Anabolizantes e Coração: 5 Achados Essenciais (2026)

anabolizantes: massa e fração de ejeção do ventrículo esquerdo com uso contínuo e após interrupção
Anabolizantes e coração: estudo de 7 anos mostra o que acontece com o ventrículo de quem continua ou para o uso. Veja os números e a conduta prática.

Os anabolizantes em doses suprafisiológicas são comuns entre praticantes de musculação, e o coração é um dos órgãos mais vulneráveis. A pergunta do consultório é direta: o dano progride se o uso continua? E melhora se o paciente para?

anabolizantes e musculação: praticante treinando na academia
Foto ilustrativa (Pexels).

Um estudo norueguês publicado no European Heart Journal – Cardiovascular Imaging (2026) acompanhou usuários por cerca de 7 anos para responder.

Anabolizantes e coração: 5 achados essenciais

  1. Quem manteve os anabolizantes seguiu com hipertrofia ventricular e fração de ejeção média de 48%.
  2. A função diastólica piorou em quem continuou o uso.
  3. Quem parou reduziu a massa ventricular em 21 g/m² e ganhou 6 pontos na fração de ejeção.
  4. No usuário ativo, tratar a hipertensão se associou a melhor fração de ejeção.
  5. 17% dos usuários contínuos tinham fração de ejeção ≤ 40%.
anabolizantes: ilustração de hipertrofia do ventrículo esquerdo
Hipertrofia do ventrículo esquerdo em corte transversal. Ilustração: Patrick J. Lynch / Wikimedia Commons, CC BY 2.5.

Como o estudo sobre anabolizantes foi feito

Coorte longitudinal em Oslo: homens avaliados entre 2017 e 2019 foram reexaminados em 2025, cerca de 6,5 anos depois.

  • Participantes: 70 usuários de anabolizantes e 35 controles que treinam força sem usar.
  • Grupos: uso contínuo (35), interrupção (15), abstinência mantida (14) e recaída (6).
  • Avaliação: ecocardiograma com strain analisado às cegas, perfil hormonal e urina testada em laboratório antidoping credenciado pela WADA.
  • Desfechos: massa do ventrículo esquerdo indexada (MVEi), fração de ejeção (FEVE), strain longitudinal global (SLG) e função diastólica.
anabolizantes: ecocardiograma com hipertrofia do ventrículo esquerdo
Ecocardiograma com septo e parede posterior espessados: exemplo de hipertrofia do VE. Imagem: Albert A. Hagège / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

Os usuários contínuos somavam 17 anos de uso em média. O estudo é observacional: mostra associação, não causa.

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Resultados: o coração com e sem anabolizantes

  • Uso contínuo: MVEi de 111 para 119 g/m² e FEVE de 49% para 48%. O dano se manteve, mesmo com a dose semanal caindo quase pela metade (965 para 529 mg).
  • Diástole: nos usuários contínuos, a relação E/A caiu e o volume atrial esquerdo indexado subiu 8 mL/m² (p < 0,001).
  • Interrupção (mediana de 6 anos): MVEi de 112 para 91 g/m² (p = 0,01), FEVE de 48% para 54% (p < 0,001) e SLG de −14,3% para −17,1% (p = 0,006).
  • Abstinência longa (mediana de 11 anos): MVEi caiu 20 g/m² (p = 0,02), com valores próximos aos dos controles.
  • Anti-hipertensivo no usuário ativo: FEVE +5 pontos, contra −4 sem tratamento (p = 0,005).

Na análise multivariada, estar em uso na reavaliação foi o fator mais associado a pior massa e função, mais do que a dose acumulada. Nove usuários (13%) tiveram queda ≥ 10 pontos na FEVE ou FEVE persistentemente abaixo de 40%; nos 7 que fizeram angiotomografia e ressonância cardíaca, não houve estenose coronariana significativa nem fibrose.

anabolizantes: massa e fração de ejeção do ventrículo esquerdo com uso contínuo e após interrupção
Massa e FEVE no início e após cerca de 6,5 anos (Abdullah et al., 2026).

Anabolizantes no consultório: como aplicar

  • Pergunte ativamente, e sem julgamento, sobre anabolizantes no praticante de musculação.
  • No usuário atual ou recente, peça ecocardiograma com strain: a FEVE pode estar baixa sem sintomas.
  • Parar o uso foi o fator mais associado à recuperação do coração. A pressão, porém, não melhorou só com a interrupção: trate e acompanhe.
  • Se o paciente não consegue ou não quer parar, trate a hipertensão, associada a melhor função sistólica.

Para aprofundar, leia nossos posts sobre anabolizantes e pressão alta e SARM, o esteroide seguro que não existe.

anabolizantes na Pós-Graduação em Medicina do Exercício e do Esporte

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Limitações e pontos-chave

  • Estudo observacional: não prova que parar o uso causa a melhora.
  • Subgrupos pequenos e perda de seguimento: voltaram 70 dos 101 usuários e 35 dos 71 controles.
  • Dose usada no período informada pelo próprio participante.
  • Uso de anti-hipertensivo registrado só na reavaliação.
  • Possível regressão à média e confusão por estimulantes e estilo de vida.

Mensagem central: o coração do usuário de anabolizantes não melhora enquanto o uso continua, mas tende a se recuperar depois da interrupção.

Precauções e recomendações

A disfunção sistólica pode ser silenciosa. Dispneia, palpitações ou síncope pedem investigação imediata. A interrupção deve ser planejada, com atenção à dependência, comum entre usuários. Cada paciente que usa anabolizantes deve ser avaliado individualmente.

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Referência

1. Abdullah R, Bjørnebekk A, Hullstein IR, Thorsby PM, Helle-Valle T, Edvardsen T, et al. Cardiovascular effects of continued vs. discontinued anabolic–androgenic steroid use: a longitudinal follow-up study. Eur Heart J Cardiovasc Imaging. 2026. doi: 10.1093/ehjci/jeag238

Autor: Dr. João Diniz | @dr.joaodiniz
CRM-SP 255.027
Medicina Esportiva USP

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