Anabolizantes e pressão alta: manejo inicial do paciente no consultório

Anabolizantes e pressão alta

A hipertensão arterial é uma das alterações cardiovasculares mais frequentemente encontradas em usuários de esteroides anabolizantes androgênicos (EAA). A associação entre anabolizantes e pressão alta está cada vez mais bem documentada na literatura científica e representa um importante marcador de risco cardiovascular. Embora muitos profissionais concentrem sua atenção nos efeitos hormonais dessas substâncias, a elevação da pressão arterial costuma representar apenas a ponta do iceberg de um processo muito mais complexo, que envolve remodelamento vascular, disfunção endotelial, hipertrofia cardíaca e aumento progressivo do risco cardiovascular.

Nos últimos anos, o uso de anabolizantes deixou de ser uma realidade restrita ao fisiculturismo profissional e passou a fazer parte da rotina de academias, esportes recreativos e até de pacientes que buscam melhora estética. Como consequência, cresce também o número de indivíduos jovens, aparentemente saudáveis e sem fatores de risco tradicionais, que chegam ao consultório apresentando pressão arterial elevada durante ou após ciclos de esteroides. Diante desse cenário, compreender a relação entre anabolizantes e pressão alta tornou-se uma necessidade para médicos que atuam na prática clínica, especialmente na Medicina do Esporte e na Cardiologia.

Esse cenário exige que o médico vá além do simples diagnóstico de hipertensão. É necessário compreender os mecanismos fisiopatológicos envolvidos, identificar possíveis lesões de órgãos-alvo e reconhecer quando a hipertensão representa apenas uma manifestação inicial de complicações cardiovasculares mais graves.

Dominar a abordagem de pacientes com anabolizantes e pressão alta faz parte da prática moderna da Medicina do Esporte. No Curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Precisa Saber, o autor aprofunda justamente esse raciocínio clínico, mostrando como interpretar alterações cardiovasculares, hormonais e metabólicas relacionadas ao uso de recursos ergogênicos, sempre com base em evidências científicas.


A relação entre anabolizantes e pressão alta é realmente comprovada?

Sim.

Durante muitos anos, acreditava-se que a elevação da pressão arterial observada em usuários de esteroides anabolizantes era consequência apenas do aumento da massa corporal ou da retenção hídrica. Hoje, entretanto, essa hipótese já foi amplamente superada.

Diversos estudos clínicos e revisões sistemáticas demonstram que a associação entre anabolizantes e pressão alta é sustentada por mecanismos fisiopatológicos bem estabelecidos, envolvendo alterações vasculares, neuro-hormonais, renais e inflamatórias.

Uma revisão sistemática publicada em Substance Use & Misuse em 2025 mostrou que usuários de esteroides apresentam maior prevalência de hipertensão arterial, hipertrofia ventricular esquerda, disfunção diastólica e alterações da função vascular quando comparados a indivíduos não usuários. Esses achados reforçam que a relação entre anabolizantes e pressão alta vai muito além de uma alteração transitória da pressão arterial, refletindo um processo de comprometimento cardiovascular progressivo.

Mais recentemente, uma revisão publicada no Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology reforçou que a hipertensão induzida pelos esteroides representa apenas uma das diversas manifestações cardiovasculares associadas às doses suprafisiológicas desses compostos.

Na prática clínica, portanto, a elevação da pressão arterial deve ser encarada como um possível marcador precoce de lesão cardiovascular, e não apenas como uma alteração isolada dos sinais vitais. Compreender essa relação entre anabolizantes e pressão alta permite ao médico identificar pacientes com maior risco de remodelamento cardíaco e outras complicações cardiovasculares antes mesmo do surgimento de sintomas.

Essa visão é importante porque muitos dos pacientes que desenvolvem hipertensão também apresentam outras alterações cardiovasculares silenciosas. Em outro conteúdo da MedEsporte Papers, mostramos como esse processo pode evoluir para insuficiência cardíaca relacionada ao uso de esteroides anabolizantes, evidenciando que o aumento da pressão arterial frequentemente faz parte de um espectro muito mais amplo de remodelamento cardíaco.


Por que anabolizantes causam pressão alta?

Não existe um único mecanismo responsável pela hipertensão nesses pacientes.

Na realidade, a relação entre anabolizantes e pressão alta decorre da interação de diferentes sistemas fisiológicos, que passam a atuar simultaneamente após a exposição prolongada às doses suprafisiológicas de androgênios.

Entre os principais mecanismos destacam-se:

  • disfunção endotelial;
  • ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona;
  • aumento da atividade simpática;
  • retenção de sódio;
  • aumento da rigidez arterial;
  • remodelamento vascular;
  • aumento da viscosidade sanguínea secundária à eritrocitose.

O resultado final é um aumento sustentado da resistência vascular periférica e, consequentemente, da pressão arterial.

Disfunção endotelial: o primeiro passo para a hipertensão

O endotélio exerce papel fundamental na manutenção do tônus vascular.

Em condições fisiológicas, ele produz substâncias vasodilatadoras, como o óxido nítrico (NO), além de modular processos inflamatórios, trombóticos e oxidativos.

Entretanto, a exposição aos esteroides anabolizantes promove redução da biodisponibilidade de óxido nítrico, aumento da produção de espécies reativas de oxigênio e maior estresse oxidativo. Esse conjunto de alterações representa um dos principais mecanismos fisiopatológicos que explicam a associação entre anabolizantes e pressão alta.

Como consequência, ocorre perda da capacidade vasodilatadora, aumento da resistência vascular periférica e redução da capacidade de adaptação do leito arterial às variações hemodinâmicas.

Essa alteração pode surgir antes mesmo do aparecimento da hipertensão sustentada, funcionando como um dos primeiros marcadores de comprometimento cardiovascular. Por esse motivo, compreender a relação entre anabolizantes e pressão alta é fundamental para reconhecer precocemente pacientes com maior risco de remodelamento vascular e eventos cardiovasculares futuros.

A agressão ao endotélio também ajuda a explicar por que alguns usuários desenvolvem alterações da microcirculação coronariana mesmo na ausência de doença arterial coronariana obstrutiva. Esse tema é aprofundado no artigo da MedEsporte Papers sobre disfunção microvascular coronariana associada aos esteroides anabolizantes, demonstrando que as alterações vasculares vão muito além da simples elevação da pressão arterial, e no Curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Precisa Saber

Comparação entre endotélio normal e endotélio com disfunção causada pelo uso de esteroides anabolizantes, destacando redução do óxido nítrico, aumento do estresse oxidativo, vasoconstrição e maior risco de hipertensão arterial e doença cardiovascular.

Ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona

Outro mecanismo importante envolve a regulação do volume intravascular, um dos fatores que contribuem para a associação entre anabolizantes e pressão alta.

Os esteroides anabolizantes favorecem a retenção de sódio e água, aumentando o volume circulante e a pré-carga cardíaca.

Além disso, evidências experimentais sugerem aumento da atividade do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), potencializando a vasoconstrição, a retenção hidrossalina e o remodelamento vascular.

Embora esse mecanismo varie conforme o tipo de composto utilizado, a dose empregada e o tempo de exposição, ele ajuda a explicar por que alguns pacientes apresentam elevação significativa da pressão arterial mesmo após poucas semanas de uso.

Aumento da atividade simpática

Os efeitos cardiovasculares dos esteroides anabolizantes também envolvem alterações autonômicas.

Estudos demonstram aumento da atividade simpática e redução do controle parassimpático, favorecendo:

  • elevação da frequência cardíaca;
  • aumento da contratilidade miocárdica;
  • maior vasoconstrição periférica;
  • redução da variabilidade da frequência cardíaca.

Na prática, esse efeito pode ser ainda mais intenso porque muitos usuários associam os esteroides a estimulantes, como cafeína em altas doses, pré-treinos concentrados, efedrina ou clenbuterol.

Essa combinação aumenta significativamente a sobrecarga cardiovascular e deve sempre ser investigada durante a anamnese, pois potencializa os mecanismos envolvidos na relação entre anabolizantes e pressão alta, aumentando o risco de hipertensão sustentada e de outras complicações cardiovasculares.


Remodelamento vascular e aumento da rigidez arterial

A exposição crônica aos esteroides promove alterações estruturais nas artérias, contribuindo para o desenvolvimento de anabolizantes e pressão alta ao comprometer a função vascular de forma progressiva.

Entre as principais alterações destacam-se:

  • aumento da espessura médio-intimal;
  • redução da complacência arterial;
  • aumento da rigidez vascular;
  • maior deposição de colágeno;
  • remodelamento da parede arterial.

Essas alterações ajudam a explicar por que alguns pacientes permanecem hipertensos mesmo após interromperem o uso dos esteroides, sugerindo que parte do dano vascular pode persistir mesmo após a suspensão da exposição.

Além disso, a rigidez arterial elevada representa um fator de risco independente para eventos cardiovasculares futuros, como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca.

É justamente por isso que a associação entre anabolizantes e pressão alta não deve ser interpretada como uma alteração transitória sem importância clínica. Em muitos casos, ela representa um sinal precoce de remodelamento vascular e aumento do risco cardiovascular, exigindo investigação e acompanhamento adequados.

Compreender esses mecanismos permite que o médico deixe de enxergar apenas o valor da pressão arterial e passe a interpretar todo o contexto fisiopatológico do paciente. Esse tipo de raciocínio clínico, integrando cardiologia, endocrinologia e medicina do exercício, é desenvolvido de forma aprofundada no Curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Precisa Saber.


O que dizem os estudos sobre anabolizantes e pressão alta?

Nos últimos anos, a literatura passou a demonstrar que a associação entre anabolizantes e pressão alta faz parte de um cenário cardiovascular muito mais amplo.

Além do aumento da pressão arterial, diversos estudos documentaram maior prevalência de:

  • hipertrofia ventricular esquerda;
  • disfunção diastólica;
  • fibrose miocárdica;
  • redução da função sistólica em usuários crônicos;
  • aterosclerose precoce;
  • maior incidência de eventos cardiovasculares.

Uma revisão publicada em Clinical Cardiology em 2026 reforçou que homens jovens usuários de androgênios apresentam risco aumentado de doença cardiovascular aterosclerótica, mesmo na ausência de fatores de risco clássicos.

Esse conjunto de evidências vai ao encontro de estudos publicados em periódicos como o JAMA Cardiology e o European Heart Journal, que demonstram que o uso recreativo de esteroides pode acelerar processos de remodelamento cardíaco e vascular muito antes do aparecimento de sintomas. Em outras palavras, a relação entre anabolizantes e pressão alta deve ser interpretada como parte de um processo de lesão cardiovascular progressiva, e não apenas como uma alteração isolada da pressão arterial.


A primeira consulta começa muito antes da aferição da pressão

Um dos maiores erros no atendimento desses pacientes é iniciar a consulta pensando apenas nos valores da pressão arterial.

Antes de confirmar o diagnóstico de hipertensão, é fundamental compreender todo o contexto de uso dos esteroides anabolizantes. Nos casos de anabolizantes e pressão alta, a avaliação clínica deve ir além da aferição dos níveis pressóricos, buscando identificar fatores que contribuam para o aumento do risco cardiovascular.

Muitos pacientes não relatam espontaneamente o uso dessas substâncias por receio de julgamento ou medo de que o atendimento se transforme em uma tentativa de convencê-los a interromper o ciclo.

Uma postura acolhedora, técnica e baseada em evidências costuma aumentar significativamente a adesão e a qualidade das informações obtidas, permitindo ao médico compreender com maior precisão o padrão de uso, as substâncias envolvidas e os possíveis fatores agravantes.

Na próxima etapa do atendimento, a anamnese detalhada permitirá identificar não apenas quais compostos estão sendo utilizados, mas também fatores que aumentam substancialmente o risco cardiovascular, orientando a investigação complementar e o manejo inicial do paciente.


Como conduzir a anamnese do paciente?

Depois de confirmar que existe suspeita da associação entre anabolizantes e pressão alta, o próximo passo é compreender o contexto completo do uso dessas substâncias.

Limitar a investigação à pergunta “você usa testosterona?” é insuficiente. Muitos pacientes utilizam protocolos complexos, conhecidos como stacks, que combinam diferentes esteroides, estimulantes e outras drogas ergogênicas capazes de potencializar os efeitos cardiovasculares.

Durante a consulta, procure explorar questões como:

  • Quais esteroides estão sendo utilizados?
  • Há quanto tempo ocorre o uso?
  • Qual a dose semanal aproximada?
  • O paciente realiza ciclos ou utiliza a estratégia de blast and cruise?
  • Existe associação com hormônio do crescimento, insulina, hormônios tireoidianos ou peptídeos?
  • Há consumo frequente de estimulantes, pré-treinos, efedrina, clenbuterol ou grandes quantidades de cafeína?
  • O paciente já apresentou episódios prévios de hipertensão?
  • Existe histórico familiar de hipertensão arterial precoce, infarto, AVC ou morte súbita?

Essas informações ajudam a entender se a elevação da pressão arterial está relacionada predominantemente ao uso dos esteroides ou se coexistem outros fatores que aumentam ainda mais o risco cardiovascular.

Além disso, vale investigar sintomas que podem indicar comprometimento cardíaco já estabelecido, como:

  • cefaleia persistente;
  • palpitações;
  • dispneia aos esforços;
  • dor torácica;
  • redução da capacidade funcional;
  • tonturas;
  • síncope;
  • edema de membros inferiores.

Em muitos casos, esses sintomas representam o primeiro indício de que a hipertensão já produziu repercussões estruturais no sistema cardiovascular.


O exame físico vai muito além da aferição da pressão

Embora a confirmação dos níveis pressóricos seja indispensável, o exame físico deve ser interpretado como parte da estratificação global do risco cardiovascular, especialmente em pacientes com suspeita da associação entre anabolizantes e pressão alta.

Sempre que possível, realize:

  • aferição correta da pressão arterial em ambos os braços;
  • medidas seriadas durante a consulta;
  • frequência cardíaca;
  • índice de massa corporal;
  • circunferência abdominal;
  • pesquisa de edema periférico;
  • ausculta cardíaca;
  • ausculta pulmonar;
  • palpação dos pulsos periféricos.

Quando houver dúvida diagnóstica, a confirmação por meio da Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) ou da Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA) segue sendo recomendada pela Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, contribuindo para um diagnóstico mais preciso e para a adequada estratificação do risco cardiovascular.

Essa etapa evita tanto o superdiagnóstico quanto a subestimação da hipertensão, especialmente em pacientes jovens e fisicamente ativos, permitindo diferenciar alterações transitórias de quadros que realmente necessitam de investigação e acompanhamento.


Quais exames solicitar na primeira avaliação?

Uma das maiores dificuldades no manejo de pacientes com anabolizantes e pressão alta é decidir até onde investigar.

Como regra geral, além da confirmação da hipertensão, o objetivo é identificar precocemente lesão de órgãos-alvo e fatores que possam agravar o risco cardiovascular.

Os exames laboratoriais iniciais costumam incluir:

  • hemograma completo;
  • creatinina e estimativa da taxa de filtração glomerular (TFG);
  • ureia;
  • sódio e potássio;
  • glicemia e hemoglobina glicada;
  • perfil lipídico;
  • TGO, TGP e GGT;
  • urina tipo I;
  • relação albumina/creatinina urinária, quando indicada.

Nos usuários de esteroides anabolizantes, o hemograma merece atenção especial.

A eritrocitose induzida pelos androgênios aumenta a viscosidade sanguínea e pode contribuir para maior resistência vascular, trombose e pior controle pressórico, agravando ainda mais o cenário de anabolizantes e pressão alta.

Dependendo da história clínica, também pode ser útil avaliar:

  • testosterona total;
  • LH;
  • FSH;
  • estradiol;
  • prolactina;
  • TSH;
  • T4 livre.

Esses exames auxiliam principalmente quando existe perspectiva de suspensão dos esteroides ou investigação da recuperação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal.

Do ponto de vista cardiovascular, geralmente são indicados:

  • eletrocardiograma;
  • ecocardiograma;
  • MAPA ou MRPA.

Pacientes com uso prolongado de EAA podem apresentar hipertrofia ventricular esquerda, alterações da função diastólica e remodelamento miocárdico, mesmo quando assintomáticos. Esse cenário reforça a importância de uma avaliação cardiovascular completa. Inclusive, ao discutir a insuficiência cardíaca relacionada aos esteroides anabolizantes, mostramos que essas alterações estruturais podem preceder em anos o aparecimento dos primeiros sintomas clínicos.

A interpretação integrada desses exames é um diferencial importante na prática clínica. Mais do que identificar uma pressão elevada, o médico precisa reconhecer quais alterações representam maior risco para aquele paciente e como elas influenciam a conduta. Esse é um dos pilares abordados no Curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Precisa Saber.


Como tratar pacientes com anabolizantes e pressão alta?

Receber um paciente usuário de esteroides com pressão arterial elevada não significa, obrigatoriamente, iniciar uma medicação logo na primeira consulta. No manejo de anabolizantes e pressão alta, o tratamento deve ser direcionado não apenas ao controle dos níveis pressóricos, mas também à identificação e correção dos fatores que contribuíram para o seu desenvolvimento.

O primeiro passo é identificar se existe uma causa potencialmente reversível.

Nesse contexto, a suspensão ou redução do uso dos esteroides deve fazer parte da conversa.

Naturalmente, essa abordagem exige empatia e comunicação adequada. Muitos pacientes utilizam essas substâncias há anos e dificilmente interromperão o uso apenas porque receberam essa orientação.

Explicar os mecanismos fisiopatológicos costuma ser muito mais eficaz do que simplesmente contraindicar o uso, permitindo que o paciente compreenda por que a associação entre anabolizantes e pressão alta representa um fator de risco para complicações cardiovasculares de curto e longo prazo.

Além disso, intervenções sobre o estilo de vida continuam sendo fundamentais:

  • redução da ingestão de sódio;
  • controle do peso corporal;
  • melhora da qualidade do sono;
  • investigação de apneia obstrutiva do sono;
  • redução do consumo de álcool;
  • suspensão de estimulantes desnecessários.

A atividade física também continua desempenhando papel importante no controle da hipertensão. Entretanto, intensidade, volume e modalidade devem ser individualizados, especialmente em pacientes com alterações cardiovasculares já estabelecidas. Esse assunto foi discutido em maior profundidade quando abordamos a dose ideal de exercício aeróbico para pacientes hipertensos, destacando como o treinamento pode ser utilizado como ferramenta terapêutica.

Caso a pressão arterial permaneça elevada, ou o paciente apresente lesão de órgão-alvo, hipertensão estágio 2 ou alto risco cardiovascular, o tratamento farmacológico deve seguir as recomendações da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial.

Até o momento, não existem diretrizes específicas para o manejo de pacientes com anabolizantes e pressão alta. Portanto, a escolha do anti-hipertensivo deve seguir os mesmos princípios utilizados para a população geral, sempre considerando as particularidades clínicas, o padrão de uso dos esteroides e o risco cardiovascular individual de cada paciente..


Erros que comprometem o manejo

Alguns equívocos continuam sendo frequentes na prática clínica ao conduzir pacientes com anabolizantes e pressão alta.

O primeiro deles é acreditar que controlar a pressão arterial resolve todo o problema.

Na realidade, a hipertensão representa apenas uma das manifestações do impacto sistêmico provocado pelos esteroides anabolizantes. Limitar a abordagem ao tratamento dos níveis pressóricos significa deixar de investigar alterações cardiovasculares potencialmente mais graves.

Outro erro comum é ignorar o uso concomitante de outras substâncias.

Pré-treinos concentrados, anfetaminas, hormônios tireoidianos, cafeína em altas doses e clenbuterol frequentemente amplificam a resposta hipertensiva e aumentam ainda mais a sobrecarga cardiovascular.

Também merece atenção a tendência de subestimar o risco cardiovascular em indivíduos jovens. A ausência de idade avançada ou de fatores de risco clássicos não exclui a possibilidade de lesão cardíaca ou vascular significativa.

Os estudos mais recentes mostram que usuários crônicos de esteroides apresentam maior incidência de hipertrofia ventricular, disfunção cardíaca, aterosclerose precoce e eventos cardiovasculares, mesmo antes dos 40 anos. Essa discussão é aprofundada na análise do estudo publicado no JAMA sobre o risco cardiovascular dos esteroides anabolizantes, reforçando que a associação entre anabolizantes e pressão alta deve sempre ser interpretada dentro de um contexto mais amplo de risco cardiovascular, e não como uma alteração isolada da pressão arterial.


Como agir no consultório? Um roteiro prático

Ao atender um paciente jovem com hipertensão e suspeita de uso de esteroides anabolizantes, uma abordagem estruturada reduz o risco de omissões. Nos casos de anabolizantes e pressão alta, o raciocínio clínico deve ir além da simples confirmação dos níveis pressóricos, buscando identificar fatores que contribuam para o aumento do risco cardiovascular.

Pergunte sobre todas as substâncias utilizadas, confirme corretamente a pressão arterial, investigue sinais de lesão de órgãos-alvo e solicite exames direcionados ao contexto clínico.

Na sequência, estratifique o risco cardiovascular, oriente mudanças no estilo de vida, discuta de forma transparente os riscos do uso contínuo dos esteroides e avalie a necessidade de iniciar tratamento anti-hipertensivo conforme as diretrizes vigentes.

Mais importante do que tratar um número é compreender todo o cenário fisiopatológico que levou aquele paciente à hipertensão.

Essa mudança de perspectiva permite intervenções muito mais eficazes e reduz significativamente o risco de complicações futuras. Em pacientes com anabolizantes e pressão alta, essa abordagem abrangente aumenta a chance de identificar precocemente lesões cardiovasculares e contribui para um manejo mais seguro e baseado em evidências.Ao atender um paciente jovem com hipertensão e suspeita de uso de esteroides anabolizantes, uma abordagem estruturada reduz o risco de omissões. Nos casos de anabolizantes e pressão alta, o raciocínio clínico deve ir além da simples confirmação dos níveis pressóricos, buscando identificar fatores que contribuam para o aumento do risco cardiovascular.

Pergunte sobre todas as substâncias utilizadas, confirme corretamente a pressão arterial, investigue sinais de lesão de órgãos-alvo e solicite exames direcionados ao contexto clínico.

Na sequência, estratifique o risco cardiovascular, oriente mudanças no estilo de vida, discuta de forma transparente os riscos do uso contínuo dos esteroides e avalie a necessidade de iniciar tratamento anti-hipertensivo conforme as diretrizes vigentes.

Mais importante do que tratar um número é compreender todo o cenário fisiopatológico que levou aquele paciente à hipertensão.

Essa mudança de perspectiva permite intervenções muito mais eficazes e reduz significativamente o risco de complicações futuras. Em pacientes com anabolizantes e pressão alta, essa abordagem abrangente aumenta a chance de identificar precocemente lesões cardiovasculares e contribui para um manejo mais seguro e baseado em evidências.


Conclusão

A associação entre anabolizantes e pressão alta está amplamente documentada na literatura científica e deve ser reconhecida como uma condição de elevado impacto cardiovascular.

Embora a hipertensão seja frequentemente o primeiro achado clínico, ela raramente ocorre de forma isolada. Disfunção endotelial, remodelamento vascular, hipertrofia ventricular, aterosclerose precoce e insuficiência cardíaca fazem parte do mesmo processo fisiopatológico desencadeado pelo uso prolongado de doses suprafisiológicas de esteroides anabolizantes.

Para o médico, isso significa que o manejo de pacientes com anabolizantes e pressão alta não deve se limitar à escolha de um anti-hipertensivo. A avaliação precisa ser abrangente, baseada em evidências e direcionada à identificação precoce de lesões de órgãos-alvo, fatores agravantes e outras complicações cardiovasculares que podem acompanhar o uso dessas substâncias.

À medida que cresce o número de pacientes utilizando recursos ergogênicos, dominar esse raciocínio deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade da prática clínica.

Pacientes fisicamente ativos exigem uma abordagem diferente daquela encontrada nos livros tradicionais de clínica médica. Entender como os recursos ergogênicos interferem na fisiologia cardiovascular, interpretar exames de forma crítica e reconhecer precocemente as complicações associadas aos esteroides anabolizantes são habilidades cada vez mais importantes para quem atua na Medicina do Esporte. Diante desse cenário, compreender a relação entre anabolizantes e pressão alta permite oferecer um atendimento mais seguro, individualizado e alinhado às melhores evidências científicas disponíveis.

Se você deseja incorporar esse raciocínio à sua prática diária, conheça o Curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Precisa Saber.


Perguntas Frequentes

Anabolizantes podem causar pressão alta?

Sim. Estudos demonstram que os esteroides anabolizantes podem aumentar a pressão arterial por diferentes mecanismos, incluindo retenção de sódio, disfunção endotelial, aumento da atividade simpática e remodelamento vascular.

A pressão alta desaparece quando o paciente para de usar anabolizantes?

Depende. Em alguns pacientes a pressão arterial retorna aos níveis normais após a suspensão dos esteroides. Entretanto, usuários de longa duração podem apresentar alterações vasculares permanentes e permanecer hipertensos.

Qual exame deve ser solicitado inicialmente?

Além da aferição correta da pressão arterial, podem ser indicados hemograma, função renal, perfil lipídico, eletrocardiograma, ecocardiograma e MAPA ou MRPA conforme a avaliação clínica.

Todo usuário de anabolizante desenvolve hipertensão?

Não. O risco depende do tipo de esteroide, da dose utilizada, do tempo de exposição, da predisposição genética e da associação com outras substâncias ergogênicas.


Referências

BARROSO, W. K. S. et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 116, n. 3, p. 516–658, 2021. Disponível em: https://abccardiol.org/article/diretrizes-brasileiras-de-hipertensao-arterial-2020/. Acesso em: 13 jul. 2026.

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Autor

  • Lívia Mota Freitas

    Acadêmica de Medicina da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública
    Pesquisadora na área de Diabetes e Metabolismo
    Ex-atleta de natação e apaixonada por esportes
    Instagram: livimedaily

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