Os anabolizantes em doses suprafisiológicas são comuns entre praticantes de musculação, e o coração é um dos órgãos mais vulneráveis. A pergunta do consultório é direta: o dano progride se o uso continua? E melhora se o paciente para?

Um estudo norueguês publicado no European Heart Journal – Cardiovascular Imaging (2026) acompanhou usuários por cerca de 7 anos para responder.
Anabolizantes e coração: 5 achados essenciais
- Quem manteve os anabolizantes seguiu com hipertrofia ventricular e fração de ejeção média de 48%.
- A função diastólica piorou em quem continuou o uso.
- Quem parou reduziu a massa ventricular em 21 g/m² e ganhou 6 pontos na fração de ejeção.
- No usuário ativo, tratar a hipertensão se associou a melhor fração de ejeção.
- 17% dos usuários contínuos tinham fração de ejeção ≤ 40%.

Como o estudo sobre anabolizantes foi feito
Coorte longitudinal em Oslo: homens avaliados entre 2017 e 2019 foram reexaminados em 2025, cerca de 6,5 anos depois.
- Participantes: 70 usuários de anabolizantes e 35 controles que treinam força sem usar.
- Grupos: uso contínuo (35), interrupção (15), abstinência mantida (14) e recaída (6).
- Avaliação: ecocardiograma com strain analisado às cegas, perfil hormonal e urina testada em laboratório antidoping credenciado pela WADA.
- Desfechos: massa do ventrículo esquerdo indexada (MVEi), fração de ejeção (FEVE), strain longitudinal global (SLG) e função diastólica.

Os usuários contínuos somavam 17 anos de uso em média. O estudo é observacional: mostra associação, não causa.
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Resultados: o coração com e sem anabolizantes
- Uso contínuo: MVEi de 111 para 119 g/m² e FEVE de 49% para 48%. O dano se manteve, mesmo com a dose semanal caindo quase pela metade (965 para 529 mg).
- Diástole: nos usuários contínuos, a relação E/A caiu e o volume atrial esquerdo indexado subiu 8 mL/m² (p < 0,001).
- Interrupção (mediana de 6 anos): MVEi de 112 para 91 g/m² (p = 0,01), FEVE de 48% para 54% (p < 0,001) e SLG de −14,3% para −17,1% (p = 0,006).
- Abstinência longa (mediana de 11 anos): MVEi caiu 20 g/m² (p = 0,02), com valores próximos aos dos controles.
- Anti-hipertensivo no usuário ativo: FEVE +5 pontos, contra −4 sem tratamento (p = 0,005).
Na análise multivariada, estar em uso na reavaliação foi o fator mais associado a pior massa e função, mais do que a dose acumulada. Nove usuários (13%) tiveram queda ≥ 10 pontos na FEVE ou FEVE persistentemente abaixo de 40%; nos 7 que fizeram angiotomografia e ressonância cardíaca, não houve estenose coronariana significativa nem fibrose.

Anabolizantes no consultório: como aplicar
- Pergunte ativamente, e sem julgamento, sobre anabolizantes no praticante de musculação.
- No usuário atual ou recente, peça ecocardiograma com strain: a FEVE pode estar baixa sem sintomas.
- Parar o uso foi o fator mais associado à recuperação do coração. A pressão, porém, não melhorou só com a interrupção: trate e acompanhe.
- Se o paciente não consegue ou não quer parar, trate a hipertensão, associada a melhor função sistólica.
Para aprofundar, leia nossos posts sobre anabolizantes e pressão alta e SARM, o esteroide seguro que não existe.

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Limitações e pontos-chave
- Estudo observacional: não prova que parar o uso causa a melhora.
- Subgrupos pequenos e perda de seguimento: voltaram 70 dos 101 usuários e 35 dos 71 controles.
- Dose usada no período informada pelo próprio participante.
- Uso de anti-hipertensivo registrado só na reavaliação.
- Possível regressão à média e confusão por estimulantes e estilo de vida.
Mensagem central: o coração do usuário de anabolizantes não melhora enquanto o uso continua, mas tende a se recuperar depois da interrupção.
Precauções e recomendações
A disfunção sistólica pode ser silenciosa. Dispneia, palpitações ou síncope pedem investigação imediata. A interrupção deve ser planejada, com atenção à dependência, comum entre usuários. Cada paciente que usa anabolizantes deve ser avaliado individualmente.
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Referência
1. Abdullah R, Bjørnebekk A, Hullstein IR, Thorsby PM, Helle-Valle T, Edvardsen T, et al. Cardiovascular effects of continued vs. discontinued anabolic–androgenic steroid use: a longitudinal follow-up study. Eur Heart J Cardiovasc Imaging. 2026. doi: 10.1093/ehjci/jeag238
Autor: Dr. João Diniz | @dr.joaodiniz
CRM-SP 255.027
Medicina Esportiva USP
