamento;
  • hidratação não transforma um ambiente extremo em seguro.

Também existe risco no extremo oposto. A ingestão de líquido muito acima da necessidade, especialmente em eventos prolongados, pode contribuir para hiponatremia associada ao exercício. O mecanismo envolve excesso de água em relação à capacidade de excreção e manutenção inadequada do hormônio antidiurético. Estratégias individualizadas e ingestão orientada pela sede são recomendadas para muitos atletas de endurance.

O protocolo ideal precisa começar antes do apito

Uma competição preparada para o calor não pode depender apenas de uma pausa aos 22 minutos.

Antes do evento

  1. Monitorar a previsão com pelo menos cinco dias de antecedência.
  2. Medir o WBGT no local e na área real de exposição.
  3. Definir previamente quais valores acionam pausa, mudança de horário ou adiamento.
  4. Planejar aclimatação de uma a duas semanas.
  5. Identificar atletas com doença recente ou fatores de risco.
  6. Organizar sombra, bebidas frias, gelo, ventiladores e toalhas frias.

Durante

  1. Repetir as medições ambientais.
  2. Observar alterações de comportamento e queda desproporcional de desempenho.
  3. Garantir pausas suficientemente longas para resfriamento efetivo.
  4. Permitir avaliação médica sem pressão para retorno rápido.
  5. Ter termômetro retal e estrutura para imersão em água fria.
  6. Monitorar também árbitros, gandulas, trabalhadores e espectadores.

Depois

  1. Manter resfriamento e recuperação em ambiente climatizado.
  2. Registrar sintomas e atendimentos.
  3. Reavaliar atletas antes da sessão seguinte.
  4. Ajustar cargas, horários e estratégias do próximo jogo.
  5. Revisar o protocolo quando ocorrer qualquer caso de doença pelo calor.

A mudança climática torna o problema mais frequente

Uma análise da World Weather Attribution estimou que as condições de junho e julho de 2026 em diversas cidades-sede apresentam WBGT aproximadamente 0,6 a 0,7 °C mais alto do que seria esperado no clima de 1994, ano da última Copa masculina disputada nos Estados Unidos.

Uma diferença aparentemente pequena pode empurrar um jogo de uma faixa de alerta para uma faixa de intervenção. Eventos com WBGT de 28 °C ou mais tendem a se tornar mais prováveis em várias sedes.

Portanto, o debate não termina nesta Copa.

Ele alcança:

  • maratonas;
  • triatlos;
  • torneios de tênis;
  • futebol de base;
  • provas de ciclismo;
  • corridas de rua;
  • jogos escolares;
  • treinamentos militares;
  • eventos recreativos;
  • equipes que viajam entre climas muito diferentes.

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O verdadeiro ponto da discussão

Não se trata de abolir o esporte no calor.

Trata-se de abandonar a ideia de que tradição, audiência ou calendário tornam o organismo humano menos vulnerável.

Pausas universais são um avanço. Monitoramento ambiental também. Mas nenhum protocolo deve transformar um limite elevado em mera formalidade administrativa.

WBGT acima de 28 °C não significa automaticamente que todos os jogos precisam ser cancelados. Mas significa que continuar jogando exige justificativa, estrutura, monitoramento e capacidade real de interromper a competição.

Arábia Saudita x Uruguai terminou 1 a 1. Suécia x Tunísia terminou 5 a 1.

O calor não apareceu no placar.

Mas pode ter participado do jogo — e, em uma combinação desfavorável de ambiente, esforço e vulnerabilidade individual, pode transformar uma competição em emergência médica.


Principais mensagens

  • WBGT não é a mesma coisa que temperatura do ar.
  • 28 °C de WBGT representa estresse térmico relevante, não 28 °C de temperatura ambiente.
  • A FIFPRO recomenda considerar adiamento acima desse patamar.
  • A pausa de três minutos adotada pela FIFA ajuda, mas não neutraliza todos os riscos.
  • Não existe um limite universal aplicável a todas as modalidades e atletas.
  • Alteração do estado mental durante exercício no calor deve levantar suspeita de intermação por esforço.
  • Hidratação é necessária, mas não substitui resfriamento, aclimatação e decisão organizacional.
  • Eventos esportivos precisam estar preparados para resfriar o atleta imediatamente no local.

Aviso: este conteúdo tem finalidade educacional e não substitui avaliação clínica individualizada, protocolos locais, julgamento profissional ou consulta às diretrizes completas.

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Autor

  • Guilherme Alfonso Vieira Adami

    Dr. Guilherme Alfonso Vieira Adami
    CRM-SP 254738

    Sou médico residente em Medicina do Esporte e do Exercício pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação voltada para avaliação cardiovascular do atleta, fisiologia do exercício e medicina baseada em evidência aplicada ao esporte.

    Atuo profissionalmente com métodos gráficos de avaliação cardiovascular, realizando teste ergométrico, eletrocardiograma e monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) em serviços de diagnóstico como Grupo A+ e dr.consulta, além de atendimento em consultório privado.

    Também sou médico da Seleção Brasileira de Rugby em Cadeira de Rodas, acompanhando atletas paralímpicos em treinamentos e competições.

    Sou fundador da MedEsporte Papers, uma plataforma educacional dedicada à produção e divulgação de conteúdo científico em medicina do esporte, com foco na tradução da literatura científica para a prática clínica.

    Meu trabalho é voltado para análise crítica da literatura científica, educação médica e aplicação prática da ciência do exercício na medicina.

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