A busca por peptídeo para libido cresceu nos últimos anos, puxada pelo uso cada vez mais amplo, e muitas vezes excessivo, de testosterona.

9 minutos
Nos Estados Unidos, o número de pessoas tratadas com TRT (terapia de reposição de testosterona) subiu 27% entre 2018 e 2022, boa parte disso por plataformas de telemedicina que prescrevem fora dos critérios recomendados. Esse uso excessivo se difunde hoje principalmente pela internet, que aproxima o paciente de clínicas online e de comunidades que tratam TRT e peptídeo como um pacote só. A bremelanotida já é oferecida como complemento direto nessas mesmas clínicas. Nem todo peptídeo, porém, tem evidência clínica consistente para essa finalidade, e muitos produtos comercializados extrapolam os dados científicos disponíveis.
Para o médico que deseja compreender esse tema de forma crítica e baseada em evidências, conhecer os mecanismos fisiológicos e as limitações da literatura é fundamental. Se você deseja aprofundar sua formação em peptídeos terapêuticos, confira o curso Peptídeos Terapêuticos e na Performance.
Existe um peptídeo que realmente aumenta a libido?
A resposta curta é: alguns peptídeos demonstram benefício em situações específicas, mas não existe um peptídeo para libido universal.
A libido é resultado da interação entre fatores:
- hormonais;
- neurológicos;
- psicológicos;
- relacionais;
- metabólicos;
- cardiovasculares.
Portanto, tratar apenas um desses componentes raramente resolve todos os casos.
O peptídeo com melhor evidência para libido
Entre os peptídeos estudados para desejo sexual, a bremelanotida (PT-141) é aquele que possui maior quantidade de evidências clínicas.
Seu mecanismo de ação difere dos inibidores da fosfodiesterase-5. Em vez de atuar predominantemente sobre a vasodilatação peniana, a bremelanotida age sobre receptores melanocortínicos no sistema nervoso central, modulando circuitos envolvidos no desejo sexual.
Os melhores resultados foram observados em mulheres com transtorno do desejo sexual hipoativo na pré-menopausa. Em homens, os estudos ainda são limitados e não permitem concluir benefício consistente para uso rotineiro.
Essa lacuna fica ainda mais evidente em uma população específica do consultório de medicina esportiva: atletas que suprimem o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal com uso de esteroides anabolizantes e, ao interromper o ciclo, apresentam hipogonadismo transitório com testosterona endógena próxima de zero. A queda de libido nesse quadro, descrito na literatura como hipogonadismo induzido por esteroides anabolizantes, é um achado bem documentado. Relatos informais em comunidades online de TRT e bodybuilding descrevem o uso extra-bula de bremelanotida e de melanotan II para sustentar o desejo sexual durante essa janela; não há relato equivalente de uso de kisspeptina ou oxitocina especificamente nesse contexto. Nenhum dos quatro peptídeos citados nesta matéria tem ensaio clínico controlado testando-o nessa população, e a evidência de cada um fica ainda mais frágil quando extrapolada para esse cenário.
O enquadramento antidopagem também varia: a bremelanotida não está nomeada nas listas atuais da WADA, o que não significa liberação automática; o melanotan II, por nunca ter aprovação regulatória em nenhum país, se enquadra com mais clareza como substância não aprovada. Qualquer orientação a atleta testado exige verificação individualizada.
Para um aprofundamento específico sobre esse tema, consulte o conteúdo já publicado pela MedEsporte Papers sobre o tratamento da baixa libido com bremelanotida/PT-141.

Outros peptídeos citados para libido
Kisspeptina, oxitocina e melanotan II aparecem com frequência ao lado da bremelanotida nas mesmas buscas e comunidades online, mas cada um está em um patamar de evidência diferente.
| Peptídeo | Evidência humana | Aprovação regulatória | Status WADA | Aplicação clínica |
|---|---|---|---|---|
| Bremelanotida (PT-141) | Sólida em mulheres pré-menopausa | Aprovado (FDA, Vyleesi 2019) | Não nomeada | Indicado para TDSH em mulheres pré-menopausa |
| Kisspeptina | Promissora, ensaios pequenos | Não aprovado | Não nomeada | Investigacional, sem uso clínico rotineiro |
| Oxitocina | Inconsistente, sem vantagem sobre placebo | Não aprovado | Permitido | Não recomendado |
| Melanotan II | Ausente, sem ensaio controlado | Não aprovado | Proibido (S0) | Não recomendado |
A kisspeptina tem os dados mais promissores depois da bremelanotida. Dois ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, conduzidos pelo mesmo grupo do Imperial College London, mostraram que a infusão de kisspeptina modula o processamento cerebral do desejo sexual e aumenta a resposta a estímulos sexuais em homens e mulheres com transtorno do desejo sexual hipoativo. São estudos pequenos, 32 participantes em cada braço, e ainda sem aprovação regulatória, mas representam a evidência controlada mais consistente fora da bremelanotida.
A oxitocina carrega a reputação de “hormônio do vínculo”, mas o principal ensaio clínico randomizado e controlado por placebo em mulheres com disfunção sexual não encontrou vantagem sobre o placebo em nenhum dos três resultados avaliados. A plausibilidade biológica é forte; o resultado controlado não confirma benefício.
O melanotan II é o precursor não seletivo que deu origem à bremelanotida e continua vendido informalmente para bronzeamento e libido. Diferente da bremelanotida, nunca recebeu aprovação regulatória em nenhum país, e a literatura documenta eventos adversos sérios associados ao seu uso, incluindo rabdomiólise e infarto renal.
Peptídeos Terapêuticos e na Performance
Por que nem toda baixa libido responde a peptídeos?
Na clínica, a redução da libido pode decorrer de múltiplas causas, incluindo:
- hipogonadismo;
- hiperprolactinemia;
- depressão;
- ansiedade;
- uso de antidepressivos;
- privação de sono;
- obesidade;
- diabetes;
- doenças cardiovasculares;
- problemas relacionais.
Sem identificar a etiologia, qualquer intervenção tende a apresentar resultados limitados.

Em quais pacientes um peptídeo pode fazer sentido?
- mulheres com transtorno do desejo sexual hipoativo diagnosticado, após investigação etiológica completa;
- pacientes em quem causas hormonais, psiquiátricas, farmacológicas e relacionais já foram investigadas e tratadas ou razoavelmente excluídas;
- nunca como primeira conduta, sem investigação da causa;
- fora do perfil aprovado (mulheres pré-menopausa com TDSH), o uso é off-label e exige discussão explícita de riscos, custo e ausência de evidência controlada.
O fluxo de decisão, na prática, segue essa ordem:
- Paciente com queixa de baixa libido.
- Investigar a causa: hipogonadismo (incluindo o induzido por esteroides anabolizantes), hiperprolactinemia, depressão, ansiedade, uso de antidepressivos, privação de sono, obesidade, diabetes, doença cardiovascular ou problema relacional.
- Causa identificada → tratar a causa de base primeiro.
- Sintoma persiste após tratar a causa, ou nenhuma causa identificada apesar de investigação completa → considerar TDSH primário.
- TDSH confirmado em mulher pré-menopausa → a bremelanotida é a opção com maior respaldo de evidência.
- Fora desse perfil → qualquer peptídeo deve ser tratado como uso experimental, com discussão explícita de riscos e da ausência de evidência controlada.
O que dizem as evidências?
Os estudos disponíveis mostram que:
- a bremelanotida possui eficácia moderada em um grupo específico de pacientes;
- os efeitos não são universais;
- a resposta clínica varia entre indivíduos;
- ainda existem limitações importantes relacionadas à duração dos estudos e aos resultados avaliados.
Além disso, diversos peptídeos vendidos para “libido” simplesmente não possuem ensaios clínicos consistentes que sustentem essa indicação.
Peptídeos Terapêuticos e na Performance
Erros comuns na prática
Alguns equívocos frequentemente observados incluem:
- indicar peptídeos sem investigação diagnóstica;
- prometer aumento importante da libido baseado apenas em plausibilidade biológica;
- extrapolar resultados obtidos em modelos animais;
- extrapolar relatos anedóticos de fóruns e comunidades online para a prática clínica sem dado controlado;
- confundir melhora da ereção com aumento do desejo sexual;
- ignorar fatores psicológicos e comportamentais.
CTA intermediário
A utilização racional de peptídeos exige conhecimento de farmacologia, fisiologia e interpretação crítica da literatura científica. Se esse tema faz parte da sua prática clínica, aprofunde-se no curso Peptídeos Terapêuticos e na Performance.
Limitações da evidência
Embora o interesse pelos peptídeos terapêuticos seja crescente, ainda existem lacunas importantes:
- poucos estudos de longo prazo;
- escassez de comparações diretas entre terapias;
- dados limitados em diferentes populações;
- ausência de evidências para diversos peptídeos divulgados comercialmente.
Assim, a indicação deve sempre considerar a qualidade da evidência disponível e a avaliação clínica individual.
Resumo prático
- Nem todo peptídeo melhora a libido.
- A bremelanotida é o principal peptídeo com evidência clínica para desejo sexual hipoativo em mulheres na pré-menopausa.
- Kisspeptina, oxitocina e melanotan II também circulam no mercado de peptídeos para libido, cada um com um patamar de evidência diferente da bremelanotida.
- Em homens, as evidências permanecem limitadas.
- A investigação da causa da baixa libido continua sendo o passo mais importante.
- O uso de peptídeos deve ser baseado em evidências, e não em promessas de marketing.
Conclusão
O entusiasmo em torno dos peptídeos não deve substituir o raciocínio clínico. A baixa libido continua sendo um sintoma multifatorial, e a investigação da causa permanece mais importante do que a escolha de qualquer molécula. Atualmente, apenas a bremelanotida dispõe de evidência clínica relativamente consistente para uma indicação específica; para os demais peptídeos, o uso ainda deve ser considerado experimental ou sem respaldo suficiente para recomendação rotineira.
A avaliação da baixa libido raramente se resolve em uma única molécula: exige o mesmo raciocínio clínico estruturado que sustenta o restante da prática com atletas e pacientes ativos. Se esse for o seu campo, conheça também o curso Medicina Esportiva.
Referências
- Kingsberg SA, Clayton AH, Portman D, Williams LA, Krop J, Jordan R, Lucas J, Simon JA. Bremelanotide for the Treatment of Hypoactive Sexual Desire Disorder: Two Randomized Phase 3 Trials. Obstet Gynecol. 2019;134(5):899-908.
- Clayton AH, Althof SE, Kingsberg S, DeRogatis LR, Kroll R, Goldstein I, Kaminetsky J, Spana C, Lucas J, Jordan R, Portman DJ. Bremelanotide for female sexual dysfunctions in premenopausal women: a randomized, placebo-controlled dose-finding trial. Womens Health (Lond). 2016;12(3):325-337.
- Rahnema CD, Lipshultz LI, Crosnoe LE, Kovac JR, Kim ED. Anabolic steroid-induced hypogonadism: diagnosis and treatment. Fertil Steril. 2014;101(5):1271-1279.
- Mills EG, Ertl N, Wall MB, Thurston L, Yang L, Suladze S, Hunjan T, Phylactou M, Patel B, Muzi B, Ettehad D, Bassett PA, Howard J, Rabiner EA, Bech P, Abbara A, Goldmeier D, Comninos AN, Dhillo WS. Effects of Kisspeptin on Sexual Brain Processing and Penile Tumescence in Men With Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2023;6(2):e2254313.
- Thurston L, Hunjan T, Ertl N, Wall MB, Mills EG, Suladze S, Patel B, Alexander EC, Muzi B, Bassett PA, Rabiner EA, Bech P, Goldmeier D, Abbara A, Comninos AN, Dhillo WS. Effects of Kisspeptin Administration in Women With Hypoactive Sexual Desire Disorder: A Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2022;5(10):e2236131.
- Muin DA, Wolzt M, Marculescu R, Sheikh Rezaei S, Salama M, Fuchs C, Luger A, Bragagna E, Litschauer B, Bayerle-Eder M. Effect of long-term intranasal oxytocin on sexual dysfunction in premenopausal and postmenopausal women: a randomized trial. Fertil Steril. 2015;104(3):715-723.
- Peters B, Hadimeri H, Wahlberg R, Afghahi H. Melanotan II: a possible cause of renal infarction: review of the literature and case report. CEN Case Rep. 2020;9(2):159-161.
Autor
-
Formação em medicina pela UCES. Médica auxiliar em clubes de rugby e hóquei, certificada pelo World Rugby Passport e União de Rugby de Buenos Aires. Praticante de CrossFit, Hyrox, corridas. Escreve sobre medicina do esporte unindo a vivência de campo, o treino e a evidência científica.
Tiktok: @analuisa.andrade
Instagram: analu.andrades

