
Atletas de endurance podem apresentar concentrações de testosterona mais baixas do que homens fisicamente ativos ou praticantes de modalidades com menor volume de treinamento. Esse achado, porém, nem sempre significa hipogonadismo. Então quando devemos suspeitar de testosterona baixa em atleta de endurance?
Em corredores, ciclistas, triatletas e outros atletas submetidos a grandes cargas de treinamento, a redução da testosterona pode refletir baixa disponibilidade energética, recuperação insuficiente ou uma adaptação ao exercício prolongado. Em outros casos, pode ser a primeira pista de uma doença endócrina que precisa ser investigada.
O desafio clínico está justamente em diferenciar essas situações. Tratar apenas o resultado do exame, sem considerar sintomas, treinamento, alimentação e desejo reprodutivo, pode levar a diagnósticos equivocados e condutas potencialmente prejudiciais.
Esse raciocínio integrado entre endocrinologia e fisiologia do exercício faz parte dos temas abordados no curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
Este artigo aborda principalmente atletas homens. A interpretação da testosterona em mulheres segue outra lógica e não deve utilizar os mesmos critérios diagnósticos empregados para o hipogonadismo masculino.
A testosterona realmente diminui em atletas de endurance?
Pode diminuir.
Atletas submetidos durante anos a grandes volumes de treinamento aeróbio podem apresentar testosterona total ou livre persistentemente mais baixa. Na literatura, esse fenômeno é frequentemente descrito como Exercise Hypogonadal Male Condition (EHMC).
O termo, entretanto, não corresponde a um diagnóstico clínico universalmente estabelecido. Em muitos atletas, a testosterona permanece na faixa inferior da normalidade, sem sintomas claros de deficiência androgênica. Ainda não está totalmente definido se isso representa uma adaptação fisiológica ao exercício crônico, uma manifestação de baixa disponibilidade energética ou um estado de hipogonadismo funcional.
Também é importante lembrar que uma sessão extenuante, uma competição prolongada, privação de sono, doença aguda e ingestão energética insuficiente podem reduzir transitoriamente a testosterona.
Por isso, um resultado isolado — especialmente quando coletado logo após um período de treinamento intenso — não confirma hipogonadismo.
Quando a testosterona baixa em atleta de endurance merece investigação?
A investigação ganha relevância quando o resultado laboratorial se repete e está associado a manifestações compatíveis com deficiência androgênica.
Os sinais e sintomas que mais aumentam a suspeita são:
- queda persistente da libido;
- redução ou desaparecimento das ereções espontâneas matinais;
- disfunção erétil;
- infertilidade ou alteração da espermatogênese;
- perda não planejada de massa muscular;
- redução da força sem explicação aparente;
- fadiga persistente;
- piora do humor e da disposição;
- redução inexplicada da densidade mineral óssea.
Em atletas, outros achados devem levantar a possibilidade de baixa disponibilidade energética e RED-S, como:
- perda de peso recente ou dificuldade em manter o peso;
- restrição alimentar intencional;
- recuperação cada vez mais lenta;
- queda persistente da performance;
- infecções recorrentes;
- lesões por sobrecarga;
- fraturas por estresse;
- alterações do sono e do humor.
Fadiga, piora da recuperação e queda de rendimento são manifestações pouco específicas. Podem ocorrer por deficiência de ferro, anemia, hipotireoidismo, distúrbios do sono, excesso de treinamento, infecções, transtornos do humor ou alimentação inadequada. A testosterona não deve ser considerada a causa apenas porque veio abaixo do valor de referência.
Pérola clínica
Em homens, diminuição da libido e perda das ereções matinais são mais sugestivas de deficiência androgênica do que fadiga ou queda de performance isoladas.
Qual é a relação entre testosterona baixa e RED-S?
A deficiência relativa de energia no esporte, conhecida como RED-S, deve ocupar uma posição central na investigação do atleta de endurance.
A condição ocorre quando a ingestão energética é insuficiente para sustentar simultaneamente as demandas do treinamento e as funções fisiológicas do organismo. Isso pode acontecer mesmo quando o atleta não apresenta peso muito baixo ou um transtorno alimentar formal.
Diante da falta de energia disponível, o organismo reduz atividades consideradas menos urgentes para a sobrevivência. Entre as possíveis consequências está a supressão funcional do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, com redução da secreção de gonadotrofinas e da produção de testosterona.
Esse processo pode ser acompanhado por alterações em outros mediadores hormonais e metabólicos, como:
- LH e FSH;
- leptina;
- triiodotironina;
- IGF-1;
- cortisol.
Nenhum desses marcadores, isoladamente, confirma RED-S. A interpretação deve considerar história clínica, comportamento alimentar, composição corporal, carga de treinamento, saúde óssea e evolução da performance.
A calculadora de disponibilidade energética pode ajudar na estimativa inicial. O resultado, contudo, não substitui a avaliação clínica e nutricional individualizada.
Como investigar a testosterona baixa no atleta?
A investigação começa antes do pedido de exames. Uma anamnese bem conduzida costuma revelar se a alteração surgiu após aumento da carga, perda de peso, restrição alimentar ou mudança importante na rotina.
História clínica e esportiva
Vale investigar:
- modalidade e tempo de prática;
- volume e intensidade semanais;
- aumento recente da carga de treinamento;
- período de competições;
- dias destinados à recuperação;
- perda ponderal recente;
- ingestão calórica e distribuição dos macronutrientes;
- disponibilidade de carboidratos ao redor dos treinos;
- qualidade e duração do sono;
- estresse psicológico;
- uso de medicamentos ou suplementos;
- uso atual ou prévio de esteroides anabolizantes;
- consumo de álcool e outras substâncias;
- histórico de trauma testicular, cirurgia ou infecção;
- cefaleia, alterações visuais ou sintomas hipofisários;
- desejo reprodutivo atual ou futuro.
No exame físico, é importante avaliar composição corporal, massa muscular, distribuição de pelos, ginecomastia, volume testicular e outros sinais que possam sugerir doença testicular ou hipofisária.
Quais exames solicitar?
O diagnóstico de hipogonadismo masculino não deve ser feito com base em uma única dosagem.
A avaliação inicial geralmente inclui:
- testosterona total pela manhã, preferencialmente em jejum;
- repetição da testosterona total em outra manhã;
- LH;
- FSH;
- SHBG, quando indicada;
- testosterona livre calculada ou medida por método adequado, quando indicada.
A testosterona livre torna-se particularmente útil quando a testosterona total está próxima do limite inferior ou quando existe alguma condição capaz de modificar a SHBG.
Conforme o quadro clínico, também podem ser necessários:
- prolactina;
- TSH e T4 livre;
- hemograma;
- ferritina e perfil de ferro;
- função hepática e renal;
- glicemia e perfil metabólico;
- estradiol;
- espermograma;
- densitometria óssea;
- investigação da hipófise.
A Diretriz Brasileira sobre Hipogonadismo Masculino reforça que o diagnóstico exige manifestações clínicas compatíveis e confirmação laboratorial da testosterona baixa em coletas matinais.
Pérola clínica
Sempre que possível, evite avaliar a testosterona no dia seguinte a uma prova longa, durante doença aguda ou após uma semana de sobrecarga incomum. O exame deve representar o estado habitual do atleta, e não apenas a resposta transitória a um estressor.
Como interpretar LH e FSH?
Depois de confirmar a testosterona baixa, as gonadotrofinas ajudam a localizar a provável origem da alteração.
| Resultado | Interpretação mais provável |
|---|---|
| Testosterona baixa com LH e FSH elevados | Hipogonadismo primário, de origem testicular |
| Testosterona baixa com LH e FSH baixos ou inadequadamente normais | Hipogonadismo secundário ou funcional |
| Testosterona limítrofe com SHBG alterada | Necessidade de avaliar a testosterona livre |
| Testosterona baixa após grande carga ou restrição energética | Possível supressão funcional, a ser confirmada após recuperação |
No contexto de RED-S, é comum encontrar testosterona reduzida associada a LH e FSH baixos ou inadequadamente normais. O mesmo padrão, entretanto, também pode ocorrer em doenças hipotalâmicas ou hipofisárias, hiperprolactinemia, uso de opioides e após suspensão de esteroides anabolizantes.
A presença de gonadotrofinas baixas, portanto, não deve ser automaticamente atribuída ao treinamento.
É correto tratar apenas porque a testosterona está baixa?

Na maioria das vezes, não.
Antes de considerar qualquer terapia hormonal, é necessário esclarecer a causa da alteração. Quando há suspeita de baixa disponibilidade energética, o tratamento inicial deve priorizar:
- aumento da ingestão energética;
- melhor distribuição de carboidratos e proteínas ao longo do dia;
- redução temporária da carga de treinamento, quando necessária;
- inclusão de períodos adequados de recuperação;
- melhora da duração e da qualidade do sono;
- acompanhamento nutricional;
- tratamento de fatores psicológicos ou comportamentais associados.
A recuperação do eixo hormonal pode levar semanas ou meses. Por isso, o acompanhamento deve considerar a evolução clínica, a correção dos fatores precipitantes e novas avaliações laboratoriais.
A terapia com testosterona pode ser indicada nos casos de hipogonadismo orgânico devidamente confirmado, mas não deve ser utilizada como estratégia para corrigir fadiga, acelerar a recuperação ou melhorar a performance.
Testosterona exógena, fertilidade e antidoping
A testosterona exógena suprime a produção de LH e FSH, reduz a testosterona intratesticular e pode comprometer significativamente a espermatogênese. Em alguns homens, pode ocorrer azoospermia.
Por esse motivo, o desejo reprodutivo deve ser discutido antes de qualquer tratamento. Prescrever testosterona para um atleta jovem sem abordar fertilidade é um erro clínico relevante.
No esporte competitivo, existe ainda a questão regulatória. A testosterona integra a categoria de agentes anabólicos proibidos pela Agência Mundial Antidoping e é vedada dentro e fora de competição. Seu uso terapêutico por atleta sujeito a controle antidoping exige indicação médica legítima e, quando aplicável, uma Autorização de Uso Terapêutico válida, conforme as normas da organização responsável.
A prescrição médica, sozinha, não elimina o risco de uma violação antidoping. A Lista Proibida da WADA de 2026 deve ser consultada na avaliação de atletas competitivos.
Erros comuns na prática clínica
Entre os erros mais frequentes estão:
- solicitar apenas testosterona total;
- diagnosticar hipogonadismo com uma única coleta;
- colher o exame em período de doença ou sobrecarga aguda;
- atribuir fadiga e queda de performance exclusivamente à testosterona;
- desconsiderar alterações da SHBG;
- não investigar baixa disponibilidade energética;
- ignorar o uso prévio de anabolizantes;
- deixar de avaliar LH, FSH e prolactina;
- iniciar testosterona sem esclarecer a etiologia;
- não discutir fertilidade;
- ignorar as regras antidoping.
Limitações das evidências
Existe uma associação plausível entre treinamento prolongado de endurance, baixa disponibilidade energética e redução da testosterona. Ainda assim, não há consenso sobre critérios diagnósticos específicos para a chamada Exercise Hypogonadal Male Condition.
Grande parte dos estudos é observacional, utiliza amostras pequenas e inclui atletas com diferentes modalidades, volumes de treinamento e padrões alimentares. Também faltam valores de referência específicos para atletas e dados mais consistentes sobre os efeitos de longo prazo da testosterona cronicamente baixa nesse grupo.
Outra dificuldade é separar o efeito do treinamento daquele provocado por restrição energética, baixo peso corporal, estresse competitivo e recuperação insuficiente.
Na prática, o diagnóstico deve integrar sintomas, avaliações laboratoriais seriadas, estado energético, carga de treinamento e exclusão de outras causas de hipogonadismo.
Resumo prático
A testosterona baixa em um atleta de endurance não significa automaticamente hipogonadismo.
A investigação está especialmente indicada quando a alteração é persistente e acompanhada por sintomas sexuais, reprodutivos, musculares ou ósseos. Baixa disponibilidade energética e RED-S devem ser consideradas desde o início, mas não podem ser utilizadas para explicar todos os casos sem uma investigação adequada.
Antes de prescrever testosterona, é necessário:
- confirmar o resultado em pelo menos duas coletas matinais;
- interpretar testosterona total, SHBG e testosterona livre quando apropriado;
- avaliar LH e FSH;
- revisar alimentação, carga de treinamento, sono e recuperação;
- excluir causas testiculares, hipofisárias, medicamentosas e sistêmicas;
- discutir fertilidade e regras antidoping.
Essa abordagem reduz o risco de transformar uma adaptação transitória em doença e, ao mesmo tempo, evita que um hipogonadismo verdadeiro passe despercebido.
Conclusão
O atleta de endurance com testosterona baixa não precisa automaticamente de reposição hormonal. Precisa, antes de tudo, de contexto.
Saber quanto ele treina, como se alimenta, se está perdendo peso, como dorme e quais sintomas apresenta é tão importante quanto conhecer o valor da testosterona. Quando essa análise é feita de forma estruturada, torna-se possível diferenciar uma supressão funcional potencialmente reversível de uma doença endócrina que exige tratamento específico.
Atender atletas exige compreender as adaptações fisiológicas ao exercício sem perder de vista as condições verdadeiramente patológicas. Para aprofundar esse raciocínio clínico com base em evidências e aplicação prática, conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.
Referências
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WORLD ANTI-DOPING AGENCY. World Anti-Doping Code: International Standard — Prohibited List 2026. Montreal: WADA, 2026.
Autor
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Médica do Esporte formada pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, em 2007, com especialização em Nutrologia pela ABRAN e título de especialista em Medicina do Exercício e do Esporte pela SBMEE.
Atua na avaliação, acompanhamento e cuidado de atletas e praticantes de atividade física, com experiência em maratonas e eventos esportivos. É sócia da clínica IEMEX Performance, em Curitiba, e também realiza atendimentos em consultório particular na Clinica CMI em Mafra/SC.
Sua prática integra medicina do esporte, nutrologia e promoção da saúde, com foco em performance, prevenção de lesões, qualidade de vida e longevidade ativa.
Instagram: @dracarla.melo
