
Bradicardia em atleta é normal? Nem todo batimento lento é sinal de problema. Em quem treina com regularidade, especialmente em modalidades de endurance, uma frequência cardíaca de repouso abaixo de 60 bpm pode ser apenas uma resposta esperada do organismo ao exercício.
Ainda assim, essa é uma dúvida muito comum no consultório. O atleta chega preocupado porque o relógio marcou 48 bpm durante a noite. A família se assusta. Às vezes, o próprio profissional de saúde solicita uma bateria de exames antes mesmo de entender o contexto.
A pergunta, portanto, não deve ser apenas: “qual é a frequência cardíaca?”. A pergunta mais importante é: esse atleta tem sintomas? A frequência aumenta adequadamente durante o esforço? Existe alguma alteração no eletrocardiograma ou na estrutura cardíaca?
É essa leitura integrada que diferencia uma adaptação fisiológica do chamado “coração de atleta” de uma condição que precisa ser investigada.
Esse raciocínio faz parte da prática diária da medicina esportiva e da cardiologia aplicada ao exercício, sendo um dos temas centrais do curso de Cardiologia do Esporte da MedEsporte Papers.
O que é bradicardia?
Bradicardia é definida como frequência cardíaca abaixo de 60 batimentos por minuto em repouso.
Na população geral, esse achado pode estar associado a diferentes condições clínicas, como:
- doença do nó sinusal;
- bloqueios atrioventriculares;
- hipotireoidismo;
- uso de betabloqueadores ou outros medicamentos que reduzem a frequência cardíaca;
- distúrbios eletrolíticos;
- doenças infiltrativas ou inflamatórias do coração.
No atleta, porém, a interpretação é diferente. Uma frequência cardíaca mais baixa pode ser consequência direta do treinamento, principalmente quando o indivíduo é assintomático e apresenta boa resposta ao exercício.
Em outras palavras: o mesmo número que causa preocupação em um paciente sedentário pode ser completamente esperado em um corredor, ciclista, nadador ou triatleta bem treinado.
Por que atletas têm frequência cardíaca baixa?
O coração treinado trabalha de forma mais eficiente.
Com o treinamento regular, especialmente o aeróbico, ocorre aumento do tônus vagal e redução da atividade simpática em repouso. Isso significa que o organismo passa a operar em um estado de maior economia cardiovascular quando o atleta está descansando.
Além disso, o treinamento pode levar a:
- aumento do volume sistólico;
- melhora da função diastólica;
- maior eficiência mecânica do coração;
- adaptações do nó sinusal;
- remodelamento cardíaco fisiológico.
O resultado é simples: se o coração consegue ejetar mais sangue a cada batimento, ele não precisa bater tantas vezes para manter o débito cardíaco adequado em repouso.
Por isso, atletas de endurance frequentemente apresentam frequências entre 40 e 50 bpm. Em indivíduos muito treinados, valores ainda menores podem ocorrer, principalmente durante o sono.
O que é o coração de atleta?
O termo “coração de atleta” descreve um conjunto de adaptações estruturais, elétricas e funcionais provocadas pelo treinamento físico prolongado.
Essas adaptações podem incluir:
- aumento discreto ou moderado das cavidades cardíacas;
- aumento da massa ventricular;
- melhora da função diastólica;
- maior volume sistólico;
- bradicardia sinusal;
- algumas alterações eletrocardiográficas relacionadas ao treinamento.
O ponto principal é que essas mudanças são, na maioria das vezes, fisiológicas. Elas refletem a capacidade do coração de se adaptar à demanda imposta pelo exercício.
O desafio clínico está justamente em reconhecer quando essas adaptações permanecem dentro do esperado e quando podem se confundir com doenças cardíacas.
Para aprofundar esse raciocínio, também vale relacionar este tema com outros conteúdos da cardiologia do esporte, como:
- coração de atleta ou doença cardíaca;
- extrassístoles ventriculares no atleta;
- síncope em atletas;
- avaliação pré-participação esportiva;
- teste ergométrico normal libera o atleta?
Quando a bradicardia em atleta é normal?
A bradicardia tende a ser considerada fisiológica quando aparece em um contexto coerente com treinamento.
Na prática, alguns elementos ajudam nessa interpretação:
- o atleta não apresenta sintomas;
- existe histórico consistente de treinamento;
- a frequência cardíaca aumenta adequadamente durante o exercício;
- não há história familiar sugestiva de morte súbita ou doença cardíaca hereditária;
- o exame físico não sugere doença cardiovascular;
- o eletrocardiograma mostra achados compatíveis com adaptação ao treinamento;
- não há alterações estruturais relevantes no coração.
Nessas condições, uma frequência cardíaca de repouso entre 40 e 60 bpm costuma ser um achado comum, especialmente em atletas de endurance.
Durante o sono, valores abaixo de 40 bpm também podem ocorrer, principalmente em atletas muito treinados.
O que não deve acontecer é interpretar o número de forma isolada. Bradicardia, por si só, não define doença. O contexto clínico é o que dá significado ao achado.
Quando a bradicardia merece investigação?
A bradicardia deixa de ser apenas um achado benigno quando vem acompanhada de sinais de alerta.
Alguns pontos exigem atenção:
- síncope ou pré-síncope;
- tonturas recorrentes;
- fadiga desproporcional;
- intolerância ao exercício;
- queda importante de desempenho sem explicação;
- palpitações associadas a mal-estar;
- dor torácica;
- falta de ar desproporcional;
- história familiar de morte súbita;
- pausas sinusais prolongadas;
- bloqueios atrioventriculares avançados;
- incompetência cronotrópica.
A presença de sintomas muda completamente a interpretação. Um atleta com 45 bpm em repouso, assintomático e com excelente resposta ao esforço, é uma situação. Um atleta com 45 bpm, tontura, desmaio ou incapacidade de elevar a frequência durante o exercício, é outra.
Nesses casos, a investigação pode incluir:
- eletrocardiograma;
- Holter de 24 a 48 horas;
- teste ergométrico ou teste cardiopulmonar;
- ecocardiograma;
- exames laboratoriais, como eletrólitos e função tireoidiana;
- ressonância cardíaca em situações selecionadas.
A escolha dos exames deve ser individualizada. Nem todo atleta com bradicardia precisa de uma investigação extensa, mas todo atleta sintomático merece uma avaliação cuidadosa.
O papel do teste de esforço
O teste de esforço é uma ferramenta muito útil na diferenciação entre adaptação fisiológica e possível disfunção do sistema de condução.
Durante o exercício, espera-se que a frequência cardíaca aumente de forma progressiva e proporcional à intensidade do esforço. Quando isso acontece, o achado favorece uma interpretação fisiológica.
Por outro lado, quando o atleta não consegue elevar adequadamente a frequência cardíaca, mesmo diante de esforço crescente, pode haver incompetência cronotrópica ou disfunção do nó sinusal.
Por isso, em medicina esportiva, não basta olhar apenas para a frequência cardíaca de repouso. É preciso observar como o coração se comporta em movimento.
Saber diferenciar adaptação cardiovascular de sinal de alerta é uma das competências mais importantes na avaliação de atletas.
No curso de Cardiologia do Esporte da MedEsporte Papers, você aprofunda a interpretação de eletrocardiograma, teste de esforço, arritmias, síncope e critérios de risco no contexto esportivo.
Bradicardia em atletas de endurance e em atletas de força

Nem todos os esportes produzem o mesmo padrão de adaptação cardiovascular.
Atletas de endurance, como corredores de longa distância, ciclistas, nadadores e triatletas, costumam apresentar maior redução da frequência cardíaca de repouso. Isso ocorre pela combinação de maior predominância vagal, maior volume sistólico e remodelamento cardíaco mais relacionado ao componente aeróbico.
Já atletas de modalidades predominantemente resistidas, como musculação, levantamento de peso e esportes de força, podem apresentar adaptações diferentes. A bradicardia pode ocorrer, mas tende a ser menos acentuada do que em atletas de endurance.
Esse detalhe é importante porque a modalidade esportiva ajuda a interpretar o exame. Uma frequência cardíaca de 38 bpm em um maratonista experiente tem um peso clínico diferente da mesma frequência em uma pessoa sedentária ou em alguém que treina de forma irregular.
E se o atleta tiver menos de 40 bpm?
Frequências abaixo de 40 bpm podem acontecer em atletas muito treinados, especialmente durante o sono. Porém, esse achado deve ser interpretado com mais cautela quando aparece em vigília, principalmente se o atleta não tem volume de treino compatível ou se apresenta sintomas.
Algumas perguntas ajudam na avaliação:
- Esse atleta treina há quanto tempo?
- Qual é o volume semanal de treino?
- A frequência baixa ocorre apenas durante o sono ou também durante o dia?
- Há tontura, desmaio, fadiga ou queda de performance?
- A frequência cardíaca sobe adequadamente no exercício?
- Há alterações no eletrocardiograma além da bradicardia?
- Existe história familiar de morte súbita ou doença cardíaca hereditária?
Essas respostas costumam orientar melhor a conduta do que o valor isolado da frequência cardíaca.
Erros comuns na prática clínica
1. Tratar toda bradicardia como doença
Uma frequência cardíaca abaixo de 60 bpm não é, sozinha, um diagnóstico. Em atletas, esse achado pode ser uma adaptação normal ao treinamento.
2. Ignorar sintomas porque o paciente é atleta
O extremo oposto também é perigoso. Nem toda bradicardia em atleta é automaticamente benigna. Sintomas como síncope, tontura, fadiga desproporcional ou intolerância ao exercício precisam ser investigados.
3. Pedir exames sem considerar o contexto
A avaliação deve ser guiada pela história clínica, modalidade esportiva, carga de treino, exame físico e eletrocardiograma. Exames complementares são importantes, mas devem responder a uma pergunta clínica.
4. Desconsiderar a idade do atleta
A interpretação da bradicardia em um atleta jovem pode ser diferente daquela em um atleta master. Com o envelhecimento, aumentam a prevalência de doença cardiovascular, alterações de condução e uso de medicamentos que podem reduzir a frequência cardíaca.
5. Avaliar apenas o repouso
O comportamento da frequência cardíaca durante o exercício é uma informação decisiva. Um coração que bate devagar em repouso, mas responde bem ao esforço, tende a sugerir adaptação fisiológica.
Limitações da evidência
Apesar dos avanços na cardiologia do esporte, ainda existem áreas de incerteza.
Grande parte dos estudos sobre coração de atleta envolve indivíduos jovens, saudáveis e praticantes de esportes de endurance. Ainda há dúvidas sobre os efeitos do treinamento extremo ao longo de décadas, especialmente em atletas masters.
Também se discute a relação entre exercício de endurance em alto volume, remodelamento cardíaco e maior risco de algumas arritmias ao longo da vida, como fibrilação atrial em determinados perfis.
Isso não diminui os benefícios do exercício físico. Pelo contrário: o exercício regular segue sendo uma das estratégias mais importantes para saúde cardiovascular. O que muda é a necessidade de avaliação individualizada, principalmente em atletas sintomáticos, com histórico familiar relevante ou com alterações em exames.
Resumo prático
- Bradicardia em atletas frequentemente é normal.
- A principal explicação é a adaptação ao treinamento, com maior eficiência cardiovascular em repouso.
- Frequências entre 40 e 60 bpm são comuns em atletas de endurance.
- Valores mais baixos podem ocorrer em atletas muito treinados, especialmente durante o sono.
- Sintomas mudam a interpretação e exigem investigação.
- O teste de esforço ajuda a avaliar se a frequência cardíaca sobe adequadamente.
- O contexto clínico é mais importante do que um número isolado.
Conclusão
A bradicardia em atleta pode ser normal, especialmente quando ocorre em indivíduos bem treinados, assintomáticos e com boa resposta da frequência cardíaca ao esforço.
Mas ela não deve ser banalizada.
A avaliação correta depende da história clínica, da modalidade esportiva, da carga de treino, dos sintomas, do eletrocardiograma e, quando necessário, de exames complementares.
Na prática, a pergunta mais importante não é apenas “qual é a frequência cardíaca?”. A pergunta é: essa bradicardia combina com o atleta que está na minha frente?
Essa é a diferença entre olhar um número e fazer medicina esportiva de verdade.
Se você deseja interpretar eletrocardiogramas, adaptações cardiovasculares, bradicardia, arritmias e critérios de risco em atletas com mais segurança clínica, aprofunde-se em Cardiologia do Esporte.
Referências
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PELLICCIA, A. et al. 2020 ESC Guidelines on sports cardiology and exercise in patients with cardiovascular disease. European Heart Journal, 2021.
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Autor
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Médica do Esporte formada pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 2007, com especialização em Nutrologia pela ABRAN e título de especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela SBMEE.
Atua na avaliação, acompanhamento e cuidado de atletas e praticantes de atividade física, com experiência em maratonas e eventos esportivos. É sócia da clínica IEMEX Performance, em Curitiba, e também realiza atendimentos em consultório particular na Clinica CMI em Mafra/SC.
Sua prática integra medicina do esporte, nutrologia e promoção da saúde, com foco em performance, prevenção de lesões, qualidade de vida e longevidade ativa.