Exercício físico melhora resistência à insulina? Entenda a fisiologia e o impacto na HbA1c

Ilustração sobre exercício físico, resistência à insulina e captação de glicose pelo músculo, comparando treino aeróbio e resistido.

Sim. O exercício físico melhora a resistência à insulina, e isso ocorre por mecanismos que vão muito além da perda de peso.

No músculo esquelético, a contração consegue aumentar a captação de glicose por vias que não dependem integralmente da sinalização da insulina. Depois do exercício, há ainda um período de maior sensibilidade insulínica; com o treinamento repetido, surgem adaptações adicionais envolvendo GLUT4, metabolismo do glicogênio, função mitocondrial, capilarização, massa muscular e, provavelmente, outros tecidos envolvidos na homeostase glicêmica.

Essa é justamente uma das razões pelas quais entender fisiologia do exercício muda a maneira como o médico interpreta e prescreve atividade física. No curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber, discutimos como transformar esses mecanismos fisiológicos em raciocínio clínico e prescrição de exercício.

Mas uma pergunta permanece: aeróbio, musculação ou treinamento combinado — qual estratégia tem maior impacto sobre resistência à insulina e hemoglobina glicada?

A resposta exige separar o efeito agudo do exercício das adaptações provocadas pelo treinamento crônico.

Antes de comparar: “anaeróbio” não é sinônimo perfeito de musculação

Quando se fala em treinamento “aeróbio versus anaeróbio”, existe uma simplificação conceitual.

Nenhuma modalidade de exercício utiliza exclusivamente um único sistema energético. Exercícios resistidos, sprints e HIIT apresentam grande participação do metabolismo anaeróbio, mas não representam a mesma intervenção fisiológica.

Na literatura sobre diabetes tipo 2, as comparações mais consistentes são entre treinamento aeróbio, treinamento resistido e treinamento combinado. Portanto, é essa classificação que faz mais sentido utilizar clinicamente.

O HIIT merece uma discussão própria: trata-se predominantemente de uma estratégia aeróbia intervalada de alta intensidade, embora exista participação resistida importante durante os esforços.

Por que o exercício melhora a resistência à insulina?

Para entender a resposta, é útil começar pelo músculo esquelético.

Durante o exercício, esse tecido precisa aumentar rapidamente a produção de ATP. Para isso, aumenta a utilização de substratos energéticos, incluindo glicogênio muscular e glicose circulante. A particularidade fisiológica é que a contração muscular consegue estimular a captação de glicose mesmo quando a sinalização insulínica está comprometida.

Essa característica é especialmente relevante no diabetes tipo 2 e em outros estados de resistência à insulina. A revisão de Sylow e colaboradores destaca que a captação de glicose estimulada pelo exercício permanece relativamente preservada no músculo insulinorresistente.

Portanto, durante a contração, o músculo dispõe de uma espécie de “rota alternativa” para aumentar a entrada de glicose. Mas chamar isso simplesmente de “ativação da AMPK” é uma simplificação excessiva.

A fisiologia da captação de glicose durante o exercício

A captação muscular de glicose depende, de maneira integrada, de três etapas: entrega da glicose ao músculo, transporte através da membrana celular e metabolismo intracelular da glicose. Nenhuma delas parece ser comandada por uma única via molecular.

1. Aumenta a oferta de glicose ao músculo

Quando o músculo entra em atividade, aumenta o débito cardíaco e ocorre vasodilatação local, elevando drasticamente a perfusão dos músculos recrutados.

Além do aumento do fluxo sanguíneo global, ocorre recrutamento microvascular, aumentando a superfície capilar disponível para troca de oxigênio e substratos.

Em outras palavras: antes mesmo de discutir GLUT4, é necessário lembrar que o exercício melhora a própria entrega da glicose à fibra muscular.

2. A contração promove translocação do GLUT4

Em repouso, uma das principais formas de estimular a translocação do GLUT4 para a membrana da fibra muscular é a sinalização da insulina. No indivíduo insulinorresistente, essa sinalização encontra-se prejudicada.

A contração muscular, entretanto, ativa uma rede parcialmente diferente de sinais intracelulares capazes de estimular a translocação do GLUT4. Entre os mecanismos investigados estão alterações no estado energético celular, sinalização envolvendo AMPK, cálcio/calmodulina e vias ativadas por estresse mecânico, incluindo RAC1.

É importante fazer uma ressalva: AMPK não deve ser apresentada como o único “interruptor” responsável pela captação de glicose durante o exercício. A literatura molecular mostra considerável redundância entre essas vias, e a participação relativa de cada uma varia de acordo com intensidade, duração e modelo experimental.

Do ponto de vista clínico, entretanto, o resultado é bastante claro: a contração aumenta a disponibilidade de GLUT4 na membrana e facilita a entrada de glicose na fibra muscular sem exigir que toda a cascata clássica da insulina esteja funcionando normalmente.

3. O próprio metabolismo muscular mantém o gradiente para entrada de glicose

Não basta transportar GLUT4 para a membrana.

Depois que a glicose entra na fibra, ela precisa ser metabolizada. Hexoquinase, glicólise, oxidação da glicose e síntese de glicogênio ajudam a manter o gradiente necessário para que mais glicose continue entrando.

O conteúdo de glicogênio também participa dessa regulação: à medida que o glicogênio muscular é utilizado durante o exercício, aumenta a importância da glicose circulante como substrato.

Isso ajuda a explicar por que intensidade e duração da sessão modificam substancialmente a resposta glicêmica.

O segundo efeito: depois do exercício, o músculo fica mais sensível à insulina

O benefício metabólico não termina quando o paciente sai da esteira ou guarda os pesos.

Após uma sessão de exercício existe um período durante o qual a ação da insulina permanece aumentada. O consenso do American College of Sports Medicine descreve melhora da sensibilidade sistêmica — e possivelmente hepática — à insulina após atividade física por períodos que podem variar aproximadamente entre 2 e 72 horas, dependendo do exercício e da população estudada.

Estudos mecanísticos também demonstram aumento da sensibilidade à insulina nas horas subsequentes ao esforço. Uma das explicações fisiológicas é simples: depois que parte do glicogênio foi consumida, o músculo precisa restaurar seus estoques.

Nesse cenário, há aumento da capacidade de captar glicose estimulada pela insulina e direcioná-la para ressíntese de glicogênio.

Isso explica uma observação clínica importante: o efeito do exercício sobre resistência à insulina não depende necessariamente de emagrecimento.

O consenso da ACSM descreve melhora do controle glicêmico, da sensibilidade à insulina e de outros marcadores metabólicos mesmo na ausência de perda ponderal significativa.

E o que acontece quando o paciente treina repetidamente?

Uma sessão produz um efeito agudo.

Treinar durante semanas e meses produz adaptações estruturais.

O treinamento aeróbio aumenta capacidade oxidativa e conteúdo mitocondrial, além de favorecer adaptações vasculares e aumento da expressão de proteínas relacionadas ao transporte e metabolismo da glicose.

Já o treinamento resistido adiciona outro mecanismo extremamente relevante: aumento ou preservação da massa muscular.

Mais músculo significa maior quantidade de tecido metabolicamente capaz de captar glicose e armazená-la na forma de glicogênio.

Treinamentos resistidos também foram associados a aumento do conteúdo de GLUT4, atividade da glicogênio sintase e melhora da captação de glicose estimulada pela insulina.

O treinamento combinado reúne parte dessas adaptações. O esquema apresentado na revisão de Savikj e Zierath mostra bem essa complementaridade: o exercício aeróbio privilegia capacidade cardiorrespiratória, biogênese mitocondrial e endurance; o resistido favorece hipertrofia e força; e ambos melhoram capacidade de transporte de glicose e síntese de glicogênio.

Exercício também pode atuar fora do músculo

Reduzir resistência à insulina não é apenas colocar mais GLUT4 na membrana.

O treinamento regular pode melhorar a capacidade oxidativa muscular, reduzir gordura visceral em determinados pacientes e modificar a inflamação metabólica associada à adiposidade.

Em uma meta-análise de 24 ensaios randomizados envolvendo adultos sedentários sem diabetes, o treinamento combinado reduziu glicemia de jejum, insulina de jejum e HOMA-IR. Entretanto, não houve redução significativa da HbA1c nessa população.

Essa distinção é importante.

Em um indivíduo com glicemia inicialmente normal, existe menos espaço fisiológico para reduzir a hemoglobina glicada. Isso não significa que não tenham ocorrido adaptações metabólicas.

Por isso, em pacientes sem diabetes, marcadores como insulina de jejum ou HOMA-IR podem responder mesmo quando a HbA1c praticamente não se altera.

Quanto o exercício reduz a hemoglobina glicada?

Aqui chegamos à pergunta mais útil para a prática clínica.

Em pessoas com diabetes tipo 2, os diferentes tipos de treinamento melhoram o controle glicêmico, mas os efeitos observados variam conforme HbA1c basal, volume de treinamento, intensidade, duração da intervenção, medicação concomitante, adesão e características dos pacientes.

Uma síntese razoável dos estudos utilizados neste artigo é:

ModalidadeEfeito observado sobre HbA1c em DM2Interpretação
AeróbioEm revisões, aproximadamente −0,5 a −0,7 ponto percentual; uma meta-análise clássica relatou cerca de −0,67 ponto percentualEvidência consistente de melhora glicêmica e da sensibilidade à insulina
ResistidoEnsaios prolongados descritos na literatura mostram aproximadamente −0,4 a −0,8 ponto percentual em comparação ao cuidado habitualAlém do efeito agudo, adiciona massa muscular e capacidade de armazenamento de glicogênio
CombinadoEm um RCT clássico, cerca de −0,9 ponto percentual, versus aproximadamente −0,4 a −0,5 com modalidades isoladasFrequentemente apresenta maior redução, mas parte da vantagem pode decorrer de maior volume total de exercício
HIITPode melhorar glicemia, resistência à insulina e HbA1c; a magnitude varia muito conforme protocolo e populaçãoÉ estratégia distinta do treinamento resistido e não deve ser simplesmente chamada de “anaeróbio”

O consenso da ACSM resume reduções de HbA1c de aproximadamente 0,5–0,7 ponto percentual com treinamento aeróbio regular.

Na revisão de Savikj e Zierath, treinamento resistido por cinco a seis meses foi associado a reduções de aproximadamente 0,4–0,8 ponto percentual, enquanto um estudo comparando modalidades encontrou redução aproximada de 0,9 ponto percentual com treinamento combinado, contra cerca de 0,4–0,5 ponto percentual com modalidades isoladas.

Aqui existe uma pegadinha metodológica importante.

O combinado é realmente superior?

À primeira vista, parece que sim.

Tanto o consenso da ACSM quanto diferentes revisões relatam que o treinamento combinado pode produzir maior redução da HbA1c que treinamento aeróbio ou resistido isoladamente.

Porém, isso não significa necessariamente que exista algum efeito metabólico “mágico” na combinação.

Em diversos estudos, quem realizou aeróbio + resistido também fez mais exercício total.

Portanto, torna-se difícil separar o efeito da modalidade do efeito da dose.

Savikj e Zierath chamam atenção explicitamente para esse problema: parte da aparente superioridade do treinamento combinado pode ser consequência do maior volume de exercício e não exclusivamente da combinação fisiológica entre os dois estímulos.

Essa diferença é fundamental na interpretação dos estudos.

A mensagem mais correta não é “combinado sempre vence”.

É que a combinação tem excelente racional fisiológico e frequentemente apresenta bons resultados clínicos, mas comparações entre modalidades precisam considerar volume, intensidade e aderência.

Aeróbio: melhora da capacidade oxidativa e da ação da insulina

O treinamento aeróbio oferece dois mecanismos particularmente relevantes.

Primeiro, durante o exercício, a própria contração aumenta a captação de glicose independentemente da via clássica da insulina.

Segundo, o treinamento crônico melhora a capacidade oxidativa do músculo, conteúdo mitocondrial, transporte de glicose e resposta à insulina.

O consenso da ACSM relata que mesmo intervenções aeróbias relativamente curtas podem melhorar a ação da insulina e que sete dias de treinamento vigoroso já foram capazes de melhorar a glicemia sem perda ponderal, por aumento da disposição de glicose estimulada pela insulina e redução da produção hepática de glicose.

Por outro lado, parte dessa melhora é transitória.

A revisão de Savikj e Zierath descreve estudos em que glicemia e insulina começaram a retornar em direção aos valores anteriores aproximadamente 72 horas após a última sessão.

Isso ajuda a entender por que regularidade talvez seja tão importante quanto escolher a modalidade perfeita.

Treinamento resistido: músculo também é um órgão metabólico

O treinamento resistido costuma ser reduzido à ideia de “ganhar força”.

Metabolicamente, isso é insuficiente.

Músculo esquelético representa um importante compartimento para utilização e armazenamento de glicose. Preservar ou aumentar massa muscular amplia esse reservatório metabólico.

Além disso, o treinamento de força modifica a própria maquinaria celular envolvida na ação da insulina.

Estudos compilados na revisão de Savikj e Zierath mostram aumento do conteúdo de GLUT4, da atividade da glicogênio sintase e da captação de glicose após treinamento resistido.

Isso é especialmente relevante em indivíduos mais velhos, nos quais resistência à insulina, sarcopenia e aumento da adiposidade frequentemente coexistem.

Reduzir peso às custas de perda de massa magra não é metabolicamente equivalente a reduzir gordura preservando musculatura.

Treinamento combinado: dois estímulos, mecanismos complementares

A lógica do treinamento combinado é fisiologicamente atraente.

O componente aeróbio estimula capacidade oxidativa, função cardiorrespiratória e adaptações mitocondriais.

O componente resistido aumenta força, massa muscular e capacidade de armazenar glicogênio.

Uma meta-análise recente em adultos sedentários sem diabetes encontrou redução significativa da glicemia de jejum, insulina e HOMA-IR com treinamento combinado, reforçando que os benefícios metabólicos aparecem mesmo antes do desenvolvimento de diabetes manifesto.

No entanto, a ausência de efeito significativo sobre HbA1c nessa meta-análise também demonstra por que não devemos extrapolar diretamente resultados entre indivíduos normoglicêmicos e pessoas com diabetes.

E o HIIT?

Maior intensidade pode gerar importante estímulo metabólico em menos tempo.

O consenso da ACSM descreve melhora da hiperglicemia pós-prandial após sessões de exercício intervalado de alta intensidade em pessoas com diabetes tipo 2.

Um ensaio randomizado publicado em 2025 e fornecido entre as referências deste artigo comparou treinamento combinado aeróbio + resistido com HIIT durante 12 semanas em pacientes com diabetes tipo 2. Os dois programas produziram melhora de parâmetros glicêmicos e funcionais em comparação ao grupo controle.

Entretanto, esse estudo foi unicêntrico, teve duração curta e seus resultados se referem a participantes aderentes e sem complicações avançadas, limitando a generalização. Os valores de redução de HbA1c observados foram particularmente elevados em relação ao que costuma aparecer nas meta-análises, de modo que não devem ser utilizados isoladamente como expectativa de resposta para o paciente individual.

O paciente precisa emagrecer para melhorar a resistência à insulina?

Não.

Esse talvez seja um dos erros mais comuns ao discutir exercício e metabolismo.

Redução de gordura visceral pode claramente contribuir para melhorar resistência à insulina, sobretudo em pacientes com excesso de adiposidade.

Mas exercício também consegue melhorar a sensibilidade à insulina independentemente de perda ponderal relevante.

Isso acontece porque massa corporal é apenas uma das variáveis envolvidas.

Alterações em GLUT4, metabolismo do glicogênio, capacidade oxidativa, perfusão muscular, massa magra e sinalização intracelular podem ocorrer antes que a balança mostre qualquer mudança importante.

Por isso, usar apenas peso corporal como marcador da eficácia metabólica do exercício é um erro.

Quando fazer o exercício também pode importar

Para controle da hiperglicemia pós-prandial, o momento da sessão pode modificar a resposta.

O consenso da ACSM relata que, na maior parte dos estudos agudos, exercício realizado após as refeições reduz melhor os picos glicêmicos que exercício realizado antes da refeição.

Isso não significa que todos os pacientes devam obrigatoriamente treinar depois de comer, mas mostra que timing do exercício pode ser usado como ferramenta metabólica, especialmente quando existe hiperglicemia pós-prandial predominante.

Esse assunto se conecta diretamente ao nosso conteúdo sobre exercício em jejum versus alimentado e seus efeitos sobre glicose e balanço energético.

Como levar isso para a prática clínica?

O objetivo não deveria ser simplesmente dizer ao paciente: “faça exercício”.

É mais útil pensar em dose, modalidade, frequência, intensidade, progressão, segurança e adesão.

Para resistência à insulina, existe racional para combinar exercício aeróbio e resistido: um trabalha fortemente capacidade oxidativa e condicionamento cardiovascular; o outro preserva ou aumenta massa muscular, força e capacidade de armazenamento de glicose.

Mas o programa teoricamente ideal que o paciente não consegue manter tende a ser inferior a um programa fisiologicamente adequado, progressivo e realizado de forma consistente.

É aqui que fisiologia do exercício deixa de ser conteúdo acadêmico e passa a modificar conduta.

No curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber, aprofundamos justamente essa ponte entre metabolismo, avaliação clínica e prescrição segura de exercício para diferentes perfis de paciente.

Erros comuns ao interpretar exercício e resistência à insulina

Um erro frequente é assumir que qualquer redução da glicemia representa melhora estrutural permanente da resistência à insulina. Parte da resposta é aguda e desaparece quando o paciente interrompe o treinamento.

Outro é acreditar que somente o exercício aeróbio possui efeito metabólico relevante. Treinamento resistido modifica tanto massa muscular quanto mecanismos celulares envolvidos na captação de glicose.

Também é inadequado afirmar que combinado é necessariamente superior sem olhar a dose total de treinamento. Em vários ensaios, o grupo combinado acumulou maior volume de exercício.

E talvez o erro mais importante seja esperar que todos os pacientes apresentem a mesma redução da HbA1c. Quanto maior a hiperglicemia inicial, maior costuma ser o espaço para melhora; medicações, alimentação, adesão, duração do diabetes e características individuais também interferem no resultado.

A terapia nutricional no diabetes continua, portanto, sendo parte do mesmo raciocínio terapêutico e não uma intervenção concorrente ao exercício.

Limitações da evidência

Apesar da consistência geral do efeito do exercício sobre metabolismo da glicose, comparar diretamente modalidades é difícil.

Os estudos utilizam diferentes intensidades, frequências, durações e populações. O volume de exercício frequentemente não é equiparado entre os grupos. Estudos de treinamento combinado podem oferecer uma dose total maior de exercício, confundindo a interpretação sobre qual modalidade seria responsável pela diferença.

Outra limitação é a escolha do desfecho.

HOMA-IR é um marcador indireto e predominantemente relacionado ao estado de jejum; clamp hiperinsulinêmico-euglicêmico, testes de tolerância e monitorização contínua fornecem informações fisiológicas diferentes.

Da mesma forma, HbA1c é excelente para avaliação clínica, mas não captura necessariamente todas as mudanças em sensibilidade à insulina. Isso fica claro na meta-análise de adultos sedentários sem diabetes: insulina e HOMA-IR melhoraram, enquanto HbA1c não apresentou mudança significativa.

Também não devemos transformar mecanismos moleculares plausíveis em certezas clínicas. AMPK, RAC1, TBC1D1/TBC1D4, cálcio e outras vias participam da resposta à contração, mas a regulação da captação de glicose é redundante e ainda não completamente elucidada.

Resumo prático

Exercício físico melhora resistência à insulina por duas vias complementares. Durante a própria sessão, a contração muscular aumenta a captação de glicose por mecanismos parcialmente independentes da insulina. Depois do exercício, a sensibilidade à insulina permanece aumentada por horas e, com o treinamento crônico, surgem adaptações como maior conteúdo de GLUT4, melhora da função mitocondrial, maior capacidade de síntese de glicogênio, aumento ou preservação de massa muscular e alterações favoráveis na composição corporal.

Em pessoas com diabetes tipo 2, treinamento aeróbio costuma reduzir HbA1c aproximadamente 0,5–0,7 ponto percentual, enquanto estudos de treinamento resistido relatam reduções na ordem de 0,4–0,8 ponto percentual. Estratégias combinadas frequentemente produzem reduções maiores e chegaram a aproximadamente 0,9 ponto percentual em ensaios clássicos, mas essa vantagem deve ser interpretada considerando que o volume total de exercício frequentemente também é maior.

Na prática, portanto, a pergunta não deveria ser apenas “qual exercício baixa mais a HbA1c?”, e sim qual combinação de estímulo aeróbio, treinamento de força, volume, intensidade e frequência produz adaptação metabólica suficiente e pode ser mantida pelo paciente com segurança.

Este conteúdo é educacional e não substitui avaliação médica individualizada. Em pessoas com diabetes, especialmente em uso de insulina ou medicamentos associados a hipoglicemia e na presença de complicações cardiovasculares, autonômicas, renais, neurológicas ou oftalmológicas, a prescrição precisa ser individualizada.

A fisiologia precisa terminar em prescrição

Entender que exercício aumenta GLUT4 é interessante. Entender quando isso muda a conduta do médico, como escolher a modalidade e como organizar uma prescrição de exercício é muito mais útil.

Se você quer aprofundar fisiologia, avaliação e prescrição de exercício com aplicação médica prática, conheça o curso A Medicina do Esporte que Todo Médico Tem que Saber.


Autor

Aldir Alves de Azevedo Filho | @aldirfi

CRM/DF: 33.829 – Endocrinologia e Metabologia


Referências

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Autor

  • Aldir

    🎓 Médico especialista em Clínica Médica
    🩺 PRM Endocrinologia e Metabologia - HUB | UnB
    CRM-DF 33.829 | RQE: 24835

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