
Coração de atleta no ecocardiograma: quais medidas são normais? O ecocardiograma faz parte da rotina de avaliação cardiovascular de muitos atletas. É um exame acessível, não invasivo e capaz de oferecer informações importantes sobre estrutura e função cardíaca.
Mas, quando falamos de atletas, interpretar o eco exige cuidado.
Isso porque o treinamento físico regular pode modificar o coração de forma fisiológica. Algumas medidas que chamariam atenção em uma pessoa sedentária podem ser apenas expressão de adaptação ao exercício em quem treina há anos, com alto volume ou intensidade.
O ponto central não é olhar um número isolado. É entender se aquele achado combina com o perfil do atleta, com a modalidade praticada, com os sintomas, com o eletrocardiograma, com a história familiar e com o desempenho funcional.
Diferenciar remodelamento fisiológico de cardiopatias estruturais é uma das habilidades mais importantes na medicina do esporte e na cardiologia esportiva. Esse é um dos temas abordados no curso de Cardiologia do Esporte da MedEsporte Papers.
Por que o coração do atleta muda?
O coração responde ao treinamento da mesma forma que outros tecidos do corpo: adaptando-se à demanda imposta.
Exercícios predominantemente aeróbicos, como corrida de longa distância, ciclismo, natação e triathlon, costumam gerar maior sobrecarga de volume. Isso favorece aumento do retorno venoso, maior enchimento das câmaras cardíacas e, com o tempo, dilatação proporcional de algumas estruturas.
Já modalidades com maior componente resistido, como musculação, levantamento de peso e esportes de força, geram elevações transitórias da pressão arterial durante o esforço. Nesses casos, pode ocorrer discreto aumento da espessura das paredes ventriculares.
Na vida real, porém, poucos atletas se encaixam em apenas uma categoria. Um jogador de futebol, por exemplo, combina resistência, força, velocidade e potência. O mesmo acontece com muitos praticantes recreacionais que correm, fazem musculação e participam de provas de endurance.
Por isso, o chamado coração de atleta deve ser entendido como um espectro de adaptações, e não como um padrão único.
Quais alterações podem aparecer no coração de atleta no ecocardiograma?
As adaptações mais comuns observadas no ecocardiograma de atletas incluem:
- aumento do diâmetro diastólico do ventrículo esquerdo;
- aumento discreto da espessura do septo interventricular e da parede posterior;
- maior volume sistólico;
- dilatação do átrio esquerdo;
- aumento das dimensões do ventrículo direito;
- função sistólica global preservada.
Esses achados, quando proporcionais e acompanhados de boa capacidade funcional, geralmente sugerem remodelamento fisiológico.
O problema começa quando a alteração é desproporcional, vem acompanhada de sintomas ou aparece em um contexto clínico suspeito.
Ventrículo esquerdo: quais medidas podem ser normais no atleta?
Diâmetro diastólico do ventrículo esquerdo
Na população geral, os valores de referência aproximados para o diâmetro diastólico final do ventrículo esquerdo são:
- homens: cerca de 42 a 58 mm;
- mulheres: cerca de 38 a 52 mm.
Em atletas, especialmente os de endurance, esses valores podem ser maiores. Homens bem treinados podem apresentar diâmetros entre 55 e 60 mm sem que isso represente doença. Em atletas de elite, valores acima de 60 mm podem ser encontrados.
Ainda assim, quanto maior a dilatação, maior deve ser o cuidado na interpretação.
Valores acima de 65 mm merecem investigação mais detalhada, principalmente quando associados a:
- queda da função sistólica;
- sintomas como dispneia, síncope ou palpitações;
- arritmias;
- história familiar de cardiomiopatia ou morte súbita;
- alterações relevantes no eletrocardiograma;
- dilatação desproporcional em relação ao tamanho corporal e à modalidade esportiva.
Nesses casos, é preciso afastar condições como miocardiopatia dilatada, valvopatias, miocardite prévia e outras causas de remodelamento patológico.
Espessura da parede ventricular: até onde é adaptação?
A maioria dos atletas apresenta espessura septal dentro da faixa de normalidade ou apenas discretamente aumentada.
De forma geral, é comum encontrar:
- septo interventricular entre 9 e 12 mm;
- parede posterior com espessura semelhante ou discretamente menor.
Em homens altamente treinados, principalmente em modalidades com componente combinado de força e resistência, podem aparecer medidas de 13 mm. Ocasionalmente, alguns atletas chegam a 14 mm.
A partir daí, a interpretação exige mais cautela.
Espessuras iguais ou superiores a 15 mm não devem ser atribuídas automaticamente ao treinamento. Nessa situação, é necessário investigar diagnósticos como:
- miocardiopatia hipertrófica;
- hipertensão arterial;
- doenças infiltrativas;
- adaptação extrema ao exercício, em casos selecionados.
A faixa entre 13 e 15 mm é conhecida como uma “zona cinzenta”. Ela não fecha diagnóstico sozinha, mas também não deve ser ignorada.
Nessa zona, a avaliação costuma incluir:
- história familiar detalhada;
- análise criteriosa do eletrocardiograma;
- ressonância magnética cardíaca;
- teste cardiopulmonar;
- avaliação de arritmias;
- comparação com exames prévios;
- eventual período de destreinamento, quando indicado.
Fração de ejeção no atleta: o que considerar normal?
A fração de ejeção do ventrículo esquerdo geralmente permanece normal no atleta.
Em muitos casos, valores entre 50% e 70% são considerados adequados, desde que o restante da avaliação seja compatível com adaptação fisiológica.
Um ponto importante: alguns atletas de endurance apresentam fração de ejeção discretamente mais baixa em repouso, principalmente quando há aumento importante do volume ventricular. Isso não significa, necessariamente, disfunção miocárdica.
Em um atleta assintomático, com alta capacidade funcional, sem arritmias relevantes e com boa resposta contrátil ao esforço, uma fração de ejeção entre 50% e 55% pode ser apenas uma expressão do coração mais dilatado e eficiente em repouso.
Por outro lado, a queda progressiva da fração de ejeção, a presença de sintomas ou a ausência de reserva contrátil devem acender o alerta.
Átrio esquerdo aumentado é normal em atletas?
Pode ser.
O aumento do átrio esquerdo é relativamente frequente em atletas de resistência. Isso acontece porque o átrio participa da adaptação ao maior volume circulante e ao aumento do retorno venoso durante o treinamento crônico.
Na população geral, o volume atrial esquerdo indexado até cerca de 34 mL/m² costuma ser considerado dentro da normalidade.
Em atletas, valores acima desse limite podem ocorrer sem significado patológico, especialmente quando o aumento é proporcional às demais câmaras e não há sintomas.
No entanto, a dilatação atrial esquerda merece maior atenção quando aparece junto com:
- fibrilação atrial;
- palpitações frequentes;
- hipertensão arterial;
- disfunção diastólica;
- queda de performance;
- aumento desproporcional em relação ao restante do coração.
O raciocínio, mais uma vez, deve ser integrado.
E o ventrículo direito?
O ventrículo direito também se adapta ao treinamento, principalmente nos esportes de endurance.
Corredores de longa distância, ciclistas, nadadores, remadores e triatletas podem apresentar aumento das dimensões do ventrículo direito. Em geral, esse aumento acompanha a dilatação do ventrículo esquerdo e ocorre com função sistólica preservada.
A dificuldade está em diferenciar essa adaptação fisiológica de doenças como a cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito.
Alguns elementos ajudam nessa distinção:
- proporcionalidade entre ventrículo direito e esquerdo;
- função ventricular direita preservada;
- ausência de arritmias ventriculares complexas;
- ausência de sintomas;
- ausência de história familiar sugestiva;
- achados compatíveis na ressonância cardíaca, quando solicitada.
Quando há dilatação importante do ventrículo direito associada a arritmias, síncope, alteração segmentar da contratilidade ou história familiar de morte súbita, a investigação deve ser aprofundada.
Quando o coração de atleta no ecocardiograma deixa de parecer fisiológico?
Alguns achados não devem ser tratados como “normais do atleta” sem investigação.

Nessas situações, o diagnóstico de coração de atleta deve ser feito com prudência. O treinamento pode explicar muitos achados, mas não deve ser usado para justificar tudo.
Erros comuns na interpretação do ecocardiograma do atleta
1. Usar os mesmos valores de referência da população sedentária
Esse é um erro frequente. Atletas treinados podem apresentar câmaras maiores e paredes discretamente mais espessas sem que isso represente doença.
O risco é transformar adaptação fisiológica em diagnóstico patológico.
2. Diagnosticar miocardiopatia apenas pela espessura da parede
A espessura ventricular isolada tem baixa especificidade.
Um septo de 13 mm em um homem alto, remador, assintomático, com eletrocardiograma compatível e excelente capacidade funcional não tem o mesmo significado que a mesma medida em um jovem sedentário com história familiar de morte súbita.
3. Ignorar a modalidade esportiva
O tipo de esporte muda a interpretação.
Maratonistas, ciclistas, remadores e triatletas tendem a apresentar remodelamento mais intenso. Atletas de força podem ter padrões diferentes. Esportes mistos geram respostas intermediárias.
Sem conhecer a carga de treino, o volume semanal e o histórico esportivo, a leitura do ecocardiograma fica incompleta.
4. Desconsiderar sexo, idade e superfície corporal
Homens, indivíduos maiores e atletas com maior superfície corporal tendem a ter dimensões cardíacas mais elevadas.
Mulheres atletas também apresentam adaptações, mas geralmente com medidas absolutas menores. Por isso, sempre que possível, a análise deve considerar valores indexados e não apenas números absolutos.
Medidas normais não excluem doença
Este ponto é fundamental.
Um ecocardiograma dentro dos limites esperados não exclui todas as doenças cardiovasculares relevantes no atleta. Algumas condições podem ter expressão discreta ou até exame normal em fases iniciais.
Por isso, o eco deve ser interpretado junto com:
- história clínica;
- sintomas durante o exercício;
- antecedentes familiares;
- exame físico;
- eletrocardiograma;
- teste ergométrico ou cardiopulmonar, quando indicado;
- Holter, ressonância cardíaca ou outros exames complementares em casos selecionados.
A avaliação cardiovascular do atleta não deve depender de um único exame.
Interpretar o ecocardiograma do atleta exige mais do que decorar medidas. É preciso integrar imagem, fisiologia do exercício, eletrocardiografia, sintomas e estratificação de risco.
O curso de Cardiologia do Esporte da MedEsporte Papers aprofunda esse raciocínio com aplicação prática e discussão de casos clínicos.
Limitações dos valores de referência
As medidas usadas na prática clínica vêm, em grande parte, de estudos observacionais. Isso significa que os valores ajudam muito, mas não devem ser usados de forma rígida.
Há variações importantes relacionadas a:
- sexo;
- idade;
- etnia;
- superfície corporal;
- modalidade esportiva;
- volume de treinamento;
- nível competitivo;
- tempo de prática esportiva.
Além disso, muitos estudos foram feitos com atletas de elite. Nem sempre esses dados podem ser aplicados diretamente a atletas recreacionais ou pessoas que treinam poucas vezes por semana.
Por isso, a pergunta mais importante não é apenas: “essa medida está aumentada?”.
A pergunta correta é: “esse achado faz sentido para este atleta?”.
Resumo prático
- O coração de atleta é uma adaptação fisiológica ao treinamento.
- O ventrículo esquerdo pode ser maior em atletas de endurance.
- A espessura septal até 12 mm é comum em atletas.
- Medidas entre 13 e 15 mm exigem avaliação individualizada.
- Espessuras iguais ou superiores a 15 mm merecem investigação.
- A fração de ejeção geralmente permanece normal.
- Fração de ejeção entre 50% e 55% pode ser fisiológica em alguns atletas de endurance.
- Átrio esquerdo e ventrículo direito também podem aumentar.
- Nenhuma medida deve ser interpretada isoladamente.
- Sintomas, história familiar e arritmias mudam completamente o raciocínio.
Conclusão
O ecocardiograma é uma ferramenta valiosa na avaliação cardiovascular do atleta, mas sua interpretação precisa respeitar a fisiologia do exercício.
Medidas que parecem alteradas em indivíduos sedentários podem ser esperadas em atletas treinados. Ao mesmo tempo, alterações aparentemente discretas podem representar sinais iniciais de cardiopatias relevantes.
O desafio do médico é reconhecer onde termina a adaptação e onde começa a doença.
Essa distinção exige conhecimento técnico, experiência clínica e análise integrada dos dados. Para aprofundar esse raciocínio e aplicar esses conceitos na prática, conheça o curso de Cardiologia do Esporte da MedEsporte Papers.
Referências
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Autor
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Médica do Esporte formada pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 2007, com especialização em Nutrologia pela ABRAN e título de especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela SBMEE.
Atua na avaliação, acompanhamento e cuidado de atletas e praticantes de atividade física, com experiência em maratonas e eventos esportivos. É sócia da clínica IEMEX Performance, em Curitiba, e também realiza atendimentos em consultório particular na Clinica CMI em Mafra/SC.
Sua prática integra medicina do esporte, nutrologia e promoção da saúde, com foco em performance, prevenção de lesões, qualidade de vida e longevidade ativa.